ATUALI

DADES

SEGURANÇA
Explosão química coloca RS em alerta

O levantamento da atividade em química industrial é urgente em Porto Alegre. A advertência do diretor-técnico da Fundação Estadual de Proteção Ambiental do Rio Grande do Sul (Fepam), Jackson Müller, soa como alarme depois do acidente ocorrido no distrito industrial de Cachoeirinha a 30 quilômetros da capital gaúcha. Eram 10h30min de 13 de junho, quando durante a operação de fracionamento de tolueno na Distribuidora de Produtos Químicos MBN, surgiu uma chama proveniente dos tanques, provavelmente provocada por carga eletrostática. Naquele momento começava o pior desastre provocado por uma explosão química da história do Rio Grande do Sul. Um mil e 100 toneladas de 60 produtos entre inflamáveis e corrosivos subiram à atmosfera. Queimaram copiosamente solventes aromáticos como xileno, e tolueno, aguarrás, metanol, acetonas, acetatos, querosene, diversas tipologias de álcool, MTBE, agentes corrosivos como ácido fórmico, ácido muriático, entre outros.

A violência das explosões provocou destruição em instalações de empresas vizinhas como uma fábrica de concreto pré-moldado localizada ao lado.

 Os produtos inflamáveis diante do forte calor romperam o concreto. As formulações em chamas escorreram pelas tubulações subterrâneas e derramaram ao longo do denominado arroio Passinhos, um pequeno curso de água com foz no Rio Gravataí, uma das maiores fontes de água potável da região metropolitana. Uma labareda de 150 metros de extensão se formou sobre a superfície do arroio. Uma fumaça negra e ácida se ergueu a 30 metros de altitude.

Quando o incêndio foi debelado as 16h do mesmo dia, começaram sucessivos vazamentos de tolueno e xileno novamente sobre o arroio, os quais foram detectados ao longo de três dias. O solo da região ficou totalmente contaminado.

Fernando C. de Castro

Müller: impotência da Fepam para fiscalizar todas as empresas

Jackson Müller reconhece a impotência da Fepam em fiscalizar todas as empresas anualmente. Repousam em sua mesa 13 mil processos em andamento com pedidos de licenciamento ambiental para atividade industrial ou de distribuição de produtos químicos, fato explicado pela presença de um complexo petroquímico nas adjacências. “A Fepam depende muito da responsabilidade das empresas em montarem sistemas seguros, pois não há como colocar um fiscal em cada esquina.”

O contingenciamento está a cargo do Corpo de Bombeiros, Prefeitura Municipal, Fepam, Defesa Civil e Prefeitura Municipal de Cachoeirinha. Foram criados três sistemas operativos. Um é vinculado à recuperação do meio ambiente com empresa especializada contratada pela agente causadora do sinistro.

Ao grupo de assistência social cabe realocar as famílias, cujas casas foram destruídas. O terceiro tem a tarefa de realizar exames nas pessoas atingidas pelas partículas contaminantes, sendo formado por médicos, bioquímicos e biólogos especializados em eventos com reflexos toxicológicos. Há famílias inteiras intoxicadas. No auge do incêndio, três mil pessoas tiveram de ser retiradas, incluindo empregados e diretores de indústrias localizadas na vizinhança.

A equipe da Fepam monitora tanto a área da fábrica como os pontos do rio atingidos pelos vazamentos. Ao todo 100 pessoas estão mobilizadas direta ou indiretamente com a crise. O Gravataí permanece interditado para o consumo de água.

Diante dos danos causados, a Fepam aplicou multa de R$ 200 mil e advertência a MBN. Foram considerados como agravantes a contaminação do arroio (trecho de aproximadamente 5.700 metros) e do rio Gravataí com o lançamento de 60 tipos de produtos químicos, a interrupção do abastecimento de água na cidade, a mortandade de peixes, a contaminação do solo e subsolo na área da MBN, poluição atmosférica pelos gases tóxicos gerados na queima de produtos estocados e volatilização dos produtos vazados com evacuação de moradores vizinhos à empresa, além do fato de a distribuidora ter realizado, sem autorização da Fepam, obras de ampliação em sua planta de fracionamento.

O auto de infração também determina que a empresa deverá apresentar no prazo máximo de 30 dias, após o acidente, relatório de avaliação das possíveis causas, notas fiscais contendo os volumes e tipos de resíduos perigosos encaminhados para tratamento e disposição. No prazo máximo de 45 dias terá de enviar Relatório de Impacto Ambiental da área da indústria desde a nascente do Arroio Passinhos, até sua foz, no rio Gravataí, realizado por equipe técnica habilitada.

Devido aos vazamentos posteriores ao incêndio, a MBN está obrigada também a emitir relatórios diários sobre o processo de desinfecção da área. O que estão fazendo, o que estão removendo. Um dos documentos mais recentes assinado pelo diretor da empresa Luiz Carlos Santos e pelo engenheiro químico responsável Cláudio Frank Cunha CRQ 05300170-5ª Região, dá conta de que a “empresa conseguiu a partir do dia 22 de junho diminuir significativamente as conseqüências nefastas do sinistro”.
Diz o relatório: “Apagado o incêndio, foram de imediato tomadas as seguintes providências: contratação e colocação na empresa de 60 operários para limpeza do pátio, alocação de caçambas para armazenagem e transporte de areia com resíduos, limpeza do pátio com 48 metros cúbicos de areia, neutralização com cal hidratada dos produtos químicos na área da fábrica e no arroio contíguo à planta.”

E prossegue o documento ao comunicar a lavagem do arroio com 225 metros cúbicos de água, a abertura de uma vala com instalação de tubos de cimento com 60 milímetros de diâmetro, conectando as águas que vêm de fora da empresa, até o arroio Passinhos, abertura de drenos para a retirada de 660 metros cúbicos de líquidos retidos e posteriormente transportados para o Cetrel (central de tratamento de efluentes) do Pólo Petroquímico de Triunfo.

Foram retirados 55 metros cúbicos de areias contaminadas. Tiveram de proceder vedações emergenciais para impedir o contato das tubulações e áreas de infiltração da empresa com pontos de escoamento, lavagem de contaminantes no arroio. A empresa providenciou ainda a remoção de todos os tanques queimados e passou a proceder a análise da água do córrego para medir pH, dosagens de tolueno, xileno, fósforo, DQOs, alcalinidade total, sulfatos, cloretos, querosene, na proporção de uma coleta por dia.


O relatório da MBN deu conta de que a maior parcela dos produtos inflamáveis devido à posição do sinistro se dissolveram na atmosfera. Os produtos corrosivos em sua grande parte ficaram presos às tubulações ou atingiram o arroio, sendo neutralizados por cal e soda barrilha. Uma parte ficou retida no lago da empresa. Outra parcela não mensurada ficou retida na cobertura de areia. Neste aspecto, um dos coordenadores diretos da Fepam na área, Luiz Fernando Guaragni, diz que a empresa vem procedendo a contento.

No entanto, para voltar a operar com produtos líquidos terá de passar por todos os trâmites normais de uma empresa em fase de abertura de operações com requisição de licença prévia, licença de instalação e licença de operação. “Vão ter de começar do zero e rever todos seus procedimentos”, avisa Guaragni.

Enquanto Cachoeirinha vive dias de horror, o principal município gaúcho em operação de produtos voláteis, Canoas, o qual abriga a refinaria Alberto Pasqualini da Petrobrás, distribuidoras de gás e de combustíveis de modo geral, além de indústrias de alimentos e farmacêuticas, universidades e inúmeros laboratórios, se antecipa às possibilidades de um sinistro de magnitude. Começou a fazer o que todo mundo já deveria ter feito. Deu início a um senso das indústrias com potencial de ocasionar acidentes de larga escala em seu território.

Tomara que o exemplo de Canoas seja seguido depois do que ocorreu em Cachoeirinha. Mesmo com poucos funcionários cabe à Fepam cobrar das prefeituras mais rigor na fiscalização. É obrigação das empresas com atividade de risco construírem plantas adequadas e trocar informações com os organismos técnicos como forma de evitar esse tipo de tragédia. Dessa vez ninguém se feriu com gravidade. Se houver uma próxima vez: pode ser pior.                                                               Fernando Cibelli de Castro

 

 
  <<< Anterior
Próxima >>>