E isso vale para todos os equipamentos, que demandam os chamados seqüestradores de oxigênio, polidores do pré-tratamento realizado por aquecedores-desaeradores. A necessidade da dosagem é porque esses equipamentos, que agitam e aquecem a água de alimentação até cair a solubilidade do oxigênio e o vapor de exaustão arrastá-lo, removem apenas até um certo limite os gases dissolvidos e indesejáveis (entre eles o O2).

A desaeração, dependendo do equipamento, reduz o oxigênio dissolvido da água para uma faixa que vai de 7 até 40 ppb. Pode parecer pouco, mas não para garantir a anticorrosividade das caldeiras. Daí a necessidade dos seqüestrantes de oxigênio. Nos sistemas de baixa e média pressão, o tratamento mais convencional é por sulfitos. Em específico o sulfito de sódio reage de pronto com o oxigênio, sob temperatura e pH elevados, formando sulfatos, freqüentemente purgados. Mas quando não há condições favoráveis para a reação é necessária ainda a dosagem de um catalisador, sendo os sais de cobalto os mais usados para este fim.

Já nas caldeiras de alta pressão, os sulfitos não são empregados por dois motivos principais. Primeiro, porque na alta pressão os sólidos dissolvidos originários do sulfito residual e pelo sulfato formado aumentariam o potencial de arraste e portanto a demanda de purga. E depois, talvez aí o principal problema, nas grandes caldeiras eles se decompõem termicamente e formam os corrosivos dióxido de enxofre (SO2) e sulfeto de hidrogênio (H2S), causadores de corrosão pós-caldeira, na distribuição do vapor. A presença dos dois subprodutos ainda causaria o surgimento de ácido sulfúrico (H2SO4) no condensado, o que inviabilizaria sua recirculação.
Aguiar: retorno de condensado é o primeiro nas altas pressões

Hidrazina, não – Dessa forma, há a necessidade de outros produtos para seqüestrar o restante do oxigênio dissolvido da água das caldeiras de alta pressão. De longe, o mais tradicional, e ainda mais empregado, é a hidrazina (N2H4). Trata-se de produto considerado de extrema eficiência, visto que sua reação com o oxigênio gera apenas subprodutos inertes, ou seja, água e nitrogênio (N2H4 + O2 —> 2H2O + N2).

Além disso, a hidrazina também reage na água com o óxido férrico ou óxido cúprico das superfícies dos equipamentos, gerando respectivamente magnetita (Fe3O4) e óxido cuproso. Isso passiva as superfícies metálicas de ferro e cobre, tornando-as menos suscetíveis à corrosão.Todas as vantagens da hidrazina não impediram que se levantassem nos últimos anos suspeitas sobre uma possível carcinogenicidade em humanos na sua manipulação, tendo em vista já ser considerada assim em animais. Daí para o produto passar a ser visto com cautela, sobretudo pelas grandes empresas, foi um pulo. Apesar de ainda usada, hoje é comum escutar juras de abandono do seqüestrante e, em alguns casos, de substituição definitiva por outro produto mais amigável.
Cuetos: pelo menos abrandadores para as caldeiras menores

Serve como exemplo relevante a Kurita, uma das principais fornecedoras de sistemas químicos para tratamento de água. A empresa, segundo revelou seu superintendente, José Aguiar Jr., tem como política para os próximos três anos tirar de vez a hidrazina dos seus vários tratamentos realizados no Brasil, seguindo uma tendência global adotada pela matriz japonesa. Aliás, a Kurita já tem incorporado essa regra em clientes importantes da petroquímica, como Riopol, PqU e Copesul, onde trata a água de suas caldeiras de alta pressão. Por precaução, as três centrais abandonaram a hidrazina.

As três clientes petroquímicas passaram a empregar como seqüestrantes a dietil-hidroxilamina, o DEHA. “Ele é um bom seqüestrante, mas pode formar alguns ácidos prejudiciais e demanda maior controle”, afirmou o líder da área técnica da Kurita, Antonio Ricardo Carvalho. Além disso, continua Carvalho, a opção pelo novo produto também deixa de agregar o fator bastante positivo da hidrazina de formar a camada de magnetita na superfície metálica, anticorrosiva. “A hidrazina, além de ser ótimo redutor, tem subprodutos úteis”, diz.

A escolha pelo DEHA nas aplicações em grandes petroquímicas, por enquanto, tem motivação muito ligada ao custo. “Ele se encaixa ao atual estágio dessas indústrias: substituir a hidrazina sem afetar o custo operacional, por ser uma solução barata”, explica o superintendente José Aguiar Jr. Mas o executivo projeta uma segunda fase, em que as indústrias passarão a aceitar substitutos melhores, a um custo superior. Nesse caso tornaria viável nacionalizar uma alternativa patenteada e já adotada pela matriz japonesa: a aminopiridina (AP). “Ela é muito eficiente e não gera subprodutos, mas ainda é cara para o industrial brasileiro”, diz. Com o plano da Kurita de abandonar a hidrazina em três anos, esta alternativa deve começar a ganhar peso, quando provavelmente terá seu preço diminuído.

Há vários outros seqüestrantes de oxigênio no mercado aproveitando a lacuna deixada pela hidrazina. A Nalco está trabalhando com a carbohidrazida como ingrediente ativo de um produto com a marca comercial Elimin-OX. Segundo o gerente de marketing Luis Cuetos, trata-se de substância que conseguiu preservar as qualidades da hidrazina, sem o seu risco, e ainda com algumas vantagens. Isso porque o ingrediente se transforma na própria hidrazina dentro da caldeira, ao reagir com o calor e a água.
 

 
  <<< Anterior