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PERSPECTIVAS
2006
QUÍMICA FINA
Segmento
cresce
pouco em 2006
Agronegócio
vacilante,
real valorizado e juros
altos dificultam negócios
com as especialidades
MÁRCIO
AZEVEDO
A pós ótimo desempenho em 2004, que se estendeu no primeiro
semestre de 2005 e minguou no segundo, a indústria brasileira de
química fina deverá enfrentar dificuldades em 2006. O ambiente
macroeconômico pouco favorável (juros altos, real valorizado,
condições precárias de financiamento) esperado no
ano, com estimativas de crescimento do PIB modestas, inferiores a 4%,
e a ausência de uma política industrial concreta –
embora muitas vezes anunciada – traçam cenário pouco
animador para o setor, marcado pela quebradeira generalizada entre as
empresas nacionais após a abertura comercial abrupta no início
dos anos 90 e o decorrente domínio avassalador do mercado interno
por concorrentes multinacionais.
Para a Associação Brasileira das Indústrias de Química
Fina, Biotecnologia e suas Especialidades (Abifina), não há
grande perspectiva de crescimento em 2006. A entidade engloba produtores
dos segmentos de defensivos agrícolas e animais, fármacos
e medicamentos, vacinas, catalisadores e aditivos, intermediários
de síntese, corantes e pigmentos orgânicos e, para vários
deles, as sinalizações da economia são preocupantes.
| Cuca Jorge |
O agronegócio, um dos principais motores da economia brasileira,
não deve repetir o bom desempenho dos últimos anos em 2006,
afetando diretamente os produtores de agroquímicos. “O dólar
depreciado afeta a renda dos produtores agrícolas, e também
houve perdas na última safra devido a problemas climáticos.
A combinação desses fatores resultou em uma redução
da renda do setor agrícola estimada em R$ 17 bilhões”,
diz Luiz Cesar Auvray Guedes, presidente da Abifina.Os produtores
agrícolas iniciaram a safra 2005/2006 pouco capitalizados, e os preços
de algumas commodities, como a soja, traçam rotas descendentes. |
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| Resultado
dos genéricos não foi o esperado, diz Guedes |
A demanda por grãos também está
sendo corroída pela crise que afeta os produtores internacionais
de frango (a gripe aviária provoca o abate de aves, grandes consumidoras
de soja e milho) e os pecuaristas brasileiros, graças ao novo surto
de febre aftosa. O preço da carne bovina cai no mercado interno,
devido ao excesso de oferta provocado por retaliações, embargos
e denúncias que interrompem as exportações brasileiras.
O surgimento das doenças animais até poderia trazer benefícios
para produtores de vacinas animais, mas não aos concorrentes brasileiros,
pois no caso da gripe aviária uma única empresa multinacional
detém a patente do produto.
Os fabricantes de agroquímicos se mostram muito preocupados com
uma possível abertura de mercado no Mercosul seguindo regras de
registro de cada país da região. É um risco sério
para o Brasil, pois o sistema nacional de registro de agroquímicos
é rigoroso, custoso e demorado. Nos outros países da região,
com agricultura e meio ambiente menos complexos, as regras são
mais simples. “Um sistema de livre comercialização
provocaria uma inundação de registros vindos de todo o mundo
e entrando no Brasil pelo Mercosul”, avisa Guedes. Além disso,
os critérios de regra de origem, que definem se um país
produz localmente ou não e, portanto, se pode aderir à chamada
tarifa zero, são de difícil fiscalização.
US$ 400 milhões em agroquímicos contrabandeados são
comercializados por ano no País, e a abertura poderia agravar a
situação.
No setor de fármacos (princípios ativos utilizados como
matérias-primas para a produção de medicamentos),
é a concorrência desigual e brutal com chineses e indianos
que preocupa. Em 1996, as importações de medicamentos somavam
US$ 604 milhões, e chegaram a US$ 1,39 bilhão em 2005. No
mesmo período, as importações dos intermediários
passaram de cerca de US$ 2,25 bilhões para US$ 2,73 bilhões,
mostrando que se formula cada vez menos no Brasil. A maior parte do mercado
interno é suprido por importações, pois os produtos
nacionais são onerados com a taxação de PIS e Cofins,
enquanto os concorrentes estrangeiros são isentos. Tal distorção,
segundo Guedes, impede concorrência isonômica nas compras
feitas por laboratórios oficiais em leilões eletrônicos.
“Não se conhece a procedência dos fármacos importados,
pois os laboratórios estrangeiros não são fiscalizados,
e a falta desse tratamento igualitário afeta profundamente a indústria
nacional, restrita a uma única empresa de maior importância”,
contesta o presidente da Abifina. E, como os remédios são
produtos de consumo, o desempenho do setor farmacêutico está
ligado à flutuação da renda da população,
cuja expectativa para 2006 também não entusiasma. “Pensava-se
que esse problema seria resolvido com a indústria dos medicamentos
genéricos, mas isso não ocorreu, pois houve um aumento da
concentração das empresas no setor”, avalia.
As compras governamentais, aliás, poderiam ser um dos alicerces
de uma guinada do setor. O tema é alvo de discussões com
o governo brasileiro, mas por enquanto o Estado não utiliza esse
instrumento de desenvolvimento tecnológico e industrial.
Na Índia, cujas vendas de medicamentos para o Brasil cresceram
quase 20 vezes, entre 1996 e 2005, algumas condições forjaram
o desenvolvimento da indústria, como o forte programa de formação
de químicos e engenheiros químicos, os custos mais baixos,
em particular os ligados aos impostos, alta capacidade de produção
e o investimento em tecnologia. No Brasil, entretanto, há políticas
de controle de preços e margens, e todas as empresas são
obrigadas a adotar boas práticas de produção, fato
pouco comum nos concorrentes asiáticos. “Apenas 5% a 10%
das empresas indianas e chinesas estão aptas à exportar
para os EUA, pois os produtos nem sempre atendem às legislações
de países com regulamentação forte. Mas o Brasil
é um país não-regulamentado”, afirma Guedes.
O marasmo do setor de química fina brasileiro se reflete nos seus
investimentos. Nenhum anúncio de grande vulto é esperado
para 2006, e os aportes deverão refletir apenas um crescimento
vegetativo, para garantir a manutenção das empresas no mercado.
O faturamento do setor deve seguir a mesma tendência, enquanto o
déficit comercial, em torno de US$ 2,5 bilhões a US$ 3 bilhões,
é grande e deve aumentar. Embora o crescimento do Brasil não
seja vigoroso a ponto de justificar grandes aumentos de importações,
o câmbio segue estimulando as compras no exterior e a substituição
da produção local pela estrangeira.
Um dos segmentos da indústria nacional com grande potencial de
desenvolvimento é o de fitoterápicos. Mas como disse o presidente
da Abifina, há tantas regras para atender à pesquisa da
biodiversidade nacional que há casos de estudos paralisados. O
investimento no setor é muito baixo se comparado ao potencial do
Brasil, e, para piorar, grupos estrangeiros conseguem burlar as autoridades
do País e se apropriam dessa riqueza. “Mesmo com o avanço
nos transgênicos, ainda há muitas condutas emocionais e pouco
racionais nessa área. A obtenção de uma licença
ambiental é demorada, faltam técnicos para as análises
e há insegurança do governo para expedir documentos de autorização”,
diz Guedes.
Um aceno positivo para a química fina pode vir da Lei de Inovação
Tecnológica, de dezembro de 2005, que cria incentivos fiscais para
fomentar o desenvolvimento tecnológico. Para o presidente da Abifina,
a definição de recursos e sua disponibilidade para o setor
privado é positiva, embora ele ressalte a necessidade de regulamentação
da lei – processo que pode se estender ad aeternum no Brasil.
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