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Caforio identifica uma cumplicidade entre consumidores, interessados nas
tintas mais baratas, e fabricantes, que evitam aumentos de custo de
qualquer ordem, para barrar a introdução de tecnologias mais avançadas em
biocidas. Apesar disso, ele atesta o crescimento de tintas específicas
para banheiros, cozinhas, quartos infantis ou hospitais, as quais demandam
aditivos sofisticados e eficazes.
No mais das vezes, a proteção in can é feita com as isotiazolinonas. A ISP
prefere substituir a CMIT pela benzisotiazolinona (BIT) em mistura com a
MIT. “Os clorados sofrem restrições no mercado norte-americano”, explicou
Caforio. O trabalho bem feito começa com a auditoria do processo,
identificando cargas contaminantes e pontos críticos, a fim de prevenir
problemas posteriores.
“Tecnologia está valendo pouco, pois o mercado brasileiro quer preço e não
há restrição legal para impedir a concorrência com toda e qualquer
formulação de biocidas de qualquer parte do mundo”, criticou Carlos
Alberto Gonçalves, diretor de negócios da Troy Brasil. “O setor de tintas
vê os biocidas como commodities de baixo preço, mas exige serviços
adicionais.” Ele ainda se lembra do tempo em que os grandes fabricantes de
tintas mantinham seus laboratórios completos, inclusive microbiológicos.
Quando os fornecedores de biocidas se ofereceram para assumir as análises,
acabaram arcando com o custo e a responsabilidade antes em poder dos
clientes. “É um trabalho caro, com grande número de amostras e análises,
geralmente envolve a higienização do processo e o controle das
matérias-primas, sem obter, muitas vezes, a remuneração adequada”,
afirmou.
Nesse quadro, ele entende que o mercado está na iminência de um grande
movimento de consolidação de players, a ser desencadeado por algum fator,
por exemplo, a instituição de normas rígidas de cunho sanitário ou
ambiental. Algumas aquisições já foram feitas por várias empresas, mas
agora seria o momento para fusões de grandes nomes.
Além de atender a grandes clientes, a Troy também fornece insumos para
vários de seus concorrentes, como é usual no mercado. “Ninguém produz
todos os ativos que usa em suas formulações”, explicou. Na proteção da
tinta embalada, a preferência de mercado recai na mistura de CMIT/MIT e
liberadores de formol para aproveitar as vantagens da CMIT e compensar
seus pontos fracos: a não cobertura do headspace e das faixas de pH acima
de 9.
“A BIT, com preços em queda no mundo, está se tornando uma excelente
alternativa para in can”, comentou Gonçalves. Além de não agredir a pele
humana, um sério problema ocupacional, a BIT atua bem na faixa de pH de 3
a 13 e tem elevada estabilidade térmica. “Ela pode ser aplicada na etapa
de polimerização da resina, sem ser preciso esperar que o reator resfrie,
proporcionando um ganho de tempo na produção”, explicou. A Troy fabrica
essa isotiazolinona na Ásia.
No entanto, ele adverte para o fato de a BIT não atuar contra bactérias do
gênero Pseudomonas, facilmente encontradas em águas de processo. Nesse
caso, é melhor usar uma formulação, combinando a BIT com bronopol ou mesmo
a CMIT, como coadjuvantes. Isso dispensa tratamento mais intensivo, e
caro, da água industrial. Adutos amínios, que liberam formol de forma
controlada, também podem ser usados. A linha Mergal da Troy apresenta
tipos com ou sem formaldeído e seus liberadores.
Gonçalves admite que as tintas brasileiras recebem proteção suficiente na
embalagem original, pelo menos enquanto fechada, e isso muitas vezes se
deve mais ao rápido consumo. “A dosagem média de biocidas para tintas
embaladas é de 0,1% em peso, muito baixa, e nem assim é respeitada por
todos os fabricantes”, afirmou. A presença de biocidas residuais oriundos
do tratamento dos slurries ou das resinas deve ser ignorada pelo produtor
de tinta, a fim de certificar-se quanto à proteção da tinta entregue ao
consumidor, sob pena de receber de volta todo o lote, apodrecido.
| A britânica Thor, atuante no
Brasil há sete anos, cinco dos quais com fabricação local
(formulações), aposta na sofisticação do consumo de biocidas por parte
das tintas. “O País está se internacionalizando, ampliando
exportações, e isso exige atualizar os produtos, evitando possíveis
restrições por parte dos compradores”, comentou Alfredo Werneck,
gerente de contas da Thor Brasil. As vendas de biocidas para tintas na
filial representam aproximadamente 40% do volume e 30% do faturamento.
Nos cosméticos, o valor unitário dos biocidas é superior e sua
composição acompanha de perto os rigores normativos e preferências
européias. Uma das especialidades da companhia consiste na realização
de testes in vitro com base em bancos de células, realizados conforme
normas internacionais, com excelente correlação com as respostas de
animais. |
Cuca Jorge |
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| Werneck: domínio dos testes in vitro facilita desenvolvimentos |
“Por razões éticas e humanitárias, a Europa não aceita mais
testes in vivo, mesmo com cobaias criadas para esse fim”, explicou
Werneck. A necessidade de reavaliar todos os produtos comercializados
segundo as novas exigências européias vai limitar o portfólio de moléculas
usadas no setor, conforme prevê. O laboratório montado em Barueri-SP está
prestes a receber um reforço de peso: um cromatógrafo de fase líquida de
alta performance (HPLC) será aplicado para aperfeiçoar o monitoramento de
processos dos clientes. A filial até cultiva seu banco de algas para
ensaios com biocidas.
Segundo Werneck, a filial brasileira e outras quinze unidades mundiais da
Thor estão colocando painéis pintados no ambiente para comparar os
resultados de várias formulações e ampliar a base de dados disponível.
A proteção in can é bem menos atraente que o combate a fungos e algas,
pelo fato de ser mais commoditizada e menos remuneradora. “Atuamos em
clientes mundiais e também nas indústrias nacionais, especialmente as de
médio e pequeno porte que valorizam a tecnologia avançada”, afirmou.
A Clariant mantém seus laboratórios preparados para analisar insumos,
produtos e processos de seus clientes para encontrar as melhores
alternativas de controle microbiológico. “Procuramos ajudar o cliente a
reduzir seus custos totais”, afirmou Tiago Bertalot, representante técnico
de vendas de biocidas da área de fluidos funcionais para a América Latina.
| A idéia é reproduzir no
laboratório, que segue as rigorosas normas oficiais japonesas, as
mesmas condições encontradas na fábrica do cliente, cultivando até
mesmo as contaminações encontradas nos locais, dispensando as estirpes
puras padronizadas. A queda das margens de lucro na venda de
biocidas para tintas estão em queda há anos, fenômeno acentuado desde
2004. “Por enquanto, as restrições européias ainda não trazem reflexos
no mercado local, ainda dominado pelo formol na preservação in can”,
disse Luís Gustavo Ligere, representante técnico comercial de biocidas
da Clariant. A disputa por clientes se apóia na combinação de
moléculas (em formulações), prestação de serviços e no preço. No
Brasil, o uso de formol e de liberadores domina a proteção nas
embalagens. |
Cuca Jorge |
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| Ligere: proteção in can preserva a imagem do fabricante da
tinta |
A Clariant pode fornecer uma inovação, com base em sais inorgânicos de
prata com forte efeito antimicrobiano, porém totalmente atóxico para
animais. “Os fabricantes estão mais atentos à qualidade das tintas, pois
temem prejuízos à imagem, com difícil recuperação, e até procuram por
alternativas mais avançadas de biocidas”, considerou Ligere.
Bertalot relata sua experiência na Inglaterra, quando percebeu que os
compradores realmente lêem os rótulos das embalagens de tinta e recusam
produtos com mensagens de risco. “Lá a escolha do biocida faz parte do
marketing da tinta, justificando o trabalho conjunto entre fornecedor e
fabricante”, considerou. Como essa preocupação é nula no Brasil, só
aparecem limitações voluntárias ao uso de alguns princípios ativos
motivadas, em geral, por aspectos de segurança ocupacional, tanto pela
redução de VOC no local de trabalho quanto para evitar problemas de
irritação dérmica. “Já existe tecnologia segura para banir o formol e
outros componentes, como carbendazim e diuron”, comentou.
Unindo portfólios – Empresa de maior faturamento no mercado mundial
de biocidas para todos os segmentos de mercado, a Arch uniu sua tecnologia
própria na química do iodo, os conhecidos piritionatos (Omadines) de sódio
e zinco, à química das isotiazolinonas e biguanidinas da adquirida Avecia
(antes Zeneca, antes ainda ICI), atuando em dezesseis segmentos de
mercado. “Na América Latina, tintas constituem nosso terceiro maior
mercado, com 15% de participação no faturamento”, comentou Sebastian Gilli
Canto, gerente de negócios de biocidas da Arch Química Brasil.
| Essa participação no
faturamento é modesta quando comparada à dos Estados Unidos, país no
qual a empresa vende seus princípios ativos diretamente à indústria de
tintas. “Em 2002, começamos a fazer formulações antibacterianas no
Brasil, por pressão do mercado, muito voltado para produtos de baixo
custo”, explicou. Além da América Latina, Europa e Ásia adotaram
modelos de negócios semelhantes, transferindo serviços de
microbiologia e formulação para os fornecedores. “O melhor caminho
está nas tintas especiais, mais exigentes em tecnologia”, disse. Com
linha ampla de ingredientes ativos, Canto pode atender a todos os
tipos de clientes. Para in can, por exemplo, as vendas se concentram
nos produtos mais em conta. |
Cuca Jorge |
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Bertalot: mensagens de risco
afugentam consumidor europeu |
A CMIT/MIT é fabricada pela unidade da Arch na China, com preços
muito atraentes. A BIT, criada pela antiga Avecia, também é facilmente
importada. As formulações ficam completas com a incorporação de triazinas
(liberador) e do próprio formol.
| A estratégia de negócios da
empresa contempla o atendimento aos grandes clientes, alguns dos quais
com contratos de suprimento mundiais. “Alguns médios e pequenos
interessados em aprimorar a qualidade também são atendidos, sem
problemas”, afirmou. A Arch também vende produtos sem agregar
serviços, quando assim desejado pelo comprador. “Os serviços são
oferecidos mediante acordo de fornecimento de biocidas, incluindo a
auditoria completa dos processos, insumos e produtos finais, com
amostragens feitas duas vezes por semana”, explicou. Os resultados são
imediatamente repassados aos clientes. Canto poderia oferecer o
serviço completo de monitoramento e aplicação de biocidas na linha de
produção, mas encontra resistência por parte dos clientes. |
Cuca Jorge |
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Canto: falta transparência
no processo seletivo (bids) |
“Eles querem dosar o produto para mais ou para menos conforme o custo
final pretendido”, lamentou. Para ele, os biocidas no Brasil já são
vendidos com preços baixos, deixando ao fornecedor margem mínima de
rentabilidade.
Tanto assim que a Arch pensa em não mais participar dos BIDs (espécie de
concorrência entre fornecedores promovida por grandes fabricantes de
tintas) no Brasil, concentrando seus esforços em nichos de mercado. Nesses
casos, poderia contar com o apoio científico/tecnológico da matriz. “Os
BIDs representam um custo muito alto, com quantidades de análises muito
grandes, e as decisões são tomadas sem que tenhamos acesso aos resultados
dos testes, que nos permitiriam conhecer melhor o desempenho dos produtos
concorrentes”, afirmou.
“Os BIDs nivelam por baixo o mercado e não incentivam a inovação, nem
valorizam os diferenciais qualitativos entre os produtos oferecidos”,
concorda Marcelo Junho, da Rohm and Haas. Ele credita esse comportamento a
uma fase inicial do estabelecimento dos certames. Com o tempo, os
fabricantes de tintas tendem a aproveitar melhor as comparações
disponíveis, deixando de olhar apenas o custo imediato, e passarão a
perseguir a valorização do produto final.
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