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PERSPECTIVAS
2006
ÁLCOOL
Cana brasileira
segue crescendo
Expansão
de uso do
etanol como combustível
sustenta expectativas boas
MÁRCIO
AZEVEDO
É cedo para prever o sucesso ou fracasso da safra 2006/2007 de
cana-de-açúcar brasileira. A última, 2005/2006, nem
bem terminou, pois a cana produzida no nordeste do País ainda está
sendo moída, mas se acredita que o Brasil poderá produzir
mais que os cerca de 15,5 bilhões de litros de álcool inicialmente
esperados. As expectativas são boas. Para Alfred Szwarc, assessor
da presidência da Agroindústria Canavieira de São
Paulo (Unica), a produção de álcool da próxima
safra poderá superar os 16 bilhões de litros por contar
com novas plantações, antecipação da safra
e a instalação de novas usinas de processamento de cana.
Embora a produção de álcool seja casada com a de
açúcar (nos últimos anos o mix de produção
tem sido de 51% de álcool e 49% de açúcar), é
o primeiro quem angaria maiores esperanças de crescimento nos próximos
dez anos pela possibilidade de expansão do uso como combustível.
O açúcar deve manter crescimento apenas vegetativo nesse
período. O Brasil consome ao redor de 800 mil m3 da sua produção
de álcool em aplicações industriais, exporta 2,5
milhões de m3 e consome o restante como combustível. Do
total exportado, a maior parte, entre 60% e 70%, se destina a fins industriais.
Em 2004, Estados Unidos, Índia, Japão e Suécia foram
os principais destinos das exportações do País.
É sobre o Japão, aliás, que recaem algumas das maiores
expectativas de crescimento do consumo de álcool combustível
nos próximos anos. O país asiático é um velho
cliente da agroindústria canavieira brasileira, mas o consumo principalmente
em uso industrial e humano. Conforme disse Szwarc, da Unica, o uso de
etanol no mercado japonês de combustível automobilístico
ainda está em discussão, e há duas correntes majoritárias
debatendo o assunto. Uma, que seria a mais vantajosa para os produtores
brasileiros, preconiza o emprego de álcool anidro adicionado à
gasolina (existe lei prevendo mistura máxima de 3% em volume).
Um processo de desoneração fiscal para favorecer esse uso
está nos seus primeiros passos. A outra corrente, que interessa
mais aos fornecedores da cadeia petroquímica, prega o uso de etanol
para a produção de EBTE (etil terc-butil éter), um
aditivo oxigenado que aumenta a octanagem da gasolina. A produção
de EBTE consome etanol (40%) e isobutileno (60%). A decisão do
governo japonês ainda não foi tomada, mas Szwarc acredita
que batido o martelo o mercado japonês de álcool com fins
energéticos decola em 2008 ou 2009. Outros países também
investigam a adição de álcool à gasolina,
com a vantagem de possuírem processos decisórios mais rápidos.
É o caso de Coréia e Taiwan, onde o teor de mistura proposto
é de 10%. No Brasil, os motores dos automóveis são
calibrados para receber mistura de combustível com até 22%
de álcool. Em outros países, os motores são construídos
para consumir gasolina pura, e o uso de teores elevados de etanol provocaria
diversos problemas, como falha do motor e dificuldade de partida a frio.
Por esse motivo, o aumento de consumo de álcool é gradual
e depende de análises criteriosas para não construir um
marketing negativo, como aconteceu na Austrália, embora muitos
fabricantes produzam motores capazes de processar misturas com até
20% de álcool, mesmo sem tornar público o fato.
Na Europa, as perspectivas para o álcool são menos otimistas.
As sobretaxas para importação de álcool são
elevadas, e o continente experimenta aumento da frota movida a diesel
– entre 60% e 70% dos novos veículos vendidos consomem esse
combustível. Além disso, a proteção comercial
aos agricultores europeus é intensa, e não há previsão
de aumento significativo do consumo de álcool no continente a curto
prazo. Desse modo, é o próprio mercado interno do Brasil
o grande motor da produção brasileira. Nas contas de Szwarc,
o País deverá produzir cerca de 27 bilhões de litros
de álcool na safra 2010/2011, dos quais 22 bilhões seriam
consumidos no mercado interno. Esse fato permite concluir que o mercado
interno não corre o risco de desabastecimento ou escalada de preços
do álcool, como ocorreu no auge do incentivo à produção
de carros movidos a álcool. As recentes reclamações
em relação ao preço do combustível, segundo
o assessor da presidência da Unica, acontecem regularmente em toda
entressafra. Desde meados dos anos 90 o setor opera em regime de livre
mercado, e nos últimos cinco anos, em todas as entressafras os
preços subiram, e tornaram a cair próximo a abril e maio,
quando entra a nova safra.
Em 2005, porém, o patamar de subida foi mais alto, devido aos estoques
de entressafra muito justos, à explosão das vendas de automóveis
bicombustível, e ao aumento das conversões clandestinas
de motores a gasolina, que resultaram em consumo maior que o previsto.
Uma certa pressão de consumo, devido ao baixo preço em particular
em São Paulo, também contribuiu para esse quadro.
Os estoques de passagem justos provocaram a antecipação da safra
2006/2007.
| Divulgação |
A safra de cana-de-açúcar dura em média
de 180 a 220 dias e, como o produto precisa ser fornecido durante todo
o ano, há pesados custos de estocagem. Segundo Szwarc, há
necessidade de uma sistemática de estocagem para a diminuição dos
preços na entressafra, sem a qual a volatilidade da entressafra não
será reduzida. Nesse processo, cabe um papel importante ao governo,
que seria o responsável pela construção do planejamento dos estoques
de passagem e o financiamento da infra-estrutura de estocagem
necessária.“É preciso definir uma política.
Enquanto o mercado na entressafra for spot haverá processos que
incluam alguma especulação”, diz Szwarc. |
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| Szwarc:alta
dos preços é normal |
Esses estoques
não contam com subsídios desde os anos 90.Mesmo com a chiadeira dos consumidores na entressafra, 2006 promete ser
um bom ano, com possibilidade de crescimento do consumo de etanol ao redor
de 5%. As vendas de carros bicombustível devem crescer, e setores
da economia, com influência em todo o conjunto, poderão ser
irrigados com algum dinheiro público. Sobre os veículos
flex, o assessor da presidência da Unica estima que 85% a 90% das
vendas de carros novos sejam compostas por carros capazes de processar
misturas.
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