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EMBALAGEM
Combate à pirataria exige
técnicas de alta segurança
As vantagens oferecidas pelas embalagens vão muito além da estética
atraente. Quando são criativas e funcionais, elas valorizam as marcas e
agradam aos consumidores, sempre interessados em aproveitar os produtos
que adquirem com a maior praticidade possível.
Um outro aspecto, porém, vem chamando a atenção dos especialistas do
setor. É o da segurança. A oferta de produtos piratas está cada vez mais
sofisticada e gera bilhões de dólares em todo o mundo. Garantir ao usuário
que ele está comprando um produto legítimo passou a ser grande desafio
para as empresas, que podem ter sua imagem comprometida caso seus produtos
sejam confundidos com outros falsificados de baixa qualidade.
O tema segurança da embalagem foi motivo de encontro promovido pela
Associação Brasileira de Embalagem (Abre) no fim de maio em São Paulo. No
evento, representantes de empresas ligadas a cadeia produtiva do setor –
fabricantes de matérias-primas, equipamentos e de embalagens –
apresentaram soluções tecnológicas inovadoras.
A entidade aproveitou a oportunidade para informar que está criando o
Comitê Técnico de Segurança de Alimentos. O novo comitê tem como
principais objetivos orientar as empresas nacionais do ramo participantes
do segmento, com a eliminação de dúvidas provenientes da legislação e da
elaboração de monitoramento de embalagens e matérias-primas utilizadas.
Ele também deve prestar consultoria sobre legislação estrangeira, para as
empresas exportadoras, e criar algum tipo de controle sobre os importados.
Matérias-primas e equipamento – Estima-se que 5% da produção mundial de
medicamentos seja obra de empresas piratas. Tais medicamentos muitas vezes
não trazem ou trazem doses menores dos princípios ativos, sem falar que
podem apresentar alto grau de impurezas ou de substâncias contaminadas. No
Brasil, de acordo com dados da Federação Brasileira da Indústria
Farmacêutica (Febrafarma), essa taxa sobe para 10%. O prejuízo das
empresas nacionais gravita na casa dos US$ 900 milhões por ano. Além do
prejuízo pela concorrência desleal, os laboratórios estão sujeitos a
sofrer ações indenizatórias com valores pesados por danos causados pelos
medicamentos falsos que são vendidos com suas marcas.
De olho nessa realidade, a Suzano Papel e Celulose investiu nos últimos
meses e lança até o fim do ano um papel-cartão voltado para dificultar a
fraude de embalagens de medicamentos. Hoje, os principais meios de combate
à falsificação são o uso de tintas reativas e de lacres de segurança. “As
duas soluções têm se mostrado vulneráveis”, informa Cláudio Marques,
assessor de novos negócios da Suzano. De acordo com Marques, tais tintas
são comercializadas sem controle e os lacres utilizados são facilmente
copiáveis.
A solução encontrada pela Suzano prevê a produção de um papel-cartão
oferecido com termo de confidencialidade e dotado de insumos químicos
sigilosos. A matéria-prima oferece fácil verificação de autenticidade.
Além de oferecer um cartão diferenciado, a empresa também promete adotar
cuidados especiais na distribuição do produto. A matéria-prima chegará às
gráficas que produzirão as embalagens com base em logística desenvolvida
para assegurar que não haja extravios. O mesmo raciocínio vale para o
transporte do medicamento já embalado. “É uma operação complicada, o
Brasil possui mais de 70 mil farmácias”, revelou Marques.
Ainda no campo das embalagens, o evento contou com a participação da
Cromex, fabricante de concentrados de cor sólidos e líquidos e de
aditivos, produtos dirigidos a resinas plásticas. A empresa conta com três
unidades fabris, duas em São Paulo e uma na Bahia, e tem capacidade
produtiva de 84 mil toneladas por ano de produtos. Ela divulgou que a
utilização de raios laser pode ser útil para identificar códigos ocultos
em embalagens. “Os raios laser provocam diferentes efeitos em materiais
como plásticos, metais, vidros, cerâmicas e madeiras, entre outros”,
explicou Anderson Maia, representante do corpo técnico da empresa.
Operações que aumentam a segurança das embalagens, como as mais variadas
aplicações de hologramas, laminação difrativa e aplicação de microrrelevo
com designs personalizados exigem equipamentos sofisticados. Eduardo
Pereira, chefe dos instrutores da filial brasileira da Bobst, mostrou
inúmeras opções de máquinas de impressão e montagem de embalagens em
papel-cartão, papelão ou materiais flexíveis colocadas à disposição no
mercado pelo grupo multinacional, que tem origem suíça e nasceu há 130
anos. Ele está instalado no Brasil há 74 anos, com planta localizada no
município de Itatiba-SP.
Múltiplas soluções – O ramo de embalagens envolve uma infinidade de
empresas transformadoras. Cada produto exige uma solução personalizada.
Quando o assunto é segurança, as empresas responsáveis pela criação de
dispositivos se esmeram para criar proteções que, por sua sofisticação, se
tornam inviáveis às empresas que não se comovem diante dos princípios de
idoneidade.
A utilização em embalagens de pigmentos que se tornam visíveis quando
expostos ao raio ultravioleta é alternativa oferecida por várias empresas.
Uma delas é a Alcan Packaging, unidade especializada no fornecimento de
embalagens e responsável por 25% do faturamento mundial do grupo Alcan. A
empresa de embalagens atua em 31 países e obteve receita de US$ 6 bilhões
no ano passado.
No Brasil, a Alcan Packaging conta com cinco plantas industriais no Estado
de São Paulo, distribuídas nas cidades de São Paulo, Diadema, Mauá e Mogi
das Cruzes. No País, ela produz embalagens flexíveis e frascos plásticos,
entre outros produtos, e tem forte atuação nos campos alimentício,
farmacêutico, de cosméticos e na indústria de tabaco.
No campo de segurança contra falsificação, um dos trunfos da empresa é a
tecnologia N’Crypt. Ela prevê a impressão de códigos feitos com pigmentos
não visíveis a olho nu, mas que se tornam legíveis quando expostos ao raio
ultravioleta. Tais códigos podem ser impressos, por exemplo, em blisters
de comprimidos. A empresa também oferece acessórios, como canetas de raios
laser que permitem a rápida verificação da presença desses pigmentos.
Esses acessórios podem ser utilizados facilmente em operações de
fiscalização.
De acordo com Olinda Miranda, representante da Alcan Packaging, a empresa
também oferece outras soluções, adequadas aos mais variados produtos. Ela
lembra, por exemplo, que é comum o fato de empresas piratas aproveitarem
embalagens usadas para embalar produtos falsificados. Um produto onde
existem constantes ocorrências do gênero é a água mineral. Para eliminar o
problema, a empresa oferece lacres que, ao serem violados, não conseguem
ser recuperados.
Guilherme Mistretta, da divisão de sistemas de segurança da 3M, mostrou as
ferramentas oferecidas pela empresa para garantir a segurança das
embalagens. Entre as técnicas para assegurar a autenticidade, se encontram
soluções como aplicação de holografias, tintas que mudam de cor, marcas em
relevo e a impressão de imagens ocultas que podem ser vistas apenas por
meio de pequenos aparelhos geradores de raios ultravioleta.
Papéis ou filmes de plástico frágeis, materiais com mensagens gravadas e
matérias-primas que se delaminam são alguns dos produtos oferecidos pela
3M para garantir a inviolabilidade. Códigos de barra bidimensionais e um
microcircuito com sistema de identificação digital por sinais de
radiofreqüência presente nos produtos permitem rastrear os produtos
fabricados pelos clientes. “Todos os nossos produtos são distribuídos por
meio de uma logística que garante o acesso restrito dos compradores”,
garante Mistretta.
Um case de sucesso da 3M pode ser conferido na embalagem do defensivo
agrícola Standak, produto oferecido pela Basf e que vinha sofrendo graves
problemas de falsificação. O frasco passou a contar com uma série de
proteções, caso de um lacre que ao ser rompido muda de cor e da gravação
de uma imagem oculta, que se torna visível perante o raio emitido por um
dispositivo distribuído para os revendedores do produto. Para incentivar
os consumidores a fiscalizar a veracidade do produto durante a compra, a
Basf veiculou um comercial exibido nos intervalos do programa Globo Rural,
exibido pela Rede Globo de Televisão.
A Arjowiggins mantém 31 fábricas espalhadas em todo o mundo, nas quais
trabalham mais de oito mil funcionários. No Brasil, ela conta com uma
planta localizada no município de Salto-SP, única das três Américas
fabricante de papel-moeda, além de outros itens de segurança, como
passaportes e cheques, por exemplo. Ela é a maior fornecedora de papel
moeda do mundo.
Há quatro anos a empresa resolveu aproveitar seu know how em segurança
para criar soluções voltadas para embalagens. As ofertas passam pelo
fornecimento de papéis especiais, tecnologia de gravação de marcas
invisíveis a olho nu e outras criadas de acordo com a especificidade do
produto.
Os exemplos são variados. Para o sofisticado vinho francês Château d’Yquem,
cuja unidade custa alguns milhares de euros, a empresa fornece o papel
usado nas etiquetas, que é dotado com tecnologia sofisticada, similar à da
fabricação de cédulas.
A garrafa ainda conta com marca gravada no vidro, cujo código só é
conhecido por alguns peritos que prestam esse serviço. Outro cliente da Arjowiggins, a fabricante de eletrodomésticos Moulinex,
enfrentava um caso curioso de pirataria. A marca não atuava no Oriente
Médio, mas era a mais vendida da região. “Para eles, criamos etiquetas com
características autodestrutivas. A solução amenizou bastante o problema”,
revela Tadeu Lorenzi, representante da multinacional. Lorenzi também
brinca com a fama de outro cliente, a Ferrari. “É claro que ninguém
pirateia o automóvel. Mas todos os demais produtos licenciados pela marca
Ferrari têm soluções desenvolvidas por nós”, informa.
J. P. Sant’Anna
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