NANO- TÊXTEIS
Inteligência valoriza os tecidos

Pesquisa busca soluções para atender à demanda
por melhor desempenho

Texto de José Paulo Sant` Anna e fotos de Cuca Jorge
 

Enriquecer a alimentação dos bichos-da-seda com nanopartículas de carbono para que estes produzam fios com resistência superior. A idéia existe, mas ainda está mais para ficção científica do que para a vida real. Isso não quer dizer que a nanotecnologia deva ser encarada como uma ciência do futuro, que vai demorar anos para afetar a indústria têxtil. Pelo contrário. Vários tecidos enriquecidos com partículas nanométricas vêm sendo colocados no mercado com sucesso desde a virada do século nos quatro cantos do planeta. E, a julgar pelos investimentos feitos pelas empresas do setor químico para desenvolver esse nicho, muitas novidades devem ser anunciadas em um futuro próximo. Para os fabricantes de tecidos, é uma ótima oportunidade de agregar valor aos seus produtos.

No Brasil, sexto maior parque têxtil do mundo, com faturamento em 2005 na casa dos R$ 32,5 bilhões, a incorporação de nanoprodutos em tecidos já chegou, ainda que de forma tímida. Vários fabricantes nacionais importam esses insumos. A Santista Têxtil, por exemplo, acaba de lançar o selo NanoComfort, marca que será aproveitada em todos os tecidos dotados com partículas nanométricas colocados no mercado pela empresa. No momento, a Santista disponibiliza quatro diferentes produtos do gênero, todos voltados para o segmento de confecções de roupas para profissionais. Eles foram desenvolvidos pela própria empresa em parceria com fornecedores internacionais de produtos químicos. Outros itens do gênero devem engordar a carteira da empresa em breve.  

O desenvolvimento de nanopartículas nacionais não tem merecido muita atenção por parte das empresas do setor. Poucas são as dispostas a investir na pesquisa e no desenvolvimento desses insumos. Para tanto, seria necessária uma maior aproximação entre a indústria têxtil e as universidades, prática rara por aqui. Uma exceção é a parceria feita entre a Santista Têxtil e a USP de São Carlos a fim de desenvolver nanoprodutos para os tecidos fabricados pela empresa.

Para justificar o cenário, representantes do setor apontam velhas mazelas que limitam a capacidade de investimentos. Entre elas, juros e carga tributária estratosféricos. O baixo poder aquisitivo do brasileiro também não ajuda: a maioria dos consumidores nacionais não pode comprar roupas com preços mais elevados, a despeito delas trazerem características diferenciadas. Outro problema tem sido a forte concorrência dos importados, em especial dos chineses.

Trilhões de dólares – O nanômetro é o bilionésimo do metro. Para se ter uma idéia dessa medida, podemos lembrar que ela corresponde ao diâmetro de um fio de cabelo dividido por cem mil. Dá para imaginar sem maiores esforços como é difícil trabalhar com partículas com essas dimensões. Isso só se tornou possível a partir do início da década de 80, quando foi desenvolvido o primeiro microscópio com capacidade de proporcionar imagens de tais partículas.

As nanopartículas apresentam propriedades excepcionais e estão sendo objetos de estudo das indústrias ligadas aos mais variados segmentos econômicos. A evolução desse mercado impressiona. Em 2005, se acreditava que produtos dos mais variados segmentos da economia que trouxessem componentes nanométricos em sua composição deveriam movimentar US$ 1 trilhão em 2020. Estudos mais recentes elevaram esse potencial para a casa dos US$ 2,4 trilhões em 2014. 

Estima-se que os governos dos países avançados estão investindo entre US$ 6 bilhões e US$ 9 bilhões em pesquisa e desenvolvimento. E essas verbas governamentais são consideradas tímidas pelos especialistas perto dos recursos investidos pelas empresas dos mais variados segmentos da economia.

No âmbito do setor têxtil, a nanotecnologia proporciona as mais variadas  propriedades. Os insumos nanométricos podem ser agregados aos tecidos na hora da produção dos fios ou em uma etapa posterior da fabricação dos tecidos. As propriedades que eles proporcionam vão das requisições mais simples às mais complexas. Maior sensação de conforto, impermeabilidade, defesa contra os raios ultravioleta e resistência aos odores e às manchas se encontram entre as características mais desejadas. Também tem sido grande o investimento na pesquisa de tecidos com grande resistência para uniformes de trabalhadores que atuam em ambientes hostis, ou de militares, sem falar nos resistentes ao fogo.

Muitos estudos estão voltados para o desenvolvimento de produtos para aplicações mais complexas. Já existem tecidos que permitem a liberação na pele de hidratantes ou anticelulíticos. Em futuro não muito distante, deverão estar disponíveis tecidos que liberarão medicamentos aos usuários. Para os hospitais, por exemplo, lençóis que liberarem substâncias tranqüilizantes poderão minimizar o sofrimento de vários pacientes. As possibilidades não param por aí. A criatividade é o limite e certamente muitos tecidos com características inovadoras podem surgir a qualquer momento.

 
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