Selo social – Como forma de estimular o fomento da pequena agricultura, o governo federal estipulou o denominado selo social. No Rio Grande do Sul, recebe o documento a empresa que comprar 30% da matéria-prima de pequenos agricultores com até 80 hectares de terra. A contrapartida é interessante. A cada litro vendido a usina tem desconto de sete centavos de real no PIS/Cofins, diminuindo-o de 22 centavos para 15 centavos/l.

 Por isso, os empresários do biodiesel montaram parcerias com os sindicatos e cooperativas liderados pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag), dirigida por pequenos empresários rurais.  

Longe dos radicalismos de outros movimentos, a entidade aposta na agricultura moderna. Vários de seus diretores são engenheiros agrônomos com trabalhos de mestrado e doutorado, até no exterior.
Barni recomenda cautela no investimento

 A Oleoplan firmou um acordo com as cooperativas e sindicatos. O objetivo é estimular o plantio da mamona, a oleaginosa com maior rendimento em obtenção da matéria-prima do biodiesel, mas pouco cultivada no Rio Grande do Sul. O projeto inclui 150 lavouras-piloto, distribuídas em 50 municípios da serra e 300 hectares das regiões do planalto e depressão central. Os pequenos agricultores recebem assistência técnica dos governos estadual e federal, além da própria Oleoplan com o objetivo de atingir os parâmetros técnicos e a produtividade necessária.

Com a Brasil Biodiesel, a Fetag será responsável por organizar a produção entre os sindicatos dos trabalhadores rurais dos municípios no entorno de Rosário do Sul. O projeto envolve a produção de mamona por 14,5 mil famílias de 80 municípios, a R$ 0,59 pelo quilo do produto. De acordo com o presidente da entidade, Elton Weber, na próxima safra o número de famílias beneficiadas chegará a 25 mil. Assim como a Oleoplan, a Brasil Ecodiesel fornecerá assistência técnica, sementes, debulha e transporte da safra.

 Da mesma forma, a BS Bios assinou contratos com sindicatos de produtores rurais e cooperativas por intermédio da Fetag. Durante um seminário em Passo Fundo ficou acertado que a empresa irá pagar um real a mais pela saca de 60 quilos de soja na comparação com o preço de mercado. Em relação à canola, o preço é fixo: R$ 31,00 por saca de 60 quilos.

 Ainda assim, segundo Roberto Terra, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, existem vários problemas a resolver por ser o biodiesel um tema novo. “Ainda não há zoneamento agrícola para todas as oleaginosas. As que estão de fora não podem entrar no seguro agrícola”, alertou. No momento, somente a semente de girassol e a soja estão certificadas. A mamona e a canola entram no ano que vem. Mesmo assim, Terra antecipa que a oportunidade de negócios no Rio Grande do Sul engloba 65 mil famílias. Para atender à demanda total do biodiesel, o Estado irá movimentará aproximadamente 9,5 milhões de toneladas de grãos.

 Estudo cauteloso – A implantação da matriz do biodiesel, incluindo montagem de usinas, logística e suprimento de matérias-primas, deve ser vista com cautela. “Alguns poderão ganhar muito dinheiro. Só valerá a pena investir onde houver mercado comprador consolidado.” A opinião é do engenheiro agrônomo Nídio Barni, prestigiado técnico da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Sul (Fepagro).

 Barni alerta que a montagem de uma usina de biocombustível deve levar em conta o apagão logístico do País. “O transporte rodoviário de cargas ainda responde por 72% da movimentação de mercadorias. As ferrovias no Rio Grande do Sul estão subaproveitadas, embora a ALL venha fazendo grandes investimentos”, critica. Igualmente, assinala o engenheiro, não há investimentos nas hidrovias. Uma usina isolada do sistema de transporte e afastada da distribuição pode quebrar. Nesse caso, é um risco desnecessário.

 Segundo Barni, a experiência mostra que se o agricultor plantar girassol para fornecer a uma usina de biodiesel, a lavoura não pode ficar a mais de 40 quilômetros do ponto de entrega, pois o custo do transporte acima dessa distância elimina o lucro. Em relação à produção do biodiesel, Barni avisa: “Quem contar com capital de giro próprio fará um bom negócio porque o governo está subvencionando a produção.”

 Barni fala com conhecimento de causa. Ele trata do tema biodiesel desde 1974. Naquele ano, a Cooperativa Tritícula de Ijuí (Cotrijuí), na época a principal do País, era uma potência econômica regional a tal ponto de manter em sua estrutura um departamento de desenvolvimento e pesquisas em biotecnologia, com apoio de convênio firmado com uma instituição de Goeting, na Alemanha. Naquele ano, o engenheiro acompanhou um trabalho no centro de treinamento de pesquisadores da Cotrijuí em Augusto Pestana, com o objetivo de encontrar alternativas agroindustriais para as sementes.

 Uma das linhas de pesquisa buscava encontrar uma destinação econômica para a colza, hoje denominada canola. Nos anos 80, a Petrobrás acenou com a implantação de um programa de biodiesel. A idéia era comprar 20 mil hectares de colza estocadas no Rio Grande do Sul desde o começo das pesquisas pela Cotrijuí. A primeira experiência com biocombustível ocorreria numa frota de ônibus de Curitiba.

 No entanto, um grupo japonês acabou comprando toda a produção por US$ 260,00 a tonelada, enquanto a estatal oferecia US$ 233,00. O resultado é que a primeira tentativa de implantar o biocombustível no país, em 1982, foi engavetada por conta de uma diferença de preço na compra da oleaginosa.

 Dono de memória prodigiosa, Barni se recorda que a experiência com oleaginosas para produção de combustíveis e lubrificantes data do começo da Segunda Guerra Mundial. A partir de 1939, o Canadá começou a produção de óleo utilizando a colza. O produto foi empregado como lubrificante das caldeiras dos navios da frota dos países aliados.

 Na ótica de Barni, a experiência com a colza foi um aprendizado. O produto inicialmente seria desenvolvido com finalidade comestível, mas a presença de toxinas causou a morte de 197 pessoas na Espanha vítimas de uma carga comprada da França, também no começo dos anos 80. Posteriormente, o Canadá, principal produtor da oleaginosa, conseguiu modificar geneticamente o produto e transformá-lo em óleo de canola.

 

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