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Não por menos, o trabalho despertou tanto o interesse da estatal do
petróleo, grande consumidora de membranas, e que recentemente financiou a
modernização do laboratório da Coppe com R$ 4 milhões e destinou apenas
para essa pesquisa R$ 300 mil.
Para começar, ao contrário das membranas de osmose atualmente
comercializadas, planas e enroladas em espiral, a desenvolvida pelos
pesquisadores brasileiros é capilar, de fibra oca (hollow fiber). Segundo
o professor Cristiano Borges, isso torna o processo mais simples e barato,
por meio de uma única extrusão simultânea. Usualmente, no processo
convencional das membranas planas, há duas etapas produtivas: uma em que
se faz o suporte poroso, com polissulfona, e outra para a deposição da
chamada pele, no caso a poliamida. No processo da Coppe, há uma extrusão
ao mesmo tempo de todas as camadas: a de suporte e a porosa. Trata-se de
uma extrusão através de três orifícios concêntricos, nos quais três
líquidos são bombeados: as duas resinas e a parte interna, com água e
aditivos. Após a extrusão, os “espaguetes” de fibra oca prontos caem em um
tanque.
Outra vantagem apontada pelo professor está no tipo de resina utilizada na
membrana nacional. Enquanto as estrangeiras utilizam a poliamida na camada
externa, o que torna a membrana não resistente a oxidantes e a
temperaturas superiores a 40ºC, a da pesquisa é feita com poliimidas e
polímeros especiais (polioxadiazóis), que suportam até 80ºC e os agentes
oxidantes. Esse último detalhe soluciona um grande problema das operações
com membrana de osmose reversa: a não tolerância ao cloro. Considerado
ótimo biocida, a sua proibição de uso no pré-tratamento da osmose, e a
necessidade de usar outros biocidas não tão eficientes, torna o problema
do biofouling (incrustação biológica) o maior inimigo das membranas. Isso
sem falar que a resistência ao halogênio do produto nacional dispensará
também no pré-tratamento a remoção do cloro, normalmente feita por carvão
ativado ou metabissulfito de sódio.
Na produção dos vasos com as membranas, há ainda mais vantagens. Enquanto
nas planas são necessários espaçadores para separar as camadas enroladas,
nas de fibra oca basta juntar as fibras e colá-las. “Isso torna o produto
muito competitivo e de fácil uso no Brasil”, explica Borges. Uma
estimativa dá conta de que o preço da membrana nacional será similar ao
preço cobrado pela importada sem os custos de importação (frete e
impostos), que normalmente chegam a triplicar o seu valor. Isso significa
algo na faixa entre R$ 100,00 e R$ 200,00 por metro quadrado de membrana.
Na importação, sem o custo de frete, segundo afirma Borges, a membrana de
osmose reversa chega a US$ 50/m2, e a de nanofiltração, que a Coppe também
desenvolve, com a mesma tecnologia, sai por US$ 100/m2.
Em fase tecnológica de desenvolvimento, as pesquisas atualmente avaliam e
aperfeiçoam o desempenho do produto. Fazem parte dessa etapa melhorias na
rejeição de sais, na repetibilidade e no fluxo da membrana. O objetivo é
conseguir que a membrana tenha a vida útil média do mercado, de cerca de
três anos. “Mas como ela demandará menos paradas para limpeza, por ser
resistente ao cloro, com certeza o seu custo de operação será menor”, diz
o professor. Uma outra vertente da pesquisa é melhorar a resistência ao
fouling das membranas, com o uso de polímeros hidrofílicos reticulados,
que dificultam a adsorção de materiais orgânicos na membrana.
A participação da Petrobrás no projeto deve iniciar o uso da membrana
nacional em algumas aplicações da estatal. A de nanofiltração, para
começar, poderá ser aplicada para remoção de sulfatos da água utilizada na
injeção de poços de petróleo (para evitar incrustação nos poços). Hoje
essa aplicação é feita com membranas importadas, principalmente da Dow
Química. Já a de osmose, em um primeiro momento, visa aproveitar água
proveniente da produção de petróleo em projetos de irrigação no Nordeste.
Nesse mesmo sentido, e em cooperação com a Universidade Federal de Campina
Grande, na Paraíba, há a probabilidade de usar a membrana para
dessalinização de água de poços artesianos na região do semi-árido
nordestino.
Depois de criada a patente, o uso das membranas pode se alastrar e vai
depender da empresa encarregada da produção. Embora ainda não definido, há
a chance de serem produzidas pela empresa incubada na Coppe-UFRJ, a PAM
Membranas Seletivas (ver QD-449, pág.25), criada há dois anos pelo próprio
professor Cristiano Borges, pelo pesquisador Roberto Bentes e mais outros
professores, que vem produzindo e comercializando com sucesso membranas de
microfiltração.
| “Estamos criando uma
alternativa brasileira consistente, com a tecnologia de um laboratório
que há quase quarenta anos estuda as membranas”, finaliza Borges. No
laboratório da Coppe, aliás, há dezenas de pesquisas de mestrado e
doutorado versando sobre aplicações de membranas, tanto para separação
de líquidos e poluentes como para purificação de gás natural, por
exemplo. |
Divulgação |
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| Ultrafiltração modular da Zenon: também
da GE |
Onda de consolidação – A iniciativa da Coppe de desenvolver
membranas nacionais não poderia vir em melhor hora. Isso porque ao menos
assim uma empresa nacional, aquela que passar a fabricá-las, poderá
usufruir de um mercado que desperta o interesse de grandes grupos. Aliás,
a se guiar pela velocidade com que essas empresas promovem na atualidade
importantes aquisições e ampliações de portfólios, não há mesmo como negar
o potencial de crescimento nas vendas de membranas e outras tecnologias de
tratamento de água.
A americana General Electric (GE), por sua importância no mundo
corporativo, talvez seja o melhor exemplo dessa onda de negociações. Desde
que o grupo passou a se envolver com água no começo do século 21,
originando hoje uma unidade de negócios de US$ 2,5 bilhões chamada GE
Water and Process Technologies, a quantidade de aquisições impressiona. De
início foi a compra da BetzDearborn, em 2002, maior empresa da época de
sistemas químicos para tratamento. Logo depois, para ampliar seu portfólio
e estendê-lo até o campo das membranas e equipamentos de filtração e
desmineralização, a GE adquiriu a americana Osmonics, em fevereiro de
2003. Dois anos para frente, em fevereiro de 2005, foi a vez da também
americana Ionics ser adquirida. O objetivo foi incorporar a especialização
em projeto e fabricação de colunas de resinas de troca iônica, skids de
osmose reversa e de vários outros tipos de filtros, além dos serviços de
terceirização temporários ou permanentes de desmineralização, por meio da
Ecolochem, empresa do grupo.
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