ATUA

LIDADES

SERVIÇOS
Pequenos e médios fornecedores crescem na atividade petroleira

Graças à iniciativa pioneira da Refinaria Alberto Pasqualini (Refap S/A) e do Sebrae-RS uma nova perspectiva promissora desponta na trajetória de dezenas de micros, pequenos e médios empresários do País: o ingresso no seleto grupo de fornecedores de serviços e produtos da bilionária cadeia produtiva do petróleo (ver Química e Derivados 436, abril de 2005). Com o sucesso do programa denominado Rede Petro, responsável pela realização de uma série de iniciativas em favor da qualificação de processos e de gestão, algumas firmas gaúchas avançaram em sua organização ao se reunirem em uma entidade, a Associação de Óleo e Gás do Rio Grande do Sul.

Sob o guarda-chuva do novo núcleo associativo, sete dessas firmas, as quais somam faturamento bruto de R$ 90 milhões/ano, compartilharam um estande coletivo por ocasião da Feira de Subcontratação e Integração Industrial (Mercopar 2006), realizada em Caxias do Sul, de 6 a 9 de outubro último. Estevam Leuck é o vice-presidente da Óleo e Gás-RS. Segundo ele, a entidade deverá contar com 20 associados até a próxima Mercopar e ampliar expressivamente sua participação no evento.
Algumas empresas foram além da meta inicial.

Fernando C. de Castro

Leuck: Refap foi a porta de
entrada para maiores negócios

Forneceram para a Refap e ainda conseguiram fechar contratos com outras áreas da Petrobrás e com empresas do segmento petroquímico. O objetivo agora é montar uma rede de fornecedores para todo o sistema nacional de beneficiamento de petróleo, desde brindes, suprimentos de refeitórios até os insumos e equipamentos pesados e de precisão, empregados ao longo da cadeia produtiva.

Conforme Leuck, que é fabricante de válvulas, mangueiras e peças de aço inoxidável, grande parte dos produtos e serviços adquiridos pela Petrobrás ainda provém de grupos estrangeiros e as empresas nacionais precisam ocupar espaço, até mesmo para melhorar o desempenho da balança comercial do País.

Um exemplo de sucesso entre as empresas que conseguiram transpor a divisa do Rio Grande do Sul é relatado por Luciano Weber, da Device, empresa especializada em engenharia de software e programação de sistemas para automação industrial. Weber e seu sócio começaram a operar na Refap como fornecedores de software e manutenção de controladores lógico programáveis (PLCs), sistemas descentralizados de controle distribuído (SDCD) e sistemas supervisores. Atualmente a firma mantém um grupo de trabalho na unidade de extração de gás de Guamaré, no Rio Grande do Norte, denominada LPG N3 e outra equipe no Ceará.
Além de desenvolver a parte lógica da tecnologia digital, a equipe da Device é treinada para manter operante todo o sistema de softwares nas unidades em que é contratada. O coração de uma planta em termos de segurança, como ensina Weber, são os chamados sistemas de redundância, ou seja: servidores replicados que entram em operação quando o principal falha. Esses sistemas existem tanto em refinarias como nas plataformas de exploração e produção.

“Dentro de uma planta com vasos de pressão e material altamente volátil, como as unidades de produção de petróleo, as únicas salas blindadas contra explosões são as salas de controle eletrônico das plantas, porque na ocorrência de um vazamento em uma válvula irão trancar o fluxo no ponto de escape da tubulação danificada e desviar para o flare”, detalha o sócio-proprietário da Device.

Outra empresa a alçar vôos ousados é a Brasin, de Caxias do Sul, especializada em brunimento, uma usinagem da parte interna das tubulações cuja precisão é medida em décimos de milímetros e serve aos dutos de bombeamento de petróleo em águas profundas. A empresa conseguiu entrar para o cadastro de fornecedores diretos da Petrobrás para realizar manutenção de áreas de produção, mas já atuava como indireta, na condição de parceira da norte-americana Wetherford, também com unidade em Caxias do Sul e líder mundial na produção de tubulações, bombas e dosadores para transporte de petróleo e derivados.

São tubos de seis metros desbastados internamente num torno com usinagem em pedra. A tecnologia no momento é empregada para a produção das tubulações da plataforma 53 em Rio Grande. A usinagem é operada por robôs. “Tudo é executado com tecnologia própria”, salienta o diretor-executivo da Brasin, Geraldo Antônio Brandalise. A Brasin realiza ainda a manutenção e fabricação de cilindros hidráulicos.

Fábio Pinto, gerente de vendas comenta a atuação da Bondmann Química há quinze anos no mercado. Conforme ele, trata-se de uma das primeiras empresas do ramo de desengraxantes a conquistar a ISO 9000, versão 2000, para essa linha de produtos com revendas no Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Goiás. Já era fornecedora da Refap. A idéia básica de Fábio Pinto é: “Se as grandes empresas são unidas em torno de seus interesses, as micros e pequenas precisam somar mais esforços ainda.”
Pinto repassa mensalmente à Refap uma série de produtos para manutenção de caldeiras, como detergentes, solventes, desengraxantes, amaciantes, óleos solúveis para operações de usinagem, óleo solúvel sintético, transparente para corte com propriedades simultâneas de lubrificação e resfriamento, lubrificantes impermeabilizantes e algumas formulações para manutenção de torres de resfriamento, limpadores de contatos eletrônicos, desincrustantes de tubulações e outros sistemas de troca de calor e resfriamento. Ressalta que a Bondmann trabalha com engenheiro químico responsável e laudo de laboratório externo.

Ao todo são 200 litros de desengraxantes por dia repassados à refinaria de Canoas.    João Carlos Costa Marques, coordenador do projeto de desenvolvimento de fornecedores da Refap enfatiza que o grupo Rede Petro irá fechar dois anos de atividade. Desde o começo a refinaria presta apoio institucional. Atualmente 80 empresas se encontram em processo de qualificação, algumas já em fase de conclusão, outras ainda passando por auditorias, treinamento das áreas operacional, administrativa e diretiva com base nas primeiras ações em agosto de 2004.

“Muitas tinham bons produtos, mas não sabiam formar preços porque não conseguiam diferenciar custos fixos e variáveis de produção, despesas administrativas, e acabavam construindo uma babel financeira para fugir do prejuízo”, reconhece o executivo. “Tornavam-se marginais em termos de competitividade”, recorda Costa Marques. Na outra ponta, estavam aquelas capazes de formar preço, mas não conseguiam cumprir prazo de entrega, e precisavam montar estrutura de logística e estoques.
Costa Marques aponta a Mercopar como uma das melhores vitrines para quem pretende se cadastrar na Petrobrás, pois o departamento de compras coloca uma equipe com vários integrantes para participar das rodadas de negócios, uma série de reuniões em que candidatos a vendedores podem negociar diretamente com os responsáveis pelos departamentos de aquisição de produtos, bens e serviços de grandes corporações.

Na Mercopar, anualmente o departamento de compras abre um canal de negociação com candidatos a fornecedores capazes de atender à demanda da Refap. Ele enumera as regras do jogo para quem pretende entrar para o cadastro. Não existe operação de compra e venda direta. A atividade ocorre por meio de licitação ou pregão eletrônico.

Como a refinaria Alberto Pasqualini acaba de passar por uma importante obra de ampliação, concluída em outubro, uma nova etapa de modernização será realizada em 2007. A unidade antiga será submetida a uma parada de 30 dias para manutenção de vasos de pressão, válvulas de controle, tubulações entre outros procedimentos.

Outra área a ser modernizada serão os laboratórios de química analítica. Isso significa que a empresa estará recebendo propostas de empresas de engenharia e de fabricantes e revendas de equipamentos das mais variadas funções. Durante a reforma, todos os equipamentos serão substituídos por similares de última geração, incluindo aparelhos como espectrômetros, cromatógrafos, vidraria de laboratório, medidores, entre outros.

O executivo da Refap informa que todas as segundas-feiras, das 8 às 11 horas, qualquer microempresário pode se apresentar na recepção da refinaria para ser conduzido ao departamento de compras, onde há um grupo de funcionários para analisar propostas e preencher cadastros de quem esteja disposto a atender às exigências da empresa.

Tiago Lemos, coordenador estadual da cadeia produtiva do petróleo e gás do Sebrae-RS considera a Rede Petro uma iniciativa importante para estimular o fornecimento de produtos e serviços por empreendedores locais. Ele bate na tecla de que muitas das aquisições do sistema Petrobrás ainda recorrem a empresas estrangeiras ou grandes corporações. “Quando se faz o levantamento da lista de fornecedores se verifica a ausência de empresas de pequeno porte”, justifica Lemos.

Fernando C. de Castro

Lemos: estatal ainda compra
pouco das pequenas empresas

Para ele, qualquer empresa dos ramos de material de escritório, automação, usinagem, reposição de peças e retífica pode se qualificar para atender à cadeia produtiva do petróleo, desde que se proponha a participar dos cursos, interagir com consultorias, receber visitas de técnicos capazes de mostrar onde podem melhorar em seus processos produtivos e de gestão.

Ele explica que o Sebrae entrou no circuito na medida em que a Petrobrás, por meio da Refap, abriu suas portas e se propôs a apresentar suas exigências. Num primeiro momento, as empresas aprenderam a maneira correta de se cadastrar e de atender a uma carta-convite. Muitas rotinas administrativas e burocráticas foram repassadas aos participantes do programa.

A Rede Petro assumiu contornos de programa nacional. Existem mais 1,2 mil empresas cadastradas em todo o País. Dessas, 10% são gaúchas e ao se qualificarem dentro da Refap puderam entrar na disputa para atender a cadeia petroquímica. Algumas realizam serviços ou vendem sua produção para a unidade integrada de estireno e poliestireno de Triunfo, a Innova ou para a central de matérias-primas, a Copesul.

O programa inclui a identificação de rede de laboratórios – privados e vinculados às universidades –, que possam contribuir para o desenvolvimento dessas empresas. A pequena empresa não tem fôlego para desenvolver tecnologia e inovação sozinha, precisa de parcerias. Projetos bem fundamentados podem se apoiar na Finep, mas não são elaborados. Com a contribuição acadêmica e governamental, essas empresas poderão no futuro apresentar inovação com credibilidade, porque se a empresa não tem condições de melhorar seus produtos e apresentar soluções ela quebra.

Com uma área de 7,182 mil metros quadrados e 330 expositores, a Mercopar tem como desafio em 2007 ofertar espaço suficiente para atender à demanda de novos expositores e ao aumento da área ocupada por participantes tradicionais do evento. Além da própria Petrobrás, estiveram presentes grupos importantes como Embraer, General Motors, Arteb e Amanco, entre outros grupos de expressão da produção industrial brasileira interessados em incrementar seus cadastros de fornecedores. Somente as sete associadas da Óleo e Gás-RS tiveram acesso a 56 rodadas de negócios.

A Mercopar é promovida pelo Sebrae no Rio Grande do Sul e a Hannover Fairs Sulamérica. É considerada atualmente a maior feira de subcontratação industrial da América Latina. Existem hoje 1,3 mil metros quadrados na fila de espera para empresas interessadas em montar estandes na feira. Neste ano ocorreu um aumento de 900 metros quadrados na área de exposição, praticamente esgotando a capacidade do local.

Aprovada pelos expositores como oportunidade de divulgar a imagem de suas empresas, a Feira de Subcontratação e Integração Industrial (Mercopar 2006) registrou crescimento de 15% no faturamento médio dos estandes em relação ao ano passado. Em 2005, o valor médio dos estandes atingiu R$ 114,3 mil e, em 2006, chegou a R$ 131,5 mil.
A edição de 2007 da Mercopar deverá reunir ainda os setores de indústria naval, florestamento, energia e produção de biodiesel. Os organizadores registraram um crescimento de cerca de 10% no número de visitantes em relação ao ano passado. Em 2005, foram 23 mil e 800 visitantes. Em 2006, a Mercopar registrou 25 mil. Em média, cada estande recebeu 225 pessoas e estabeleceu 63 contatos com possibilidades de fechar negócios futuros.                                                             
Fernando C. de Castro
 

 
  <<< Anterior