Apesar de se dizer que a consciência ambiental das empresas tem aumentado nos últimos anos, uma análise um pouco mais cuidadosa da conduta da indústria nacional pode revelar sinais contrários a essa afirmação. O mercado de gerenciamento de resíduos industriais, por exemplo, ainda sofre para superar seus principais obstáculos de crescimento.

É triste consenso entre os participantes desse mercado, sobretudo entre as empresas de tratamento de resíduos, que a maioria das indústrias geradoras está longe de considerar a sério a questão ambiental. “O grosso ainda encara o gerenciamento como um custo a ser evitado, sem retorno. Infelizmente são poucos os que enxergam a gestão de risco como fator de vantagem competitiva e de sobrevivência financeira”, afirmou Carlos Roberto Fernandes, diretor presidente da Essencis, joint venture entre os grupos Camargo Corrêa e Suez Ambiental formalizada para operar aterros, unidades de blendagem para co-processamento e incinerador, além de sistemas de remediação de sítios contaminados.

A visão das geradoras muito focada no custo, sob uma perspectiva de maior importância, se reflete em risco social, uma vez que incentiva o uso de alternativas as mais baratas possíveis, desde o armazenamento de resíduos no quintal da empresa até a contratação de soluções indevidas, como o despejo em lixões e aterros impróprios. Já sob o ponto de vista comercial das empresas de tratamento de resíduos, a conduta das geradoras mantém estacionados os preços das principais tecnologias de destinação nos últimos anos. Concorrendo com a má vontade socioambiental dos clientes e com os preços menores das soluções “duvidosas”, operadores de aterros, incineradores, unidades de blendagem para co-processamento em fornos de cimento e de outras tecnologias corretas e legalizadas ficam sem poder de negociação para corrigir os preços de seus serviços.

Em razão desse cenário, segundo Breno Palma, diretor geral da Veolia Serviços Ambientais – empresa proprietária de moderna central de tratamento de resíduos classe 1 e 2 em Tremembé-SP e de unidade de blendagem em Sorocaba-SP –, de dez anos para cá o mercado cresceu muito aquém do esperado. “Levando em conta o potencial gerador, o crescimento anual deveria ser de três a quatro vezes maior”, afirma Palma. Apesar do aumento de volume de resíduos tratados, visto que antes desse período havia pouquíssima ou nenhuma alternativa correta de tratamento, os preços das principais destinações caíram ou se mantiveram na última década.

“Não conseguimos atualizar os preços, há uma pressão de custo dos clientes, que podem sempre optar pelas alternativas mais baratas e menos confiáveis”, explica o diretor da Veolia. Segundo Palma, no caso de aterro de resíduos classe 2 (não-perigosos), responsável pela maior parte das destinações e com maior oferta, houve queda no preço de 50% ou mais. Há cerca de dez anos, oscilava em R$ 250/t aterrada e hoje está na faixa de R$ 60. Já para o classe 1 (perigosos), por sinal o aterro que exige maiores investimentos de controle e segurança, o seu valor na faixa de R$ 200/t se manteve o mesmo na década, apesar de não contar com grande oferta no País.

No co-processamento em fornos de cimento e na incineração, os preços também se mantiveram no mesmo patamar: de R$ 200 a R$ 400/t no primeiro caso e de R$ 1.700 a R$ 2.000/t no segundo.A realidade do mercado, aliás, faz aos poucos a Veolia inverter alguns pontos de sua estratégia comercial.Para conseguir reforçar seu faturamento, por exemplo, intensifica a atuação do seu laboratório de análises situado na central de tratamento de Tremembé (Aterro Sasa). De princípio muito voltado para uso cativo, na caracterização de resíduos e monitoramento de efluentes, a prestação de serviços aumenta ano após ano, a ponto de hoje 70% de suas análises serem de amostras de terceiros. Para isso, foi transformado em unidade de negócios, com investimentos no corpo técnico e em equipamentos de análise.

Cuca Jorge

Fernandes: a maioria ainda vê como custo a se evitar

Faz parte dos planos também passar por certificação de boas práticas laboratoriais do Inmetro (norma ABNT-NBR 17025) em 2007.

 

 
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