A ETE de Jundiaí também leva seu lodo até o agricultor, mesmo que este esteja a uma distância média de 100 km. “ É mais vantajoso que pagar o aterro”, diz Carvalho Oliveira, responsável pelo projeto desenvolvido em Jundiaí.

Na região, o custo da disponibilização do lodo em aterro é avaliado em R$ 80,00 a tonelada. A cidade gera 150 toneladas diárias de lodo, que são destinados, desde 2001, para canaviais (70% do total) e áreas de reflorestamento.

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Bueno: custo maior para tratar o lodo

O procedimento de gestores de ETEs que se dispõem a levar o lodo até o agricultor e emprestar equipamento para a aplicação do material tem sua lógica. Embora receba gratuitamente, o lodo sai mais caro ao agricultor do que o fertilizante tradicional. Segundo Edna Bertoncini, pesquisadora da A­­gên­cia Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), o hectare de área plantada requer de 500 kg a 1 tonelada de fertilizante mineral. Com o lodo, são necessárias de 10 a 15 vezes mais. Aplicar 15 toneladas de lodo por hectare custa perto de R$ 150,00. “É mais caro que usar fertilizante”, diz a pesquisadora. A vantagem do lodo é a matéria orgânica mais rica, que melhora a estrutura física do solo.

A grande dificuldade do agricultor é com o manuseio do lodo, que tem uma base líquida superior a 70% do total e há ainda a inconveniência do odor. O pior, porém, é o risco de contaminação do agricultor e das culturas agrícolas. O lodo de esgoto pode conter patógenos, bactérias e vírus.

 É nesta questão que se encaixa a segunda notícia que está mexendo com as estratégias das empresas de saneamento.O Conama classificou o lodo em duas classes, A e B, de acordo com seus indicadores bacteriológicos e patogênicos. Apenas o lodo Classe A, com índices mais baixos de agentes contaminantes, poderá ser amplamente empregado no plantio. O Conama estabeleceu para fevereiro de 2008 o prazo para as empresas enquadrarem seus resíduos.

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Oliveira: legislação mais restriva que a americana

Descontentes – Apesar de ter criado um pouco de ordem e higiene à prática, a notícia não foi bem recebida entre os gestores. Ocorre que a maioria das ETEs no Brasil produz lodo que foram classificados como Classe B. Agora eles terão de melhorar a qualidade do material tratado se quiserem ter a opção de destinar o lodo para a agricultura.   

“Estabelecer regras para o uso do lodo na agricultura foi um passo importante.

Mas a legislação brasileira ficou muito restritiva. É mais exigente e complexa do que a norte-americana”, diz Carvalho de Oliveira. Opinião compartilhada por Pegorini, Rodrigues Bueno e Carlos Roberto Ferreira, gerente de operações da Ambient, gestora da ETE de Ribeirão Preto.

Cuca Jorge

Vezzani é necessário ver o lodo como produto

“A resolução pode inviabilizar o uso do lodo na agricultura. Seria mais interessante um processo gradual de aprimoramento”, afirma Ferreira. Diante desta situação, Carvalho Oliveira está à frente da criação de uma associação que terá como objetivo reunir os gestores de ETEs que destinam seu lodo para a agricultura, com o objetivo de discutir questões técnicas e debater as medidas regulatórias com os órgãos públicos.

 Para viabilizar o uso do lodo na agricultura, as ETEs deverão reduzir o volume do material, secando-o, e terão de aumentar o seu grau de esterilização. Para isso, precisarão acrescentar mais uma etapa no tratamento de esgoto, após o deságüe. As alternativas tecnológicas e de custos são bastante variáveis.

Rodrigues Bueno informa que a ETE de Franca ainda não optou pela tecnologia que utilizará para aprimorar a qualidade do lodo. Segundo o executivo, a tonelada de Sabesfértil apresenta um custo que varia entre R$ 7,00 e R$ 10,00. Para adequar o lodo à classificação Classe A, estima o executivo, a tonelada passará a custar por volta de R$ 35,00, isto se for utilizada uma das tecnologias mais acessíveis para esse fim.

 Em Jundiaí, a decisão sobre a tecnologia a ser adotada já foi tomada. A ETE está implantando um processo de compostagem. O lodo é misturado com celuloses e a atividade dos microrganismos seca e higieniza o material. O custo da destinação final, estima Carvalho Oliveira, deverá ficar entre R$ 50,00 e R$ 55,00 a tonelada, sendo que 40% deste total se refere ao transporte do lodo/fertilizante até o agricultor.

Em Ribeirão Preto, informa Fer­reira, o que está em estudo é o uso da secagem térmica, processo tido como o mais avançado, mas também mais caro, devido ao seu alto consumo energético. A vantagem do sistema é que, além de esterilizar, pode reduzir, dependendo da tecnologia, para 5% a porcentagem de líquido no lodo. “Estudamos uma solução intermediária, com um grau de secagem menor, mas que apresente menor gasto de energia no processamento”, afirma o executivo. Hoje Ribeirão produz 70 toneladas diárias de lodo e estuda a destinação para os canaviais da região.
Já a Sanepar, informa Pe­go­rini, adota o processo de leito de secagem, que reduz a umidade para 50% do material. O executivo acredita que o lodo produzido nas ETEs do Paraná não terá dificuldade de obter a classificação Classe A, mas há um problema. “Praticamente não existem no Brasil laboratórios capazes de realizar o teste do lodo seguindo as exigências do Conama. Como vamos atestar a qualidade do nosso material?”

Opinião comum entre os gestores de ETEs é a de que o tratamento adequado de esgoto tem um custo alto e a sociedade brasileira ainda não está disposta a arcar com ele. Neste contexto, uma norma rígida de destinação final do lodo pode não ser compatível com a realidade do País.

Enrico Vezzani, diretor da Vomm Turbo Tecnologia, empresa de origem italiana fornecedora de equipamentos para secagem térmica, acredita que a viabilidade econômica do tratamento do lodo virá quando os gestores de ETEs deixarem de encarar o material como um resíduo e passarem a pensar nele como um produto, com valor comercial. “O lodo é rico em nutrientes. Processado adequadamente, pode ser vendido aos agricultores, reduzindo os custos operacionais das ETEs. Isso já é a realidade na Europa”, diz o executivo.

Secagem térmica – Até hoje, a maioria das Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) em atividade no Brasil interrompem o processo de tratamento após a operação de deságüe, realizada tradicionalmente por meio de filtro-prensa ou centrífugas. Mas, nesta etapa, a torta de lodo resultante ainda contém uma quantidade de líquidos na casa dos 70% a 80%.

 
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