| |
SAÚDE
PÚBLICA
Farmácias
querem mais atribuições |
Incluir nas atividades da farmácia e nas atribuições dos cerca de 100 mil farmacêuticos o atendimento médico básico e de emergência está previsto na revolução que o Conselho Federal de Farmácia (CFF) quer desencadear no Brasil, inspirada em um modelo de farmácia desenvolvido na França, o Cruz Verde.
Na França, as farmácias que trazem a cruz verde afixadas na entrada assumem o compromisso de prestar bons serviços profissionais, no segmento da atenção primária ou básica, de acordo com um protocolo complexo e rigoroso.
| O paciente, e não apenas o medicamento, está no foco das atribuições da farmácia e do farmacêutico. No protocolo de normas e procedimentos que o CFF elaborou inspirado no sistema Cruz Verde há lugar para a orientação, o monitoramento e outras atenções a diabéticos, hipertensos, asmáticos e outros pacientes, até aidéticos, para protegê-los de crises e agravamentos. E também para práticas comunitárias, como prestar primeiros socorros à vizinhança; participar das campanhas de vacinação; e distribuir medicamentos a preço subsidiado, em atendimento a programas sociais. Um dos efeitos benéficos previstos é a redução da demanda nos postos de saúde e hospitais das redes pública e privada, incluindo internamentos.O farmacêutico brasileiro é qualificado para as atribuições que o pretendido modelo exige, assegura o presidente do CFF, Jaldo de Souza Santos |
Divulgação |
 |
| Santos: farmácia será a porta de entrada do sistema de saúde |
“Na
universidade sempre estudamos Fisiologia, Fisiopatologia, Farmacologia, Terapêutica e Anatomia”, ressaltou durante o recente 66o Congresso Mundial de Farmácias e Ciências Farmacêuticas, que reuniu em Salvador cerca de 3 mil farmacêuticos de 89 países. “E com a reforma curricular implantada recentemente, passamos a incorporar conhecimentos humanísticos, despertamos a consciência para a responsabilidade social, enquanto profissional da saúde”, disse também.
Um dos obstáculos que precisam ser removidos para que farmácias semelhantes às do sistema Cruz Verde possam operar no Brasil é a Resolução 173 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que veda o uso de tensiômetros, glicosímetros, nebulizadores e outros aparelhos de uso médico-ambulatorial nas farmácias. Jaldo de Souza Santos acha também que haverá outras resistências. “Precisaremos de expressivos apoios e mobilizações, primeiramente dos nossos farmacêuticos, do governo, da Anvisa, das entidades profissionais e das universidades”,
admite
Mas revela também que para o modelo elaborado pelo CFF obter sucesso é preciso, primeiramente, qualificar o farmacêutico. “O Conselho Federal criou um complexo programa de qualificação, que já chegou a seis capitais e alcançará as demais nos próximos dois anos.”
A favor do CFF, segundo ele, está o fato de que “o Brasil não suporta mais o atual modelo de farmácia, apodrecido do ponto de vista sanitário e social”. Uma prova, aponta, “é a sórdida empurroterapia, praticada por balconistas embalados por comissões e indiferentes à saúde dos incautos, que chegam em busca de saúde”. Souza Santos não perdoa: “Grande parte das farmácias se transformou em mercearias; os medicamentos, em mercadorias; e o paciente, em consumidor.”
 |
O presidente do CFF assegura que em todos os países da Europa onde há sistemas de atendimento semelhante ao do sistema Cruz Verde, pesquisas indicam que os cuidados profissionais prestados nas farmácias conquistaram a preferência de grande parte da população e resultam em vantagens importantes para o Estado, o paciente e o farmacêutico.
Outro congressista, o assessor do CFF, Tarcísio Palhano, prevê que as novas farmácias, que ele denomina de comunitárias, serão a primeira porta de entrada do sistema de saúde – e nas emergências, a mais próxima. Ele vislumbra farmácias comunitárias estabelecendo parcerias com o sistema público de saúde, ou mesmo atuando com independência, sem cobrar por serviços alheios à venda de medicamentos.
caberá também à nova farmácia orientar a comunidade para o uso correto e a conservação dos medicamentos, o que incluirá a remoção de tabus persistentes, como eleger o leite, que apresenta acidez capaz de deteriorar a qualidade do medicamento, e não a água, como o líquido certo para tomar pílulas e comprimidos.
“Há medicamentos contidos em cápsulas de celulose que devem ser assimilados no intestino mas, se são ingeridos com leite, como geralmente estão sendo, a celulose tende a ser dissolvida antes da hora e o conteúdo destruído pelo suco gástrico, já na passagem pelo estômago”, exemplifica.
Modelos de farmácia como o Cruz Verde e outros em operação no primeiro Mundo derivam do movimento Atenção Farmacêutica, que surgiu na Califórnia (EUA), no fim da década de 60, através do grupo de farmacêuticos da Universidade de São Francisco, que imaginou saídas para a asfixia que atingiu a profissão em decorrência da produção massificada de medicamentos, fenômeno industrial acelerado no pós 2a Guerra. Tal produção reduziu a atividade do farmacêutico, antes essencialmente um manipulador de medicamentos. “Passamos então a ser vistos pela sociedade não mais como profissionais da saúde, mas como entregadores de caixinhas coloridas”, desabafa o presidente do CFF.
José Valverde
|
|