Diferentemente do passado, quando o setor reivindicava medidas protecionistas como contingenciamento nas importações – praticado até 1997 – e subsídio – entre 1997 e 2002 –, a borracha hoje é regida pela lei do mercado, em condições que Jayme Cortez classifica de “altamente competitivas”. Ele não apresenta uma explicação precisa para a mudança. “Simplesmente houve uma evolução muito forte para cima do mercado internacional”, arrisca. A evolução do preço pago às usinas desde 2001 atesta com mais precisão a razão do otimismo: em janeiro de 2001, constatou a Natural Consultoria, o valor pelo quilo da melhor borracha para pneus, o granulado GEB 1, alcançou R$ 1,53.

Nos janeiros seguintes descreveu a seguinte trajetória: 2002, R$ 1,57; 2003, R$ 3,42; 2004, R$ 3,90; 2005, R$ 3,90; 2006, R$ 4,25; 2007, R$ 4,06 – gradual variação de 158% entre janeiro de 2002 e 2007. A ascensão continua. Em março, o preço bateu em R$ 4,80/kg.

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Bonfim: na Ásia, clones não resistem ao mal-das-folhas

MAL-DAS-FOLHAS - O desenvolvimento dos primeiros clones de seringueira resistentes a um fungo marcantemente presente na história do Brasil, o Microcyclus ulei, também está influenciando o sentimento empreendedor. O fungo é o causador do mal-das-folhas, a doença que desaconselha a plantação de seringais nas áreas mais úmidas, justamente as que, sem a ocorrência desta doença, seriam as mais produtivas. Essas áreas, caracterizadas por chuva nas quatro estações, possibilitam a sangria no decorrer dos doze meses, um a dois a mais do que nas chamadas áreas de escape, onde a chuva sempre escasseia em alguns meses.

No Brasil, para proteger-se do mal-das-folhas, a heveicultura tem se dirigido para as áreas de escape, as que apresentam, combinadamente, as condições de temperatura, solo e principalmente precipitações que assegurem, pelo menos na maior parte do ano, o elevado suprimento de água exigido pela seringueira – chuvas entre 1.400 mm e 1.600 mm – sem reter umidade suficiente para dar boa vida ao M. ulei. São geralmente áreas com altitude inferior a 800 metros. O planalto paulista, o extremo sul da Bahia e o Espírito Santo são áreas de escape.

O mal-das-folhas retarda o crescimento da seringueira mediante redução da folhagem. Nos seringais adultos o fungo causa devastador desfolhamento e acentuado desfalque na produção. É a doença que no fim dos anos 20, no ambiente hostil do Pará, causou danos fatais a Fordlândia, frustrada colônia seringalista de um milhão de hectares e 70 milhões de mudas de onde deveriam sair 300 mil t/ano, metade da então produção mundial de borracha natural e, mas que gerou, principalmente, enorme prejuízo para o empreendedor, o histórico Henry Ford. “O Microcyclus ulei e o conseqüente mal-das-folhas são a razão de o Brasil não ser o principal produtor de borracha natural”, enfatiza o agrônomo e responsável técnico pelo centro de pesquisa das Plantações Michelin da Bahia, Carlos Raimundo Mattos.

No sudeste da Bahia e em parceria com o Centre de Coopération Internationale en Recherche Agronomique pour le Développement (Cirad) da França, o centro de pesquisa da Michelin executa diversificado programa em busca de tecnologia e clones de elevada produção – acima de 5 kg/ano – com elevados níveis de tolerância ao M. ulei. “Estamos estudando mais de 20 mil genótipos, muitos deles serão as seringueiras de amanhã”, revela Mattos. Anualmente são feitas no centro de pesquisa da Michelin mais de 50 mil polinizações entre clones de alta produção, procedentes da Ásia, e clones de alta resistência ao M. ulei, estes procedentes da América do Sul, em busca de “filhos” que herdem os genes desejados de ambas.

Três clones resultantes deste programa de pesquisa já foram selecionados e estão sendo recomendados para o plantio, em escala industrial, na Bahia e Espírito Santo. São os FDR 5788, CDC 312 e PMB1. Em parceria com o Banco do Nordeste, a Ceplac e a Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA), 400 mil mudas estão sendo transferidas a agricultores baianos, no âmbito de programas de agricultura familiar. Um comunicado da Michelin à imprensa comemora: “São o resultado de um longo trabalho de seleção e representam uma real esperança para a heveicultura mundial e para as 10 milhões de pessoas que dela dependem, direta ou indiretamente.” O comunicado lembra que “são necessários vinte anos para criar e selecionar uma nova variedade de seringueira”.

Além de viabilizar o plantio de seringueiras em áreas superúmidas do continente americano, os três clones são uma prevenção ao risco de uma possível chegada do M. ulei aos continentes africano e asiático, que respondem por mais de 90% da produção. Na Ásia, esclarece outro agrônomo da Michelin, Paulo Roberto Bonfim, “os clones foram desenvolvidos com características de elevada produtividade, mas nenhum apresenta resistência ao mal das folhas”.

A Michelin também anuncia, no âmbito das “biotecnologias de ponta”, que desenvolveu e está testando duas técnicas de multiplicação in vitro, que resultam em plântulas para povoar os seus viveiros e depois as lavouras.
A primeira é a micropropagação, multiplicação dos caules de um broto posto em um meio de cultura para formar vários brotos, “que iniciam um sistema de raízes independentes”. A outra é a embriogênese somática, que possibilita a cultura de tecidos cujas células contêm todo o patrimônio genético da árvore e “postos sucessivamente em meios nutritivos adaptados formam calos (agrupamento de células) que se transformam em jovens plântulas”. Anuncia também que em parceria com os franceses identificou os genes que respondem pela ação devastadora do M. ulei.

Também a Ceplac, revela o pesquisador José Raimundo Bonadie, executa desde 1972 um programa de melhoramento genético almejando “a seleção de clones produtivos, vigorosos e tolerantes ao M. ulei”. O principal clone resultante deste esforço é o SIAL 1005, “clone com características de alta produção, precocidade e tolerância às principais doenças foliares. “Foi selecionado nas condições ambientais da bastante úmida zona do cacau, no sudeste baiano”, afiança o pesquisador.

 
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