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AGRONEGÓCIO
Odebrecht produz farelo de mandioca na
Bahia
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Acrescentar folha da mandioca à variada oferta de produtos
que supre de proteína a indústria de rações balanceadas foi o insight que
moveu a Fundação Odebrecht a contratar a Embrapa Mandioca e Fruticultura,
sediada em Cruz das Almas - BA, para as pesquisas no campo, e a Secretaria
de Combate à Pobreza e às Desigualdades Sociais da Bahia a instalar a
primeira fábrica de farelo de folha de mandioca que se tem notícia.
O sonho do presidente do conselho curador da Fundação Odebrecht, o
empresário Norberto Odebrecht, fundador do grupo, é transformar a mandioca
em um agronegócio rendoso e acessível a pequenos produtores.
O governo da
Bahia embarcou no sonho.
A fábrica foi instalada na zona rural de Tancredo Neves-BA, mesmo
município onde está sediada a Coopatan, uma cooperativa de produtores
de mandioca que reúne 1.800 deles distribuídos em nove municípios do
Baixo Sul da Bahia. |
Divulgação |
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| Oliveira promete comprar o farelo para
ração |
A Coopatan, que em regime de comodato administra a fábrica
de farelo, é também uma das cinco cooperativas de pequenos produtores que
a Fundação Odebrecht apóia no Sul da Bahia.
Antes de a fábrica de farelo de folha ser instalada, houve a produção
experimental, em escala piloto, na fornalha da fábrica de farinha de
mandioca da Coopatan, esta doada pela Fundação Odebrecht. Um lote desta
produção seguiu para testes em uma fábrica de rações, a do Grupo Primor,
em Feira de Santana-BA.
O gerente-geral da Primor, Deonilso Bueno de Oliveira, acha que o farelo
de folha está chegando para ficar. “Se houver oferta, haverá mercado”,
avalia. Ele promete comprar todas as 120t/mês que a fábrica de farelo
produzirá inicialmente. “A nossa única exigência é que haja freqüência na
qualidade.”
Freqüência na qualidade é manter o padrão, assegurar que os mesmos teores
de proteína no farelo de folha estejam invariavelmente presentes nos lotes
e embalagens. O responsável técnico da fábrica de farelo, agrônomo Marcelo
Abrantes, revela que foram desenvolvidas quatro marcas, com granulometrias
e teores protéicos diferentes – os teores nas faixas de 28% a 30%; 23% a
25%; 20% a 23%; e 14% a 16%. As duas marcas de maior teor são indicadas
para a dieta de bichos monogástricos, as outras duas para a dos
ruminantes.
| A Embrapa ressalta que o teor
de taninos condensados nas folhas de mandioca reduz a degradação da
proteína no rúmen, permitindo a absorção mais eficiente, no intestino.
Em alguns nichos de mercado, o farelo de folha pode chegar
puro, dissociado das rações balanceadas. Pode, por exemplo, substituir a
alfafa, que tem 22% de proteína, na alimentação de cavalos. |
Divulgação |
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| Abrantes: mais taninos garantem absorção protéica
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Nas melhores condições, revela a Embrapa, o teor protéico da folhagem
alcança 30%, a depender da variedade, idade no dia do corte, época do ano,
manejo, fertilidade de solo e posição das folhas. “As que nascem no terço
superior da planta são mais protéicas.”
O lote fornecido à Primor para os testes apresentou exatos 15,78% de
proteína, atestou a análise feita em São Paulo, no laboratório próprio que
atende as quatro fábricas de ração do grupo – (além da que está em Feira
de Santana-BA, as de São Paulo-SP, Trabiju-SP e Apucarana-PR).
| Marcelo Abrantes atribui esse
teor, ainda sem padrão estabelecido, à condição experimental da
produção, principalmente à circunstância de haver sido obtida em uma
fornalha feita para torrar farinha, destituída de controles precisos
da temperatura, e ao próprio desconhecimento da exata temperatura e da
relação tempo-temperatura, indicações que seriam estabelecidas nos
testes posteriores, estes já feitos na própria fábrica de farelo. |
Divulgação |
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| A fábrica contou com a colaboração da Embrapa |
Na concepção, a fábrica de farelo de folha é a mesma fábrica de folha
de mate para chimarrão dos estados sulistas, com mudanças, limitadas a
ajustes internos, feitas em virtude dos controles de
tempo-temperatura, item essencial para assegurar a qualidade protéica
e a umidade de 8%. “As folhas de mate são mais espessas, exigem
temperatura menos branda no processo de desidratação”, pondera Marcelo
Abrantes. |
Divulgação |
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| ...e foi construída perto de cooperativa de
produtores |
Com o menor teor, na faixa de 14% a 16%, o farelo de folha
transita na mesma faixa de aplicação do farelo de trigo, que apresenta
patamar protéico de 15%, e também na mesma faixa de preço, nos últimos
dois anos entre R$ 270 a R$ 350 a tonelada, revela Bueno de Oliveira. Esta
previsão não indica entretanto que produtos dotados com teores iguais de
proteína apenas se substituem. São múltiplas e variadas as possibilidades
de balanceamento entre as matérias-primas que a indústria de ração dispõe
para assegurar, no produto final, o balanceamento com a exata composição
nutricional indicada na embalagem.
Três quilos de farelo de trigo ou de folha de mandioca com teores de 15%,
podem substituir, por exemplo, um quilo de farelo de soja, que geralmente
apresenta teor protéico no patamar de 46 %. Para reduzir o volume à medida
exata da embalagem, seria acrescentada na formulação farinha de vísceras,
cujo teor de 60% a situa como a fonte protéica mais concentrada. “É o
programa de computador que faz o balanceamento”, explica Bueno de
Oliveira. “Até feijão, se o preço compensar, entra na receita.
”O farelo de folha usado experimentalmente foi incluído principalmente em
rações pra peixe, atendendo à demanda de uma cooperativa de aqüicultores,
criadores de tilápia, que a testou com sucesso. A cooperativa é outra das
cinco apoiadas pela Odebrecht. Mas, revela Bueno de Oliveira, o
ingrediente pode ser acrescentado à maioria das 85 formulações que estão
no mercado com a marca Primor, principalmente nas destinadas a cavalo,
avestruz, coelho, cabra e outros bichos que na natureza não rejeitam
folhas, gramíneas, raízes etc. Bueno de Oliveira apenas exclui o uso nas
rações de frango. “Ficou constatado que a cor verde oliva do farelo tende
a escurecer a carne branca do frango”, admite. E nas destinadas aos dois
bichos monogástricos essencialmente carnívoros – cão e gato.
O lançamento comercial das quatro marcas já desenvolvidas está na
dependência da execução dos projetos de logística (transporte); plantio
adensado nas propriedades dos cooperados das espécies de mandioca que
produzem mais folhagem; e mecanização da colheita. Na fábrica, já está
tudo ok, a prioridade agora é organizar a estrutura e baixar custos fora
da fábrica. “Que vamos viabilizar, vamos”, enfatiza Marcelo Abrantes. A
expectativa é a de que em futuro próximo a folha de mandioca seja mais
importante e rentável para os produtores cooperados do que a raiz.
A produção de farelo de folha está no âmbito da revolução que a Fundação
Odebrecht quer empreender na cultura da mandioca, de acordo com os
parâmetros da produção limpa, que apontam para a produção de vários
produtos e nenhum resíduo. Para alcançar este indicador de qualidade
total, além do farelo de folha e dos tradicionais produtos da raiz da
mandioca, – farinha, fécula, polvilho, tapioca etc. –, a Fundação
Odebrecht está empenhada em desenvolver mais um produto inédito: o carvão
prensado (briquete), usando como matéria-prima o caule da planta,
triturado e prensado. “Os testes comprovaram que proporcionará 4.500
kg/caloria, será uma excelente fonte de energia, quase comparável ao
briquete de serragem, que proporciona 4.700 kg/caloria”, promete Abrantes.
“A lenha rende 2.500 kg/caloria”, compara também.
Lançado o briquete, restará um só resíduo, a manipueira, seiva rica em
ácido cianídrico (HCN) que, segundo a Embrapa, desprende-se quando a
estrutura celular dos tecidos é destruída por ação mecânica, no momento da
colheita manual. O HNC, revela também, deriva da linamarina, o glicosídeo
cianogênico presente na planta que a libera por ação da enzima linamarase,
contida normalmente nos tecidos das raízes, especialmente no córtex.
Consultores estão sendo contratados pela Fundação Odebrecht para
desenvolverem uma aplicação para a manipueira e o HCN.
No Norte, depois de fermentada e com o volátil HCN já ausente, a
manipueira é o genuíno tucupi, ingrediente da cozinha paraense,
indispensável em uma famosa receita de pato.
Outra cogitação é incluir o farelo de folha na alimentação humana, o que
não seria novidade: é uma das fontes de proteína contidas na multimistura
que a Pastoral da Terra desenvolveu para reduzir a desnutrição infantil.
“Imaginamos que o farelo também poderá ser acrescentado à barrinhas de
cereais e coisas assim, até mesmo na merenda escolar”, especula Abrantes.
“Quando todos os projetos estiverem implantados, a renda anual das
famílias cooperadas deverá ultrapassar R$ 6 mil, por hectare de mandioca
cultivado”, avalia.
No campo de experimentação estabelecido em Tancredo Neves em parceria com
a Embrapa e o governo da Bahia, 116 variedades de mandioca são testadas em
busca das que apresentem as melhores combinações de resistência a doenças
e pragas, e rendimentos de raízes, fonte de energia, e folhas, fonte de
proteína. Uma das espécies lá plantadas está alcançando 120 t/ha/ano de
massa verde por hectare, mediante podas de quatro em quatro meses, sem
prejuízo na produção da raiz. O ciclo é de 18 meses, no final do qual a
planta é erradicada a as raízes aproveitadas. As pesquisas entretanto
prosseguem em busca de espécies com rendimentos maiores. A literatura
registra recordes de até 160 t/ha/ano.
Marcelo Abrantes revela que a obtenção de uma variedade que produza folhas
perenemente, que apresente alta relação folha/caules, e possa ser
cultivada perenemente, seria bem recebida – revelação que atesta a
expectativa de que o farelo de folha aumentará significativamente a
rentabilidade da cadeia produtiva da mandioca, renderá bem mais do que a
raiz e seus derivados.
A Coopatan cogita também exportar derivados de mandioca, participando
assim de um mercado que segundo estatística de FAO é dominado pela
Tailândia, dona de 85% das vendas externas. Essa é possibilidade anima
também o governo baiano.
Nos anos recentes, a Tailândia exportou cerca de 3,5 milhões de toneladas
da raiz na forma de raspa e 1 milhão de toneladas de fécula para Holanda,
Espanha, China, Bélgica, Indonésia, Coréia, Portugal, Japão e Alemanha. Já
o mercado de mandioca para mesa, pré-cozida e congelada, é
significativamente menor. O maior exportador é a Costa Rica que exporta
cerca de 60 mil t/ano, principalmente para os Estados Unidos, onde é
consumida por imigrantes da América Latina.
José Latina
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