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PERSPECTIVAS
2006
COURO
Exportação fraca
preocupa curtumes
Câmbio frouxo prejudica
vendas externas, enquanto insumos químicos voltam a ser importados
Fernando
Cibelli de Castro
Um movimento crescente de importação de insumos químicos
para processamento de couros, que ocorreu de maneira velada em 2005, é
aguardado para 2006 em território gaúcho. A opinião
é do presidente da Associação dos Curtumes do Rio
Grande do Sul (Aicsul), Cezar Luiz Müller. Para ele, a 30ª Feira
Internacional de Couros, Químicos, Componentes e Acessórios,
Equipamentos e Máquinas para Calçados e Curtumes (Fimec)
– 5 a 8 de abril, em Novo Hamburgo-RS –, deverá servir
como termômetro desse cenário.
A invasão de produtos estrangeiros deve acontecer por conta das
dificuldades encontradas pelos curtumes na hora de comprar produtos similares
no Brasil, conseqüência da recusa do governo estadual em permitir
o desconto, por parte das empresas, dos 100% de créditos em ICMS
para a aquisição das matérias-primas empregadas no
beneficiamento de couros direcionados exclusivamente às exportações,
bem como o ressarcimento do PIS e da Cofins por parte do governo federal,
outro acordo que igualmente não vem sendo cumprido.
Importar insumos químicos pelos curtumes é hoje uma operação
plenamente possível. Primeiro porque o dólar a preço
de banana torna o produto comprado lá fora mais barato, justamente
pela incidência pesada de impostos sobre os similares nacionais.
A burocracia também não é complicada. Caso a empresa
seja de grande porte, pode se valer sem maiores problemas do drawback.
Denominado tecnicamente Regime Aduaneiro Especial de Drawback, o artifício
está descrito no Regulamento Aduaneiro e na Portaria 4/97 da Secretaria
de Comércio Exterior (Secex), onde consta o sistema administrativo-operacional
do benefício.
A autonomia para a concessão, acompanhamento e verificação
do compromisso de exportar, entretanto, fica a cargo do Departamento de
Operações de Comércio Exterior (Decex). São
duas as modalidades de drawback. A suspensão de cobrança
do tributo relacionada com o compromisso de futura exportação
deve ser solicitada antes da importação dos insumos. O prazo
de cumprimento do compromisso expira em um ano, mas pode ser prorrogado
por igual período. Em caso de bens de longo período de fabricação,
o prazo máximo é de cinco anos. Como forma de se beneficiar
do dispositivo, a empresa precisa preencher documento-padrão emitido
pela Receita Federal e obedecer a uma série de normas legais e
atender as eventuais ações de fiscalização
do governo.
A outra forma de isenção via drawback é a reposição
de estoques de insumos utilizados na fabricação de mercadorias
exportadas e segue as mesmas especificações com o pedido
e do ato concessório como a apresentação de documentos
que atestem a exportação e os respectivos comprovantes de
importações (CI). O prazo para pleitear o benefício
é de até dois anos contados a partir da data de registro
da primeira declaração de importação. Há
tabelas de porcentagens para definir os limites das isenções.
Olivaldo Leizke, representante para o Rio Grande do Sul da Lanxess Química,
um dos maiores players globais voltados ao abastecimento dos curtumes,
concorda com Müller. No seu entendimento, se o governo local não
permite a transferência de crédito de exportação,
a importação é uma ótima saída. “Os
curtumes foram heróis no ano passado e obrigados a transformar
40% a mais de capital em dinheiro para operarem”, assinala Leizke.
“A saída é importar para se manter competitivo”,
resume o executivo. Conforme o representante da Lanxess, até mesmo
as pequenas empresas poderão se aproveitar das vantagens cambiais,
pois a linha de químicos para curtumes no regime do Mercosul está
100% liberada de tarifas aduaneiras e a Argentina tem tudo para atender
o mercado de imediato.
De maneira geral, as projeções não são nada
animadoras no segmento de curtumes gaúcho. “Nós fomos
os mais prejudicados com a atual política cambial. Por isso, temos
perspectivas pessimistas para o próximo ano”, antecipa Müller.
Ele adverte que o Brasil pode perder a oportunidade de fazer o dever de
casa e participar do crescimento mundial, o que significa construir uma
política tributária justa e baixar os juros a menos de 12%,
numa faixa entre 9% e 10%.
A expectativa negativa das lideranças do setor de curtumes gaúchos
decorre dos números finais relativos a 2005. O crescimento na receita
das empresas com exportações foi de apenas 1%, bem abaixo
do índice nacional, 8%. Quanto ao destino dos produtos, as estatísticas
oficiais do governo apontaram 8% de crescimento nas exportações
em volume e 7% em valores monetários em termos de Brasil, o equivalente
a US$ 1,4 bilhão, US$ 1 bilhão a mais do que em 2004.
O grande destaque foi a China em volume (62% em relação
a 2004). Em faturamento, a Coréia do Sul liderou também
com 62% de incremento. Na contramão, as exportações
dos curtumes gaúchos desceram ladeira abaixo. Em volume vendido
para os quatro maiores clientes os números foram negativos: Hong
Kong (-27%,), Estados Unidos (-15%), Itália (-26%) e China (-15%).
Contudo, o Rio Grande do Sul ainda responde por 30% das exportações
brasileiras de couros e obteve o equivalente a US$ 424 milhões
com as vendas externas.
Ao destilar sua angústia, Müller lança mão dos
números oficiais relativos ao crescimento do PIB das economias
emergentes: Rússia 5,5%, Índia 7,1%, China 9% e Brasil 2,6%.
“Um País em desenvolvimento como o nosso tem de crescer no
mínimo 5%”, reforça. Apesar do cenário desfavorável,
projetado nos cálculos da Aicsul, o Brasil prosseguirá na
liderança mundial da produção de couros, resultado de 42 milhões de abates
de bovinos. Na avaliação da entidade, as indústrias locais estão
capacitadas tecnologicamente para atender aos mercados mais exigentes do
mundo com couros para calçados, vestuário, artefatos, móveis e automóveis.
| Fernando C. Castro |
Máquinas podem crescer – O empresário Raul Ludwig
assumiu em janeiro, pela terceira vez consecutiva, a presidência
do Conselho de Administração da Associação
Brasileira das Indústrias de Máquinas e Equipamentos para
Couros, Calçados e Afins – Abrameq –, biênio 2006 e 2007. |
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| Müller:
política cambial traz pessimismo ao setor |
Ao ser reconduzido ao cargo, o presidente destacou que 2005
começou bem para o setor, mas terminou mal, principalmente por
causa do baixo valor do dólar, que prejudicou a competitividade
das empresas brasileiras. Ele apontou outras dificuldades, como o avanço
dos chineses em mercados atendidos pelos fabricantes daqui. Ao contrário
do setor de curtumes, Ludwig confia numa recuperação em
2006. Para isso, considera positivo o diálogo com o governo federal,
na audiência obtida em dezembro com a Presidência da República,
na busca de alívio tributário para os negócios com
bens de capital. Outra reivindicação atendida no fechamento
do ano foi a isenção de ICMS, via decreto do governo estadual,
na compra de máquinas fabricadas no Rio Grande do Sul e vendidas
dentro do Estado. Com isso, acredita Ludwig, o segmento de máquinas
para calçados e couros poderá enfrentar a concorrência
estrangeira no mercado interno, embora no exterior ele reconheça
que a vantagem continuará com os fabricantes com base de operações
na Ásia. Mesmo assim, a Abrameq continuará o seu esforço
em busca de negócios fora do País. A entidade participou
dos eventos internacionais no início do ano, notadamente a Couromoda,
em São Paulo, a International Leather Fair, entre 31 e 03 de janeiro,
em Chennai, Índia e a International Footwear and Leather Show,
em Bogotá, também no começo de janeiro.
De 18 a 21 de fevereiro ocorreu a Anpic 2006 (La Feria de América)
em Leon, México. E, em abril, estará na Fimec. Dentre os
eventos internacionais, a menina dos olhos é a feira mexicana,
uma vez que 45% das máquinas e equipamentos para couro e calçados
exportados pelo Brasil são desembarcados naquele país. Os
eventos do segundo semestre dependem da renovação do contrato
com a Agência de Exportação do governo federal, a
Apex.
Como forma de marcar presença no concorrido mercado globalizado,
a Abrameq criou a marca “by Brasil”, um selo carimbado em
todas as máquinas produzidas nacionalmente. Com supervisão
técnica do Senai, foi elaborado um critério classificatório
quanto à qualidade dos produtos. A série bronze garante
ao comprador um equipamento que atende a 189 requisitos de qualidade em
relação a prospectos e manuais técnicos, tais como
embalagem, transporte, movimentação, segurança e
ergonomia. O selo prata aprofunda a qualidade em itens como segurança
e ergonomia, e abrange também a diretiva da Comunidade Européia
quanto às normas internacionais mais recentes. Assim como a ouro,
engloba quesitos como relacionamento com clientes, fornecedores e rastreabilidade.
A série ouro, especificamente, contempla a implantação
do sistema de gestão da qualidade certificado pela norma ISO 9001
e preenche 80% das exigências da Comunidade Econômica Européia.
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