Para se preparar para esse mercado em ascensão, a Nalco achou por bem firmar parceria com a Cetrel Lumina, do grupo Odebrecht, especializada em disposição e tratamento de efluentes e resíduos industriais no pólo petroquímico de Camaçari, na Bahia. O plano é tornar viável a estratégia das duas empresas: da Cetrel, de atuar em todo o Brasil, o que a Nalco com sua presença nacional pode oferecer; e da empresa americana, de contar com um forte parceiro com várias soluções em gerenciamento de resíduos, o que inclui desde a fase laboratorial de caracterização até o destino em incineradores (em Camaçari) ou na preparação para co-processamento em fornos de cimentos. “Isso sem falar na sinergia no tratamento de efluentes e na operação terceirizada”, diz.

Embora incipiente, a parceria para gerenciamento global de água e resíduos, com foco em reúso, já rendeu o primeiro contrato: na Fafen, produtora de fertilizantes nitrogenados da Petrobrás, em Laranjeiras-SE. Trata-se de um projeto de reúso de 100 m3 por hora de efluentes, ou seja, o fechamento de circuito da unidade. Na verdade, segundo Santiago, a concepção envolve ainda a redução na geração do mesmo volume de efluentes, que deixarão de ser descartados. “Eles tinham 200 metros cúbicos, agora terão apenas a metade, que ainda será reusada e cujo lodo poderá servir como adubo, por meio de um processo da Nalco”, explica. A vitória das empresas na Fafen foi apenas na etapa de projeto básico-conceitual. A segunda etapa da concorrência, de implementação, ainda ocorrerá.

A idéia com a parceria Nalco-Cetrel é se adaptar ao escopo do cliente. Como centro da oferta está a terceirização, com reúso e reciclo de água em contas com vazões a partir de 30 m3/h de efluentes, em modalidades do tipo BOT e BOOM, se a empresa preferir, pois os dois grupos têm facilidade para conseguir financiamento para as obras. Ainda como meta para reforçar a estratégia comercial, a Nalco-Cetrel deve contar até março de 2007 com um terceiro parceiro, na área de equipamentos. Nos Estados Unidos, a Nalco conta com acordo com a US Filter/Siemens nesta área.

Novos projetos – Quando se definir por um parceiro também da área de equipamentos, a Nalco retomará uma antiga tentativa de ofertar serviços completos, que chegou a existir na década de 90, quando fazia parte do grupo francês Suez e contava com a Degrémont como um de seus braços operacionais. Embora esta sinergia quase não tenha tido tempo de ocorrer, visto que a Suez logo se desfez da Nalco por questões mercadológicas, a junção de forças entre fornecedores químicos e de equipamentos para água é lógica. E se torna de suma importância quando a empresa passa a pensar em vender projetos de reúso, tendo em vista as muitas aplicações que os processos físicos têm nesses fornecimentos, sobretudo com o uso de tecnologias de membranas de filtração. Um exemplo é a GE Water and Process Technologies.

 Depois de adquirir empresas importantes de sistemas e equipamentos – Osmonics, Ionics e a Zenon –, o grupo americano começou a ganhar alguns contratos de reúso de água que seriam mais difíceis de conquistar caso ainda contasse apenas com sua área de tratamento químico oriunda da Betz.

Cuca Jorge

Santiago: quem polui mais, paga mais

 No Brasil, onde as operações das duas empresas adquiridas começaram a se integrar há pouco tempo, com a mudança do pessoal técnico e comercial para a sede da GE em Cotia-SP há cerca de três meses, já existem casos de reúso de água industrial empregando as tecnologias de membranas.

No entreposto da produtora de sucos de laranja Citrosuco, do grupo Fischer, no porto de Santos-SP, a GE acabou de ganhar uma concorrência para fazer um projeto completo de reúso. A obra envolve a construção de unidade de MBR (biorreatores à membranas), com tecnologia Zenon, para tratar 20 m3/h de efluentes originários da manipulação e limpeza da grande quantidade de suco (30 mil t) presente no entreposto antes de seguir para exportação em três navios refrigerados da Citrosuco.

Parte do efluente que passará pelo MBR, cerca de 13 m3/h, seguirá para uma outra unidade de osmose reversa, cuja água bem tratada será empregada na limpeza de tubulação, para locais onde pode haver contato com o suco. Já os 7 metros cúbicos, que passaram apenas pelo MBR, serão utilizados para limpeza de segunda linha, como em chãos e outros locais longe do suco. O rejeito salino da osmose reversa, que possui sólidos dissolvidos, precisará ser descartado.

“Este é o típico caso de uma empresa que preferiu criar uma solução própria e deixar de gastar muito com a Sabesp, comprando água e pagando para tratar efluentes”, explicou o diretor-comercial da GE (Zenon Membrane Solutions), Eduardo Pacheco. Este caso, orçado em cerca de US$ 1 milhão, contará com tanque de aeração para 220 m3, com difusores de ar, que antecedem dois tanques com as membranas de ultrafiltração de fibra oca do MBR, que totalizam quatro cassetes e 32 módulos.

Além desse caso, outro para entrar em operação no final de novembro ocorre na unidade de vinílicos da Braskem, no bairro da Vila Prudente, em São Paulo.  É uma obra, porém, em que a GE entrou como fornecedora dos skids de membranas para uma empresa de projetos de engenharia e operação para água, a Geoplan, pertencente a um fundo de investimentos americano e especializada em contratos de BOT. Neste caso, trata-se de um contrato de seis anos, no qual uma estação de MBR e outra de osmose reversa farão o polimento de efluentes orgânicos provenientes de reatores de polimerização de PVC, que passavam apenas por tratamento físico-químico (mantido para servir como pré-tratamento). Com o novo polimento, que ainda engloba um leito misto de resinas no final, para remoção de sílica, a Braskem deixa de mandar esses efluentes para o caro tratamento na rede da Sabesp e retorna a água desmineralizada para os reatores de PVC. Uma economia e tanto.

As membranas de osmose reversa serão da GE (Osmonics). Já a unidade de MBR, por ter sido contratada antes da aquisição da Zenon pela GE, será fornecida com membranas de microfiltração da japonesa Mitsubishi. “Não deu tempo para trocar, porque o pedido já estava feito”, explicou Rolando Piaia Jr., da GE Water. Por ser de microfiltração, e não de ultrafiltração como a da Zenon, de acordo com o diretor de sistemas integrados da Geoplan, Marcelio da Fonseca, alguns cuidados maiores precisaram ser tomados no pré-tratamento. Foi necessário colocar um filtro de areia. “Na ultrafiltração, por ser mais robusta e com maior poder de retenção, provavelmente não seria preciso”, diz Fonseca. A observação do diretor se baseia no conhecimento adquirido em outro BOT que a Geoplan possui no parque temático Hopi Hari, em Vinhedo-SP. Com membranas de ultrafiltração da Zenon, empregadas para reúso, a estação opera há mais de seis anos sem necessitar reposição.         

A unidade na Braskem vai tratar de 4,5 mil a 6 mil m3/mês de efluentes, produzindo de 3 mil a 3,5 mil m3/mês de água desmineralizada de alta qualidade. Além de ser responsável pela operação completa dos efluentes, a Geoplan também se responsabiliza pelo filtro-prensa que gera lodo de PVC com valor agregado: a Braskem vende para fabricantes de sola de sapato de segunda linha. Já o lodo biológico do MBR segue para aterro.

 
 
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