Reuso de água

Água escassa e cara obriga as

indústrias a encomendar

 projetos

 Marcelo Furtado

Começa a sair do campo da retórica o reúso de água in--dustrial. Pelo me-nos esta é a impressão dos principais competidores do ramo, empresas especializadas em desenvolver e, algumas vezes, executar projetos para interessados em contar com novas fontes de abastecimento, mais racionalizadas e inteligentes. O crescente encarecimento e a dificuldade em conseguir água suficiente para novos projetos industriais são fatores importantes para o cenário em formação.

A indisponibilidade de recursos hídricos, além de ser devidamente alardeada, conta com exemplos ilustrativos e recentes dentro da indústria petroquímica nacional. Para começar, a própria Petrobrás (ver QD-444, pág. 23) condiciona sua expansão da área de refino por meio de grandes projetos de reúso de seus efluentes, tendo em vista a escassez de água nas regiões em que suas principais refinarias estão instaladas. Outro exemplo muito importante é a central de matérias-primas do pólo petroquímico paulista, a Petroquímica União (PQU), ter optado por utilizar água de reúso da Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) ABC, da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Em fase de licenciamento ambiental, o projeto, que consistirá na construção de uma adutora para trazer ao pólo esgoto primariamente tratado da ETE, garantirá a aguardada expansão da PQU.

No referente ao aumento no custo da água, o outro fator determinante para favorecer a adoção do reúso, um motivador recente tem sido a aplicação, em algumas regiões do País, sobretudo Sul e Sudeste, dos planos de cobrança de água. Regulamentados por lei federal, os planos deram origem a comitês de bacias hidrográficas responsáveis pela arrecadação de tarifas por água captada e efluentes lançados em corpos d´água. As primeiras experiências nos comitês das bacias do Rio Paraíba do Sul, que envolve os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, e dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, em São Paulo, amadureceram bastante e seus cálculos de referência, para embasar as tarifas, deixaram de ser apenas simbólicos, começando a pesar no bolso das empresas.

Com a replicação desse modelo pelo resto do Brasil, o impacto tende a ser maior. De acordo com Paulo Santiago, consultor técnico da Nalco, empresa americana de tratamento de água que pretende dar atenção especial a grandes projetos de reúso, a preocupação com as novas tarifas é clara no contato com os clientes. “As empresas estão sendo cobradas não só pela captação e pelo volume de efluentes lançados, mas pelo teor de inorgânicos e limites de contaminantes”, diz Santiago. Segundo ele, os valores de cobrança, de início considerados baixos, na casa dos centavos por metro cúbico, hoje são de cinco a seis vezes maiores. “O conceito do “poluidor-pagador” está pegando: quanto mais se polui, mais se paga”, diz.

Para Santiago, essa tendência é o motor para o reúso desandar no Brasil, tendo em vista as experiências em países mais desenvolvidos.  “Apenas quando o custo começa a incomodar, há investimentos”, ressalta. E o impacto das novas tarifas com os planos de cobrança, segundo ele, começou a se manifestar no segundo semestre deste ano, no Sudeste e até no Sul, na região metropolitana de Porto Alegre. “A quantidade de estudos de reúso encomendados cresceu muito e, em breve, deveremos fechar novos negócios”, completa Santiago.

 
 
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