ATUALI

DADES

TECNOLOGIA

Patenteada via limpa para cromo

A patente de invenção nº 0604039-0, concedida no início de novembro pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), completa um trabalho de mais de vinte anos, além de representar um caminho alternativo para a química do cromo. O uso do elemento é restrito por ser perigoso à saúde e ao ambiente, quando na forma hexavalente (carcinogênica), e também porque seu processo de obtenção é caro, complexo e causador de várias doenças ocupacionais.

“Há mais de duzentos anos não se cria nada de novo na tecnologia do cromo, paramos no processo Bayer”, comentou o químico Miguel Roberto Pereira Nunes, há quase cinqüenta atuando no setor, tendo participado do desenvolvimento do uso do xisto betuminoso nacional e da produção de resinas fenólicas utilizando o caju, sem mencionar a produção de pigmentos que manteve por anos em Cotia-SP. A longa experiência com pigmentos cerâmicos o fez pesquisar alternativas para o caro bicromato de sódio, até chegar ao processo que patenteou.

O caminho proposto por Nunes começa com ligas comerciais de ferro-cromo, usualmente com teores respectivos de 32% e 54%, com alto  carbono, em conjunto com óxido de ferro (pode ser o natural). O material é oxidado em forno a alta temperatura até oferecer misturas de óxido de cromo e óxido de ferro, com amplos usos possíveis.

Nunes desenvolveu aplicações como pigmentos cerâmicos, com coloração final de preto a marrom. A adição de outros elementos pode produzir mais cores. Com zinco e alumínio, por exemplo, surgem os tons de caramelo. A simplicidade da invenção é enganadora.

Cuca Jorge

Testes mostram bom desempenho do pigmento em cerâmicas

A oxidação precisa ser conduzida por etapas, em condições precisas estudadas pelo inventor durante anos. A granulometria das partículas também influi nos resultados. O privilégio de invenção cobre esse processo, que ninguém ainda tinha conseguido fazer. “Mediante o tratamento adequado, os óxidos de ferro e cromo podem ser usados até como catalisadores no craqueamento de óleo pesado, e em muitas outras aplicações”, salientou.

Nunes explica que o caminho usual para a produção do óxido de cromo começa na obtenção do bicromato de sódio. Isso é feito com a digestão alcalina da cromita mineral em forno do tipo cimenteiro, sob temperatura de 1.000ºC, com forte aeração. “Parte do cromo, na forma hexavalente, se volatiliza nessa operação e provoca dermatites e até perfurações de septo nasal nos operadores”, explicou. Os sólidos obtidos apresentam cromato de sódio e impurezas como magnésio e alumina.

O cromato é solúvel, daí a separação por lavagem e posterior precipitação das impurezas, etapas que consomem muita água. Em seguida, se obtém o bicromato por meio de reações químicas.O bicromato de sódio gera óxido de cromo quando reduzido por enxofre, carvão ou sulfato de amônio, entre outros. Nessa operação, o consumo de água é de 10 toneladas para cada tonelada de óxido de cromo produzida, exigindo investimentos em estações de tratamento e controle de poluição

Cuca Jorge

Nunes: processo tradicional agride ambiente e trabalhador

O problema ambiental é agravado pela elevação dos custos de produção. “Estão sendo feitas importações de pigmentos e intermediários de baixa qualidade, sem valência definida, com elevado risco para trabalhadores e consumidores finais, como forma de baratear a produção”, criticou. Esses produtos acabam sendo aplicados em qualquer uso final, indiscriminadamente.

A alternativa proposta por Nunes elimina o risco de poluição e de saúde ocupacional, além de reduzir os custos de produção. Sua intenção atual, tendo em mãos o processo patenteado, é licenciá-lo para quem tenha interesse em desenvolver produtos a jusante. “Esse é o meu canto do cisne”, afirmou, anunciando a aposentadoria. Quanto a isso, há controvérsias.                                                                                                                M. Fa

 

 
  <<< Anterior
Próxima >>>