Diferenciação é a
palavra da vez no setor de distribuição de produtos químicos no
Brasil. Depois de alguns anos investindo na consolidação da imagem
setorial, essas empresas agora operam instalações altamente
qualificadas e se submetem a um programa consagrado de gestão, o Prodir. Porém, a par dessas circunstâncias
se percebe uma replicação da fórmula vencedora de portfólio amplo,
qualidade e serviços, com disputas concentradas nos mesmos mercados e na
mesma região geográfica. “O faturamento setorial cresceu quase 10% em 2005, chegando a U$ 2,5 bilhões”, comemorou Rubens Medrano, presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos (Associquim). Esse desempenho comprova, na sua análise, o resultado dos esforços para renovação da imagem da distribuição, pois boa parte desse incremento é creditada à transferência de vendas diretas de produtores ao canal comercial. “Ainda temos um longo caminho pela frente, mas já provamos que agregamos valor à cadeia produtiva.” A comemoração, porém, é contida pelos indicadores de rentabilidade do setor. “Ainda não conseguimos remunerar adequadamente o capital investido e nem repassar os aumentos de custos”, lamentou o presidente da Associquim. A entidade, prestes a concluir o levantamento estatístico sobre 2005 entre os seus associados, estima ter obtido margens de lucros mais estreitas do que as registradas em 2004. Para Medrano, o mais triste é constatar que os esforços dos distribuidores brasileiros nos últimos anos não foram acompanhados pelos entes estatais, cuja inoperância impede o País de crescer além dos 3% alcançados em 2005, desempenho apenas superior ao do devastado Haiti em todo o continente americano. “O Brasil não fez sua lição de casa, seguimos com juros e impostos muito elevados, não fizemos a reforma tributária, nem a previdenciária, nem a fiscal, o governo ainda gasta muito e mal”, criticou. A relação cambial favorável ao dólar começa a arrefecer o ânimo dos exportadores e a ampliar a oferta de concorrentes e produtos substitutos no mercado nacional. Medrano explica que, se por um lado o dólar barato facilita a importação de insumos, de outro, muitos clientes reduzem sua atividade por não conseguirem concorrer com produtos acabados estrangeiros, anulando o benefício. Alguns setores, como têxteis e calçados, apresentam casos de migração de fábricas para outros países. Além disso, há alguns anos o volume de investimentos na indústria química vem migrando da Europa e das Américas para o Oriente Médio e para a Ásia, modificando o sentido dos fluxos internacionais de produtos. No Brasil, a produção química cresce lentamente, e a importação já se tornou necessária para suprir vários segmentos a jusante. “De diferente, verificamos que o fluxo de importações se tornou mais constante, tornando desnecessário trazer grandes lotes de uma só vez, criando instabilidade no mercado”, explicou. Um risco mencionado por analistas consiste na possibilidade de os próprios fabricantes nacionais se tornarem importadores em vez de ampliar capacidades produtivas. Ainda no campo internacional, Medrano lamenta a deterioração de relacionamento entre os sócios do Mercosul e acompanha com receio o fortalecimento do populismo nos países da América Latina. “Esse ambiente afugenta novos investimentos produtivos na região”, comentou. Da parte da distribuição química brasileira, os avanços são claros. Medrano delineia o perfil das empresas do setor como sendo profissionalmente administradas, dotadas de estrutura física adequada aos negócios e conscientes do seu papel social. “Só nos falta implantar o código de ética, que já está em fase final de elaboração para ser apreciado pelos membros da Associquim”, comentou Medrano. Segundo o dirigente, o
código de ética não exigirá grandes esforços por parte das
associadas, muito envolvidas com o processo de distribuição responsável.
“É uma questão de postura empresarial, uma carta de intenções”,
explicou. No entanto, ao formalizar a adesão ao código, o distribuidor
assume um compromisso com seus pares, existindo a hipótese de punição
se houver violação dos princípios éticos. A pena máxima será a
expulsão dos quadros da Associquim.
Cardápio variado – Maior distribuidora do setor químico nacional, a Ipiranga Química verificou queda de vendas e rentabilidade durante 2005, em torno de 5%, apesar de atuar em grande número de segmentos de mercado com portfólio de mais de 700 produtos. “O ambiente de negócios está desanimador em todos os segmentos”, lamentou Fernando Rafael Abrantes, diretor-superintendente da empresa. O faturamento ficou por volta de R$ 545 milhões em 2005, contra R$ 577 milhões em 2004. No ano passado, a passagem dos furacões Katrina e Rita pelos Estados Unidos, deixando um rastro de destruição e comprometendo o abastecimento de vários produtos químicos, principalmente solventes, provocou uma ligeira recuperação de preços, logo debelada. No caso dos solventes hidrocarbonetos, há uma situação de superoferta mundial a deprimir as cotações. As poucas exceções mencionadas pelo superintendente foram os setores de cosméticos, farmacêuticos e o automotivo, este consumidor de borrachas, adesivos e tintas. E só. “O câmbio estável é muito bom, mas o real deveria estar um pouco mais desvalorizado”, afirmou. Nas cotações atuais (e de 2005) das moedas estrangeiras, os compradores de produtos químicos ficam sem ter para quem vender o produto final e acabam por reduzir suas compras. O desânimo nos
mercados consumidores, porém, não é motivo para a Ipiranga suspender
investimentos. No ano passado comprou a Forlab, empresa nacional
especializada no comércio de ingredientes para a indústria farmacêutica.
Segundo Abrantes, a Forlab não tinha armazéns próprios, e os estoques e
operações foram transferidos para o Centro de Distribuição de
Guarulhos-SP, inaugurado há quase dois anos. “Eles atuavam com importação,
com portfólio dividido em 50% com ingredientes ativos e 50% com
excipientes”, afirmou. A linha recebida é bem ampla, e talvez venha a
ser limitada no futuro.
Outra novidade da Ipiranga é a entrada no mercado de ingredientes para aromas e fragrâncias, mercado que representa US$ 330 milhões por ano no Brasil. A empresa planeja formar um portfólio com aproximadamente 20 itens importantes para suprir os grandes formuladores globais instalados no Brasil, que por sua vez suprem fabricantes de cosméticos e alimentos, principalmente. “Trata-se de negócio com grande sinergia com nossas áreas química e de life sciences”, justificou Abrantes. O início dessas atividades está previsto para o final deste ano. |
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