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PETROQUÍMICA
Petrobrás compra Suzano para acelerar o
Comperj
A Petrobrás assinou em 3 de agosto um contrato para adquirir a totalidade
das ações da Suzano Petroquímica em poder da Suzano Holding por R$ 2,1
bilhões. A estatal anunciou oferta pública de R$ 600 milhões pelas ações
em poder dos minoritários, a ser empreendida nos próximos meses. A
intenção declarada da companhia consiste em reforçar sua posição
estratégica no mercado petroquímico, além de estimular a criação da
Petroquímica do Sudeste, empresa que congregaria os interesses setoriais
na região, tornando-se uma concorrente com porte semelhante ao da Braskem.
Na semana seguinte, Petrobrás e Unipar iniciaram tratativas para unir seus
ativos petroquímicos regionais e criar a Companhia Petroquímica do Sudeste
(CPS). Até o dia 14 de agosto, porém, ainda não haviam sido definidas as
participações de cada acionista, nem a participação de terceiros na
complexa operação. O desejo manifestado pelas partes é de respeitar o
modelo de liderança privada, que teria 60% do capital votante. Para tanto,
porém, seria preciso que a Unipar exercesse o direito de preferência na
compra de uma participação na Suzano Petroquímica. A modelagem financeira
dessa etapa está em negociação, dependendo do apoio do BNDES ou do aporte
de recursos de fundos de pensão de estatais.
O anunciado respeito ao modelo de liderança privada na CPS deve
tranqüilizar o setor, temeroso de uma reestatização. Porém, a possível
participação dos fundos no capital do parceiro privado não pode ser
considerada alentadora. Essas manobras começam a ser vistas no setor como
decisões de interesse governamental, uma forma de desencadear
investimentos pesados no setor.
Embora representem uma etapa necessária à consolidação de ativos regionais
e sejam coerentes com o panorama mundial, esses movimentos também
sinalizam mudanças estratégicas da poderosa estatal, que pode voltar a ser
o principal player petroquímico nacional, papel desenvolvido até 1990. Até
o ano passado, os planos estratégicos da companhia para a petroquímica
tinham por Norte uma participação minoritária, porém relevante, nos
empreendimentos. A proposta em gestação pode ampliar o controle das
operações, direto ou indireto.
O presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli de Azevedo, afirmou que a
aquisição da Suzano precisa ser interpretada dentro de um contexto mais
amplo, incluindo o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), em
gestação. “A Petroquímica do Sudeste precisa ser grande, forte e contar
com capacidade financeira para se tornar um player global”, disse. Ele
defendeu a montagem de negócios que contemplem a participação acionária de
empresas privadas.
Pelo discurso de Gabrielli, a estatal considera um modelo petroquímico
nacional com duas grandes companhias: a Braskem (com ativos no Nordeste e
no Sul) e a Petroquímica Sudeste, esta em negociação, em especial com o
grupo Unipar, principal acionista da Petroquímica União (PqU). O executivo
defendeu que o mercado relevante para o setor é o internacional, no qual a
participação brasileira é irrisória. Além disso, ele acredita que essas
duas grandes empresas não serão necessariamente concorrentes, por usarem
matérias-primas diferentes. Atualmente isso não é verdadeiro, porém, se
efetivado, o Comperj mudará radicalmente o perfil, por consumir apenas o
óleo pesado extraído na Bacia de Campos. Colocado em um “mega-FCC”, esse
óleo dará origem a combustíveis e a insumos petroquímicos (eteno, propeno,
benzeno, xilenos).
“O Comperj é uma quebra de paradigma tão importante como foi a produção de
petróleo em águas profundas”, considerou o diretor de abastecimento da
estatal Paulo Roberto Costa.
A compra – A aquisição da Suzano Petroquímica deve ser concluída em
prazo mínimo de dois meses, tempo necessário para absorver as posições
minoritárias. O presidente da Petroquisa, subsidiária da estatal para o
setor petroquímico, José Lima de Andrade Neto, explicou que a empresa
adquirida não deixará de existir, mas seu registro em bolsa será
cancelado. “Ela servirá de base para outras negociações”, afirmou.
O desembolso de R$ 2,7 bilhões, além de mais de R$ 1,5 bilhão em dívidas
assumidas, será bancado pelo caixa da estatal, cujos lucros do primeiro
semestre de 2007 foram superiores a R$ 10 bilhões.
Ao comprar o braço petroquímico da Suzano, que está no ramo desde 1974, a
Petrobrás assume a maior produtora de polipropileno da América Latina, com
685 mil t/ano de capacidade atual, com expansões em andamento para chegar
a 875 t/ano até 2008. O grupo também detém 33,3% do capital total da
RioPol, produtora de polietilenos que utiliza gás natural fluminense,
20,1% da Petroflex e 6,8% da PqU. Ao final do processo, sem considerar
eventual exercício de preferência da Unipar, a Petrobrás, somando as
aquisições com sua posição atual, assumirá o comando da RioPol e terá
participação mais relevante na PqU (24%).
O valor da transação surpreendeu o mercado, por representar um múltiplo de
aproximadamente onze vezes a margem líquida (EBITDA) da adquirida.
Analistas consideram negócios similares aplicando múltiplos de cinco a
sete vezes o valor do EBITDA. A operação foi feita num ciclo de alta da
petroquímica mundial, próximo de um possível ponto de inflexão das curvas
de resultados, segundo as consultorias internacionais do ramo, motivado
pela entrada em operação de grandes produtoras de resinas termoplásticas
no Oriente Médio, abastecidas com gás natural de baixo custo. Andrade Neto
defendeu a operação nesse valor, apoiado por avaliação de consultores
externos.
Paulo Roberto Costa explicou que à Petrobrás só interessam os negócios com
as resinas termoplásticas derivadas do eteno e do propeno, com melhor
rentabilidade e maior relevância internacional. “A Petroflex já estava
sendo negociada e será efetivamente transferida”, disse. A afirmação é
coerente com a estratégia de negócio atual da estatal, mas deixa de
aproveitar uma oportunidade de valorização de um subproduto do refino e de
centrais petroquímicas, o butadieno. O mercado nacional de pneumáticos
apresenta excelente desenvolvimento. Além disso, a Petroflex nasceu da
antiga Fábrica de Borracha Sintética (Fabor), criada pela própria
Petrobrás.
O ano de 2007 está sendo generoso em negócios petroquímicos. Depois de um
prolongado marasmo, este ano começou quente, com a venda do grupo
Ipiranga, retalhado entre Petrobrás, Ultra e Braskem, resolvendo um
impasse de comando no Pólo Petroquímico Gaúcho, agora liderado pela
Braskem. No final de junho, foi a vez de a Unipar adquirir, por R$ 210
milhões, a vetusta fábrica de polietileno de baixa densidade (alta
pressão) de Cubatão e a participação de 13% no capital votante da PqU em
poder da Dow, oriundos da Union Carbide. Antes disso, a Unipar já
adquirira a participação em poder da Sociedade dos Empregados da
Petroquímica (SEP).
Esses antecedentes agitaram as águas tranqüilas do setor. A Unipar se
tornou preponderante na central petroquímica paulista, na qual a Petrobrás
contava com 17% do capital ordinário, e já havia feito uma oferta para
comprar a Suzano, porém em valor muito inferior. Está em jogo a liderança
no processo de consolidação regional do setor, posição publicamente
reivindicada pela Unipar.
Sobre todos os movimentos executados neste ano ainda pendem algumas
questões. A começar pelos exercícios de direitos de preferência dos
acionistas incluídos em pactos existentes. No caso da Ipiranga essa
questão está resolvida, mas o mesmo não se pode dizer em relação aos
demais. A Suzano tinha direito de adquirir participação proporcional no
share vendido pela Dow, a ser exercido até 25 de agosto. “Não exerceremos
essa opção porque já gastamos muito na compra da Suzano”, disse Paulo
Roberto Costa. No caso da Suzano, a Unipar também pode pleitear um pedaço
nas ações da RioPol compradas pela Petrobrás. Há também a espera pela
aprovação pelo órgão de defesa da concorrência (Cade).
No pólo gaúcho, falta completar o processo de integração dos ativos da
Petrobrás na Braskem, a começar pela participação minoritária (40%) na
Ipiranga Petroquímica. A Petroquímica Triunfo, resolvidas as pendências
entre acionistas, poderá também integrar-se, ao contrário da Innova, não
desejada pela Braskem por incompatibilidade de portfólio (produz
poliestireno). Pode ser que, a longo prazo, a unidade baiana de
polipropileno da Suzano venha a ser integrada ao complexo da Braskem, uma
decorrência lógica da estratégia de negócios. Finalizadas e aprovadas
essas transferências, a Petrobrás ampliaria significativamente sua
participação na Braskem, atualmente de 8% do capital votante. Aliás, em
2005, a companhia ofereceu alguns de seus ativos a fim de ampliar sua
participação para 30% na Braskem, porém não houve acordo quanto à
avaliação dos bens.
Certo é que a participação da Petrobrás na Petroquímica Sudeste seria mais
relevante. “Não interessa se as participações serão diferentes nos dois
grupos, ambos terão melhores condições de investimento e competitividade
com a consolidação setorial”, afirmou Paulo Roberto Costa. “Em todo o
mundo, o setor petroquímico está em fase de transição e é preciso
acompanhar as novas exigências de escala e de custos”, confirmou Andrade
Neto.
Novos rumos – As negociações de 2007 tornam mais nítido o perfil do
setor para os próximos anos. Das três hipóteses que se sustentavam há
cinco meses, a manutenção do quadro atual, a formação de um duopólio
comercial e a possibilidade de um monopólio petroquímico, só restaram as
duas últimas. A formação do duopólio, hipótese considerada pela direção da
Petrobrás, parece ser a mais viável. No entanto, cabe mencionar que as
duas grandes companhias petroquímicas teriam o mesmo fornecedor de
matérias-primas, que também seria acionista comum. Essa situação é
conhecida na história recente do Brasil, pois se trata do mesmo desenho da
petroquímica local dos anos 70 e 80, até ser modificado pelos leilões de
privatização do governo Collor.
Do ponto de vista dos consumidores, leia-se a transformação, essa
consolidação representa o risco de aumento de preços, por redução da
concorrência. Para os grupos privados petroquímicos, sempre há o risco de
as decisões setoriais serem influenciadas mais por Brasília do que pelo
comportamento do mercado. Como acontecia no século passado.
Dentro da Petrobrás a situação é controversa. Entre as várias correntes
ideológicas que convivem pelos corredores do imponente prédio da Avenida
Chile, no Rio, há quem apóie o atual movimento empreendido pela estatal,
explicado pela necessidade de valorizar os subprodutos de refino e também
os óleos pesados nacionais, ampliando o retorno financeiro. Porém há
defensores ferrenhos de uma ótica mais restritiva de investimentos,
privilegiando as áreas de exploração e produção e de refino e
distribuição. Para estes, os R$ 2,7 bilhões investidos nessa transação
deveriam ser alocados em uma plataforma para produção de gás natural na
Bacia de Santos, ou na produção do óleo leve capixaba.
É fato que a estrutura petroquímica nacional nem de longe se parece com a
dos anos 70, marcada pela fragmentação, com companhias monoprodutoras
dotadas de três acionistas principais, um dos quais estrangeiro. O esquema
atual já passou por uma consolidação notável, evidenciada pela formação da
Braskem. Mas ainda é a dona da matéria-prima (óleo ou gás) quem dá as
cartas.
Marcelo Fairbanks
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Estatal precisa definir seu papel |
“Queremos
uma definição clara sobre as intenções da Petrobrás no setor
petroquímico”, disse José Carlos Grubisich, presidente da Braskem. Até
agosto, a estatal respeitou o acordo feito com investidores setoriais
de assumir posição máxima de 40% nas empresas e projetos do setor, mas
as transações atuais ameaçam esse equilíbrio. Segundo ele, a definição
do papel da estatal é fundamental para a decisão de realizar novos
investimentos.
Grubisich ressalta que a estatal, mesmo como minoritária, não poderá
ter o direito de vetar os planos de investimento de cada companhia,
sob pena de criar conflitos de interesses, abalando a confiança do
mercado no setor. Como exemplo, ele citou a hipótese de a Petrobrás
ficar com 100% da Suzano e, ao mesmo tempo, deter 40% da unidade de
produção de polipropileno que está sendo construída em Paulínia-SP.
“Haveria um conflito evidente, o Cade não aprovaria”, disse.
O executivo considera como hipótese provável a formação da CPS sob a
liderança da Unipar, único grupo privado com posição regional
relevante para tanto. Nesse modelo, não se descarta a agregação de
outros sócios privados com interesses diretos.
Resolvido esse problema, será a vez de discutir a modelagem societária
do Comperj. “Solicitamos à Petrobrás mais detalhes sobre o projeto,
principalmente se ele será integrado ou dividido em gerações”,
explicou. A Braskem poderá se candidatar a produzir resinas
termoplásticas, desde que garantido o preço adequado para as
matérias-primas, óleo pesado (se integrado) ou olefinas (em gerações).
Bons resultados – A Braskem apresentou seus resultados para o segundo
trimestre de 2007, agora consolidando no balanço os números da Copesul
e Ipiranga Petroquímica, adquiridas no início do ano. “Conseguimos um
salto de qualidade e quantidade e nos tornamos relevantes em escala
mundial”, afirmou Grubisich. A empresa obteve a segunda melhor margem
líquida EBITDA (18,5%) do mundo, segundo informou, só perdendo para a
poderosa Sabic, estatal integrada da Arábia Saudita.
Considerando os últimos doze meses, usando uma aglutinação informal
dos resultados das adquiridas, a empresa obteve receita bruta de R$ 23
bilhões (US$ 11 bilhões), receita líquida de R$ 18 bilhões (US$ 8,7
bilhões) e EBITDA de R$ 3,5 bilhões (US$ 1,7 bilhão).
As vendas de resinas poliolefínicas (PE e PP) apresentaram crescimento
em relação ao primeiro trimestre do ano, apoiado na abertura de novos
mercados, especialmente no exterior. No período, o mercado nacional de
polietilenos cresceu 4%, mas as vendas da Braskem ficaram estáveis,
por causa do fraco desempenho do PEAD. As exportações dessas resinas
foram incrementadas em 12%. No PP, as importações de resina brecaram a
evolução das vendas nacionais da Braskem. Enquanto o mercado interno
foi ampliado em 13%, as vendas da empresa foram apenas 2% maiores. A
exportação, em compensação, cresceu em 21 mil t, ou seja, 109%.No PVC,
a Braskem aumentou sua participação no mercado nacional de 53% para
56%, |
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embora
o mercado interno tenha se retraído por movimentos de redução de
estoques em poder de distribuidores. Mas as importações também
recuaram de 23% para 17%. As vendas da Braskem para o Brasil em
vinílicos foram ampliadas em 16% no segundo trimestre deste ano, para
um aumento de mercado de 9%, puxado pela construção civil.
A nafta petroquímica, principal insumo da Braskem, teve alta de 21% em
dólares (cotação média ARA) sobre o período anterior, alcançando a
média de US$ 607/t. A Petrobrás forneceu 62% das 2.034 mil t de nafta
consumidas pela Braskem (Bahia e RS), ou seja, 1.259 mil t. Outras 775
mil t foram adquiridas de fornecedores africanos (Libéria e Algéria) e
argentinos. A falta de suprimento de gás natural na Bahia também
impactou em R$ 24 milhões os custos de produção da Braskem no primeiro
semestre, por exigir a queima de óleo combustível em suas caldeiras.
Até o final do ano, espera-se a chegada do gás do campo de Manati à
central de Camaçari, aliviando a despesa.
O lucro líquido do segundo trimestre foi de R$ 281 milhões, revertendo
o prejuízo de R$ 55 milhões do mesmo período do ano anterior,
explicado pelo melhor desempenho operacional. Em relação ao primeiro
trimestre, o lucro cresceu R$ 154 milhões, explicado pela incorporação
da Politeno.
A rentabilidade petroquímica está em patamar elevado, cumprindo o que
se espera dessa fase do ciclo setorial. Como as novas capacidades
produtivas tardam a entrar em operação, a exemplo dos projetos
iranianos, as fábricas operam com elevados índices de ocupação de
capacidades. Sendo a oferta limitada e a demanda crescente, resulta o
preço elevado dos produtos petroquímicos. A única ameaça aos bons
resultados setoriais reside na possível majoração das cotações do
petróleo e do gás natural nos próximos meses, capaz de apertar as
margens. “Até o final de 2008 e início de 2009, não se espera mudança
significativa no panorama mundial de negócios do setor”, afirmou
Grubisich.
Ele reafirmou o compromisso da Braskem em apoiar a cadeia produtiva do
plástico no Brasil ao manter o estrito alinhamento de preços com os
mercados internacionais. “Desde janeiro, os preços das resinas
praticamente não subiram em reais”, comentou, sem desconsiderar a
valorização da moeda em relação ao dólar. A ampliação do crédito aos
consumidores finais e a melhor distribuição de renda são apontados
como fatores importantes para o crescimento do mercado interno.
A Braskem espera completar a integração de ativos comprados da
Ipiranga até o final deste ano, dentro do cronograma previsto. A
Petroquímica Paulínia mantém o ritmo de obras, com previsão de iniciar
a produção de 350 mil t/ano em março de 2008. Prosseguem os estudos
para a construção das unidades para a produção de olefinas utilizando
gás natural, com unidades de polietilenos para mais de um milhão de
t/ano e 450 mil t/ano de polipropileno, em parceria com a PDVSA/Pequiven,
estatal da Venezuela, previstas para operar até o final de 2009.
“Esses projetos nos colocarão entre as dez maiores petroquímicas
mundiais”, disse Grubisich. |
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