QUÍMICA DO COURO

Tecnologia defenderá setor contra asiáticos

Fernando C. de Castro

O Instituto Brasileiro de Tecnologia dos Cal­çados, Couros e Afins (Ibetec), que substituiu o antigo Centro de Tecnologia de Couros, Calçados e Afins (CTCCA), venceu uma concorrência nacional para receber R$ 1,5 milhão, no período de dois anos, em recursos originários da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) do governo federal. Os valores serão destinados ao aparelhamento dos laboratórios da instituição, a única do País com crédito internacional para ensaios físico-químicos capazes de atender à legislação da União Européia quanto à presença de substâncias restritas, tanto no couro acabado como nos artefatos. O projeto também conta com aporte de um grupo de fabricantes de calçados brasileiros com presença no mercado exterior.

Desse total, o montante de aproximadamente RS$ 900 mil será alocado diretamente na aquisição de equipamentos de última geração em química analítica, notadamente cromatógrafos gasoso e líquido, um espectrofotômetro para a faixa do ultravioleta, outro de absorção atômica, um espectrofotômetro para a região do infravermelho, um ultrapurificador de água, computadores, reagentes, colunas de destilação, autoclave, microscópio óptico, normas, livros técnicos, softwares, móveis, instalação e climatização dos equipamentos. O projeto é denominado Modernit, por se caracterizar numa modernização das instalações existentes no Ibetec.

A engenheira química Carmen Teresa Buffon, diretora-técnica do Ibetec, salienta que, apesar do prazo máximo de dois anos estipulados para e, a modernização dos atuais laboratórios, a instituição irá acelerar a implantação dos principais equipamentos para permitir a realização dos ensaios no prazo máximo de doze meses, a contar de setembro de 2006.
Fernando C. Castro
Empresa gaúcha controla e automatiza processos em curtumes

Atualmente, os curtumes e empresas fabricantes de calçados brasileiros são obrigados a realizar no exterior testes para determinar o volume de cromo VI e de entaclorofenol.

A ausência de recursos tecnológicos no Brasil pode levar a situações catastróficas. Conforme o produto, se a substância ultrapassar as quantidades máximas permitidas, o lote será reprovado. Num teste na Alemanha, por exemplo, os produtos rejeitados são prontamente incinerados. Todo o prejuízo, até com a destruição, corre por conta do exportador.

Fernando C. Castro Além dos testes com cromo e pentaclorofenol, o Ibetec estará habilitado a produzir ensaios com aminas e AZO-compostos, formaldeídos, níquel, cádmio e determinar odores, e solidez. No aspecto científico, Buffon aponta a aquisição de novas metodologias, ensaios e normas técnicas voltados às análises de substâncias e no auxílio ao desenvolvimento de novos materiais. Com relação à tecnologia, ela vislumbra a melhora do controle de impacto ambiental por parte da indústria pela possibilidade de ensaios com efluentes. Paralelamente, os novos ensaios proporcionados pelo Ibetec deverão ajudar na diminuição das barreiras comerciais impostas aos artefatos de couro brasileiro por parte dos países importadores.
Ex-diretor da Clariant para a divisão couros, o consultor Fernando Bello comemora a modernização do Ibetec.
Carmen: ensaios químicos serão feitos no pais a partir de 2007

Ele está à frente de um novo empreendimento denominado projeto Brashoes, que consiste na montagem de uma fábrica conceitual, bancada por um grupo de fabricantes de calçados, com o objetivo de mudar completamente o perfil do beneficiamento de couro e a fabricação de calçados no Brasil.

“No projeto Brashoes vamos utilizar o Ibetec, que é credenciado pela ABNT, Inmetro e a Satra, o organismo internacional de certificação da qualidade para couros e artefatos”, adianta o consultor. Segundo Bello, as possibilidades de o País produzir sapatos de baixo valor agregado para competir com os produtos chineses no mercado externo ou interno estão esgotadas. A partir de agora, os empresários precisam confeccionar sapatos sofisticados, na casa dos US$ 500,00 (preço final) por par, com foco total no mercado internacional. É a forma capaz de salvar a indústria brasileira coureiro-calçadista.

Com a fábrica conceitual, os empresários integrantes do consórcio repassarão a experiência de laboratório a seus empreendimentos, com o objetivo de fabricar calçados de primeira linha em escala industrial. Como forma de desenvolver esses novos produtos, a unidade abrigará ainda um laboratório voltado ao desenvolvimento de cores e de insumos químicos. No local serão colocadas as melhores máquinas e os melhores insumos químicos com conceito de gestão da qualidade equivalente aos moldes da indústria de calçados top de linha da Europa.
 

 
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