Atualidades AMBIENTE Bahia quer tirar chumbo de cidade Instalar uma usina para beneficiar anualmente, por dez anos, 50 mil t
de escória de chumbo, extraindo 3.750 t por ano de zinco e 1.750
t/ano de chumbo metálicos, está no âmbito de uma proposta
de remediação elaborada pela Universidade Federal da Bahia
(UFBA) para livrar Santo Amaro da Purificação-BA de quase
500 mil t de escória de chumbo que estão contaminando solo
e água, envenenando gente, gado, mariscos, frutas e hortaliças. A metalurgia produziu lingotes durante 38 anos – entre 1958 e 1989
– sob a razão de Companhia Brasileira de Chumbo (Cobrac),
subsidiária da francesa Peñarroya Oxide, hoje incorporada
ao Grupo Metaleurop, líder mundial da produção de
óxidos de chumbo. E depois, até ser fechada em 1993, na
condição de Plumbum Mineração e Metalurgia,
empresa do grupo brasileiro Trevo.
Em agosto de 2005, o governo federal formou o “Grupo de Trabalho
Multisetorial” para cuidar da remediação e da promoção
social e econômica, reunindo 32 representantes de 16 ministérios
guiados por um plano de trabalho que inclui ações em pelo
menos oito áreas: saúde, previdência social, meio
ambiente, educação, trabalho, desenvolvimento sustentável,
turismo e relações exteriores – aí incluída
a ação diplomática para convencer o governo da França
a colaborar na remediação.
Em setembro, dois jornalistas franceses– Bernard Duraud, do L’Humanité, e Armelle Rousseau, do L’Est Républicain – revelaram em Santo Amaro que a Metaleroup, que incorporou a Peñarroya Oxide, abandonou a cidade de Noyelles, norte da França, deixando vestígios de chumbo sem tratamento adequado. Está sendo obrigada pelas autoridades a remediar. Geofagia – Nos 38 anos de produção,
o processo metalúrgico da Cobrac/Plumbum se baseou na obtenção
do óxido de chumbo (PbO) por meio de ustulação oxidante
da galena (PbS), seguida de etapas de sinterização e redução
do óxido a chumbo metálico. Nesse tempo produziu 491 mil
t de escória, decorrência da adição de fluxantes,
na etapa de redução, para remover as impurezas do banho
metálico. O fato de a maior parte da escória que chegou à zona urbana
(55 mil m3 ou 110 mil t) estar depositada abaixo do pavimento das ruas
assegura certa proteção, mas as autoridades ambientais consideram
que constantemente o pavimento é removido para operações
nos sistemas de água e esgoto, novas ligações, implantação
de cabos de fibra ótica e outras operações. Em setembro
de 1998, por exemplo, fortes aguaceiros, que coincidiram com obras de
saneamento, contribuíram para espalhar e lixiviar volumes acumulados
provisoriamente na porta das casas. O tráfego e a própria
movimentação da obra pôs em suspensão a fração
particulada, a poeira, restabelecendo a possibilidade de contaminação
por via aérea. De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos
Estados Unidos (Usepa), em determinadas situações a maioria
das crianças ingere cerca de 100 mg de solo/dia – e 5% delas
bem mais, pelo menos 200 mg/dia. A geofagia, como o hábito é
denominado, é comum na primeira infância. A literatura registra
também que o chumbo aspirado juntamente com a poeira em suspensão
entra em contato direto com pulmões e vias respiratórias,
passando imediatamente para a corrente sanguínea. As crianças,
devido à própria estatura, são mais vulneráveis.
Outra constatação perturbadora: frutas e hortaliças
dos terrenos e quintais de Santo Amaro com escória na cobertura
do solo apresentam altas concentrações de chumbo e cádmio. A distribuição espacial e o volume da escória subterrânea
foram calculados com base em ensaios indiretos em 38 seções,
com uso do radar de penetração (Ground Penetrating Radar
ou GPR). A maioria destes ensaios feitos nas seções onde
se supunha a existência de escória confirmou as previsões,
mas em algumas a distinção entre a escória e a areia
se apresentou confusa. “Os dois materiais apresentaram padrões
semelhantes de reflexão de ondas”. No tratamento, a escória deve ser separada da areia, tarefa que exige a escavação de 94 mil m3 de solo urbano. “Deve-se ressaltar que na equipe de fiscalização da obra deverão estar presentes técnicos, designados pela equipe do Projeto Purifica, de modo que assegure a completa remoção da escória sob o pavimento das ruas, quintais das casas, e sua adequada disposição”, determina o projeto. Zona monitorada – Parcela maior dos resíduos
(175 mil m3 ou 350 mil t) está majoritária e precariamente
depositada em um aterro, em torno da desativada metalurgia, em terreno
margeado pelo rio Subaé. É o foco principal da contaminação.
Foi depositada nesse lugar em 1994, em cumprimento à exigência
das autoridades ambientais e do Ministério Público. A concentração
de chumbo alcança 159,0 mg/l – 31,8 vezes o limite recomendado.
Por causa da ação das intempéries, solo e água
estão sendo contaminados. As águas superficiais que lixiviam a escória atravessam
uma zona alagadiça, alcançam o Subaé, e na seqüência
natural a Baía de Todos os Santos, dez quilômetros depois,
carregando teores elevados – até 7,81 mg/l (chumbo) e 0,84
mg/l (cádmio), bem acima do limite Conama – 0,03 mg/l e 0,001
mg/l. No Projeto Purifica são sugeridas medidas para o correto
acondicionamento desta escória, “ainda que provisório”. Para a camada arenosa da margem do Subaé, que se encontra contaminada
e cuja abrangência seria de cerca de 2 quilômetros por 10
metros de largura, é recomendado apenas o monitoramento dos níveis
de concentração, depois de cessadas as fontes de contaminação.
Esta recomendação é justificada pelo alto custo das
possíveis medidas usuais de remediação e pelo próprio
nível de contaminação, considerado moderado. A eletrocinética,
que seria a opção remediadora, demandaria aí um custo
energético de 5 milhões de dólares, considerando
o MWh a 50 dólares. É recomendada também a raspagem
no entorno da fábrica: remoção de toda a escória
depositada superficialmente, em conjunto com o solo superficial mais severamente
impactado. O Projeto Purificação conclui que o processamento da escória
apresenta “boas possibilidades” de ser economicamente viável,
mesmo sem contabilizar o custo do passivo ambiental. O HCL requerido no
processamento – 15 mil t/ano – será obtido a custo
zero, na condição de rejeito industrial da Monsanto e da
empresa de proteção ambiental de Camaçari, a Cetrel.
Os solventes seriam os orgânicos D2EPHA e, eventualmente, o LIX
986. A escória é uma jazida a ser explorada em dez anos, ao
custo total previsto da ordem de R$ 15 milhões – dos quais
cerca de R$ 10 milhões poderiam ser recuperados pela extração
dos metais, descontados os custos de operação da planta.
A intenção é encontrar uma fórmula que viabilize
a exploração através de uma empresa privada, com
nenhum ou pouco subsídio do governo baiano. É a remediação
sustentável. Ou quase. José Valverde
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