PERSPECTIVAS 2006

AMBIENTE

Eleições motivam
obras em saneamento

Ano eleitoral favorece obras
públicas e demanda na
indústria anima fornecedores

MARCELO FURTADO

os fornecedores de produtos e serviços ligados à gestão ambiental esperam um ano de retomada, em alguns aspectos mais deprimidos do setor como o saneamento básico, e de crescimento e modernização, quando o enfoque passa a ser os negócios com a indústria. No primeiro caso, não é coincidência o fato de 2006 ser um ano eleitoral, o que historicamente desperta o ímpeto empreendedor do Poder Executivo. No segundo, a motivação tem a ver com a crescente competitividade de setores industriais de base, como o de siderurgia, de petróleo e de papel e celulose, e também da chamada indústria de transformação, caso da alimentícia, de cosméticos e até das montadoras de carros, que passam por um bom momento.

Cuca Jorge Esse cenário futuro é compartilhado pela visão de Gilson Cassini, o presidente do Sindicato Nacional de Equipamentos para Saneamento Básico e Ambiental (Sindesam). Apesar de passar por um dos períodos mais críticos da história dessa indústria, que compreende toda a “Era Lula”, a partir da qual as obras em saneamento rarearam, Cassini já percebe no início de 2006 a retomada de alguns projetos parados por falta de liberação de verba pública.
Cassini: "Era Lula" foi a pior para o saneamento

 Se sua impressão se confirmar ao longo do ano, o dirigente promete até esquecer o fato de que sua previsão para 2005 não se concretizou. “O governo fez um grande estardalhaço na mídia, falando que seriam injetados R$ 6 bilhões em saneamento no ano passado. Nós acreditamos e até hoje estamos esperando essas obras”, lamenta Cassini, também sócio-diretor de uma importante empresa nacional de equipamentos e sistemas para água e efluentes, a Aquamec.

Para ser mais exato, o dirigente apresenta alguns números oficiais para ilustrar o descaso com o saneamento básico, ainda longe da universalização. Nos últimos três anos, foram compromissados, de recursos federais do FAT e principalmente do FGTS, R$ 6,1 bilhões. Desse montante, porém, efetivamente pagos, foram apenas R$ 2,2 bilhões. A diferença entre o disponível e o desembolsado é pior ainda ao se tomar conhecimento que nem mesmo os R$ 6,1 bilhões, na opinião de Cassini, seriam suficientes para manter em operação a indústria nacional de equipamentos de saneamento. Um estudo do IBGE, por sinal, alerta que o Brasil precisa de no mínimo R$ 10 bilhões por ano para universalizar os serviços de água e esgoto em dez anos.

Mas os interesses eleitoreiros podem fazer 2006 ajudar um pouco o setor a sair do fundo do poço. Seria aí, segundo Cassini, não uma efetiva liberação de verbas, mas apenas a retomada daquilo que foi prometido e não pago. “Eles estão acelerando os mecanismos de financiamento e acredito que pelo menos R$ 500 milhões nos próximos dois a três meses devem estar sendo empenhados em algumas obras”, diz. Até o final do ano, segundo as mesmas expectativas, um total de R$ 2,2 bilhões pode fazer algumas obras serem continuadas. É pouco ainda, mas pode minimizar os efeitos deletérios que as cerca de 80 associadas do Sindesam vêm sofrendo. Em 2005, por exemplo, houve perda de mais de 10% dos 10 mil postos de trabalho.

Outra expectativa do Sindesam diz respeito às chamadas parcerias público-privadas (PPPs). Depois de muita discussão, finalmente elas começam a se tornar realidade. Já há exemplos delas na Bahia, onde o governo local, por meio de sua companhia de saneamento (Embasa), abriu concorrência nessa modalidade de empreendimento para construir um segundo emissário submarino para tratar o esgoto de Salvador. E também em São Paulo, onde a Sabesp avalia a ampliação da ETA Taiaçupeba, em Suzano-SP. “Esses devem ser apenas os primeiros projetos de muitas PPPs que devem surgir”, diz Cassini. Conta a favor dessa tendência o fato de muitos Estados terem regulamentado essas parcerias.

Foco no privado – Se há motivos para alimentar um pouco de otimismo com obras públicas, sobretudo com a entrada em vigor das PPPs, da mesma forma sempre esses negócios ficarão sob suspeita. Não só porque são notórias as ingerências políticas na área e a existência de muitos maus pagadores. Mas a falta ainda de um marco regulatório do saneamento, que está em tramitação no Congresso há cerca de cinco anos, também espanta os investimentos na área, que poderiam vir em fartura do Exterior, segundo opinião de Gilson Cassini. Sanado esse último gargalo, para o presidente do Sindesam, a previsão é de um futuro a longo prazo bastante promissor. “Quando as regras estiverem claras, vão chover obras em saneamento no Brasil, tamanho o déficit que existe por aqui”, diz.

Enquanto esse futuro promisso não vem, o melhor é se concentrar na indústria. De acordo com Gilson Cassini, em uma espécie de consenso entre seus associados, em 2006 haverá muitas obras para colocar em prática um projeto de reúso de água nas refinarias da Petrobrás (ver QD-444, pág. 23), além de reformas de ETAs na mesma estatal. Outros setores com indicação de bons projetos e disposição para investir são os siderúrgicos e de papel e celulose. O enfoque na iniciativa privada, aliás, se retrata também na estratégia da empresa dirigida pelo presidente do Sindesam. “Queremos crescer na indústria”, diz. Tradicional em obras públicas e na indústria de base, ultimamente a Aquamec tem fechado bons fornecimentos de estações de tratamento de efluentes para a indústria alimentícia, por exemplo.

Depender mais do setor industrial facilita também a modernização das ofertas de serviços das empresas especializadas. As indústrias, como demonstra a própria Petrobrás ao se empenhar no reúso de água, por serem mais profissionalizadas normalmente são mais receptivas a novas demandas. Um exemplo recente dessa tendência acontece com a Kurita, de origem japonesa, tradicional fornecedora de tratamento químico de água com filial em São Paulo. Como perspectiva para este ano no Brasil, depois de ter registrado o melhor resultado entre suas 15 subsidiárias no mundo, a empresa anuncia que vai entrar para valer na área de equipamentos.

“Recebemos o sinal verde do Japão, que passou a olhar o Brasil como mercado prioritário”, explicou o superintendente da Kurita, José Aguiar Jr.A entrada em equipamentos, além de refletir uma tendência de oferecer soluções globais para tratamento de água na indústria, significa também que o plano de crescimento no Brasil não pode mais ser orgânico, como foi até agora. A tradução dessa análise é que a Kurita pretende adquirir alguma empresa nacional da área de projetos de sistemas e equipamentos. Cuca Jorge
Aguiar : quer adquirir empresa para crescer mais em 2006

 

 “A adquirida precisaria ter vocação para prestadora de serviço, como a Kurita, e não uma simples vendedora de equipamentos”, explica.Grupo com faturamento global de US$ 1,5 bilhão, e com portfólio de equipamentos no Japão, a Kurita estaria disposta a adquirir uma empresa também que fosse ativa em setores ainda não muito atendidos por ela no Brasil, como o de papel e celulose.A estratégia da Kurita, segundo Aguiar, reflete também uma peculiaridade do mercado brasileiro de água, com estrutura de fornecedores bem consolidada. “Não dá para crescer nesse ramo sem tomar mercado de concorrentes”, explica. E é nesse cenário que a Kurita espera crescer mais 20% em 2006, depois de ter alavancado os negócios em 18% em 2005.

 

 
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