É disseminada no País a impressão de que as cores e os efeitos são pouco utilizados em automóveis, com predomínio do preto, cinza e prata, o que não seria atraente para os fornecedores de pigmentos perolados. Isso não corresponde a toda a extensão do mercado: mesmo o pretinho básico e o prata utilizam um certo teor de pérolas, não se pode ignorar o mercado de repintura (não é difícil ver um azul metálico circulando pelas ruas), e o nicho dos carros modificados, ditos tunados (a arte de criar bólidos modificados é chamada de tunning, em inglês), também é relevante, bem como o de motocicletas.

Mercado da beleza – Outro segmento importante no consumo de pigmentos perolados é o de produtos cosméticos, que oferece bons preços, uma vez que a demanda por garantias de fabricação e procedência, controle biológico e homologações dos órgãos governamentais de fiscalização sanitária são muito mais rígidos.

As aplicações em cosméticos são amplas, passando por batons e outros produtos de maquiagem, xampus, cremes e esmaltes. Os pigmentos com base em mica podem ser utilizados nesse ramo, desde que atendam ao complexo arcabouço legal requerido, mas sofrem a concorrência dos pigmentos perolados obtidos com base em bismuto. A Farmaquimia, instalada em São Paulo, é a filial brasileira da empresa mexicana especializada em sais de bismuto, e importa oxicloreto de bismuto (BiOCl) para utilização como pigmento perolado há quatro anos. O México é um dos principais produtores mundiais do metal, e assim se explica a competitividade em preço da filial brasileira. No mercado nacional, a grande aplicação para o pigmento de bismuto são os esmaltes de unha, mas ele também pode ser empregado na produção de pérolas artificiais, bem como em laminados plásticos.

O oxicloreto de bismuto representa uma alternativa para produtos com chumbo em sua composição. Embora o metal pesado confira um desempenho de brilho sem par, trata-se de um produto maldito, banido em vários mercados, em fase de banimento em outros e utilizado apenas onde as leis são frouxas, ou a fiscalização é deficiente. O bismuto, por outro lado, e de acordo com as informações da Farmaquimia brasileira, é um metal “verde”, que oferece vantagens de desempenho em relação aos pigmentos de mica, e propriedades físicas que tornam muito adequada sua utilização em cosméticos de alta qualidade. O produto da empresa mexicana oferece maior compactação e sensação mais agradável ao tato, além de sofrer tratamentos para resistir às alterações induzidas pela exposição ao sol, bem como aos riscos proporcionados por microrganismos. Além disso, ele chega lacrado ao País (a filial brasileira não fraciona os pigmentos importados), reforçando a segurança quanto à procedência e as garantias de qualidade e pureza, tão caras aos clientes do setor de cosméticos.

Como a fábrica, no México, onde o oxicloreto de bismuto é produzido foi concebida para obtenção de pigmentos com grau farmacêutico, mesmo tendo aplicações em outros segmentos, é o cosmético o seu maior filão. O esmalte de unha perolado branco, em particular, é um setor em que o bismuto em pasta é consagrado, pois só o chumbo confere característica semelhante. Nessa aplicação, é necessário desenvolver um veículo para o pigmento em pasta compatível com o esmalte, e os pigmentos de mica apresentam alguma desvantagem nesse quesito. Essa habilidade para compatibilizar os pigmentos de bismuto em pasta resultou na criação de um pigmento específico para a utilização em botões, fabricados em resina poliéster. Para quem pretende exportar botões, é impensável utilizar chumbo, e o bismuto é um candidato à substituição nos produtores que ainda usam o metal pesado.

A presença da Farmaquimia no País, entrando em segmento também dominado por Merck e Engelhard, mas com uma agilidade mais característica das empresas de menor porte, também alterou o panorama de preços vigentes no mercado nacional, diminuindo-os. Mas o bismuto metálico experimentou grandes aumentos nos últimos tempos – os preços saíram da casa dos sete dólares, até 2004, para o patamar de 27 dólares nos dias de hoje, segundo cotações da Bolsa de Metais de Londres (LME). Houve reflexo e reajustes nas cotações de seus derivados, o que aconteceu também no mercado do Brasil.

Bom para os clientes, mas,  para os importadores, o mercado nacional poderia ser ainda mais atraente (já é para as aplicações de pigmento em pasta para esmalte de unha) caso os produtos de maquiagem produzidos por aqui dispusessem de maior qualidade, pois é nesse segmento de maior valor agregado que o bismuto potencializa suas vantagens. Os mercados com essa característica, porém, são o europeu e o norte-americano. No Brasil, os produtos de maior conteúdo tecnológico, bons consumidores de oxicloreto em pó, são importados. Uma possibilidade de ampliação do uso poderia se concretizar caso a indústria brasileira de cosméticos, que conta com algumas grandes empresas, intensificasse as exportações para os mercados mais maduros. O nível de qualidade do mercado nacional tem crescido, mas só atingiria o dos mercados principais amparado por um improvável amplo aumento de renda dos brasileiros.

Para não ficar presa apenas aos nichos sofisticados, que pagam mais, mas compram pouco, ou esperando por espetáculos de crescimento, a Farmaquimia desenvolveu um pigmento intermediário entre as pérolas de mica e de bismuto, em preço e desempenho, revestindo partículas do filossilicato com camadas do seu sal, no lugar do dióxido de titânio. O resultado é um pigmento com propriedades mais semelhantes à do oxicloreto de bismuto, mas com um substrato mais barato, mais competitivo para brigar com a mica-dióxido de titânio.
 

 
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