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PERSPECTIVAS 2006
CLORO-SODA
Cenário mundial
estimula projetos
No
limite da capacidade
e enfrentando escassez,
indústria de cloro-soda
precisará investir em breve
MARCELO FURTADO
A indústria de cloro-soda
nacional deve continuar em 2006 praticamente da mesma forma como passou o
ano anterior: no limite de sua capacidade instalada e sob muita
especulação a respeito de possíveis projetos de expansão. Vai, dessa
forma, prolongar um pouco mais o período decisivo que atravessa, deixando
sob suspense o desenvolvimento a médio prazo de seus principais mercados
consumidores, as produções do policloreto de vinila (PVC) e de poliuretano
(PU), responsáveis por 75% do consumo do cloro, e alimentando dúvidas
sobre o aumento ou não do déficit da balança comercial da soda cáustica,
cuja alta demanda interna não é atendida pela estagnada produção nacional.
“Vivemos um grande ponto de
interrogação”, afirmou Martim Afonso Penna, diretor-executivo da
Associação Brasileira da Indústria de Álcalis, Cloro e Derivados (Abiclor).
A expressão utilizada pelo dirigente ilustra não só a grande
expectativa do setor com os possíveis e necessários breves anúncios de
investimentos (o com mais chance de ocorrer primeiro é o da
Carbocloro,
em Cubatão-SP, ver QD-432). Mas representa também dúvidas mais
preocupantes, que dizem respeito a gargalos estruturais do País. A
principal delas seria a de saber se haverá energia elétrica para
garantir a operação de novas unidades a longo prazo. “Não foi investido praticamente nada nos últimos anos e já há quem
sugira um novo Apagão em 2009”, alerta Afonso Penna.
| Para um setor eletrointensivo, que consome 3,02 kWh por tonelada de
produto (o que representou uma despesa total em 2003 para todo o setor de
R$ 285 milhões, constituindo-se no seu principal componente de custo
direto), a garantia de energia é fundamental. Basta lembrar, por exemplo,
que apenas a partir de 2004 o setor voltou ao patamar de produção anterior
à crise do Apagão de 2001. Em 2004, chegou à marca de 1,174 milhão de
toneladas de cloro e de 1,298 milhão de toneladas de soda, subindo,
respectivamente, em 2005, 4,5% e 3,3%, chegando a 1,226 milhão de
toneladas e 1,340 milhão de toneladas, diminuindo cada vez mais sua
ociosidade produtiva (ver tabelas). |
Cuca Jorge |
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| Penna:o único temor é não contar com energia
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Até 2007 – O grande motor dos investimentos na cadeia dessa indústria é
o cloro. Não adianta o consumo de soda crescer todo ano no Brasil e no
mundo, como ocorre na atualidade, que, sem ter aonde deslocar o cloro, os
investimentos não saem. E para isso acontecer os projetos devem ser
puxados pela produção dos maiores consumidores de cloro, as cadeias do PVC
e do poliuretano.
E é pela análise de desempenho desses dois mercados que o ambiente se
torna convidativo para as inversões futuras. Ambas as resinas sustentam há
algum tempo taxas médias de crescimento de 5% ao ano, com perspectivas
ainda melhores. O mercado de poliuretano se beneficia do aumento de renda
das camadas mais pobres da população, que vêm comprando mais colchões (com
espumas de PU) e geladeiras (com isolantes de PU), e o PVC, apesar de ter
tido um 2005 considerado fraco, conta com a retomada da construção civil,
prevista para este ano com uma série de medidas governamentais, para
vender mais da sua produção nacional nas mãos da Braskem e da Solvay.
| Cuca Jorge |
Segundo Luiz Pimentel, gerente de marketing para América Latina da Dow
Química, líder mundial e importante produtor nacional de cloro-soda
integrado à cadeia de poliuretano, as projeções estimuladas pelo PU e PVC
indicam que, dentro de três a cinco anos, a continuação da tendência em
alta dependerá de expansões da indústria de cloro-soda.
“Como os projetos
de novas unidades, incluindo todas as suas etapas de planejamento e
execução das obras, levam cerca de três anos, as definições dos produtores
locais precisariam sair provavelmente até 2007”, lembra Pimentel.
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| Pimentel: setor precisa se decidir até
2007 |
O contexto internacional também pesa muito a favor da expansão local.
Isso por um motivo simples: o custo recorde de energia no principal país
produtor do mundo, os Estados Unidos (leia-se aí o Golfo do México), tem
aumentado o preço das commodities e dificultado o seu comércio
internacional. Contando com o gás natural como matriz energética, os
produtores do Golfo, que também tiveram o infortúnio de terem sido
atingidos pelo furacão Katrina em agosto do ano passado, descontinuam
parte da produção e deixam aos poucos de ser os grandes exportadores de
dicloroetano (eteno mais cloro, o EDC, intermediário principal do PVC), de
intermediários de PU e de soda do mundo, passando a se concentrar mais no
mercado americano.
Aliás, essa nova realidade puxada pelos preços recordes do barril do
petróleo e conseqüentemente da energia americana desvia o eixo produtor
mundial. A China, e o Pacífico em geral, por exemplo, antes fortes
importadores do Golfo do México, aceleraram a nacionalização da
cloro-soda. Só para se ter uma idéia, apenas em 2005 a China expandiu sua
capacidade em 1,9 milhão de toneladas de soda cáustica (e cerca de 1,7
milhão de cloro). Isto é: os chineses em um ano fizeram mais do que a
indústria de cloro-soda brasileira levou mais de cinqüenta anos para fazer
e devem, em cinco anos, tornar-se os maiores produtores mundiais.
A crescente indisponibilidade da cloro-soda no mercado internacional
deve favorecer as expansões no Brasil. Com cadeias de PVC e de PU bem
consolidadas, estes produtores nacionais precisarão das matérias-primas
locais para manter o crescimento. Apesar de ainda contarem com uma folga
de segurança para atender o mercado interno, visto que exportam parte da
produção, o que pode ser reduzido, eles dificilmente terão à disposição um
futuro abundante de dicloroetano e das matérias-primas do PU (isocianatos
e polióis). A indústria petroquímica asiática, em crescimento avassalador,
deve consumi-los cativamente.
O cenário de escassez internacional e preço em alta, aliás, já é sentido
pelos consumidores de soda. O déficit nacional só não cresceu mais no
último ano justamente por essas causas. Além de provar a mudança no perfil
exportador do Golfo do México (de onde vem a maior parte das importações
da indústria nacional de papel e celulose e de alumínio), o panorama
incentivou a maior ocupação das fábricas de cloro-soda nacional, que
bateram recorde de nível de utilização em novembro de 2005, com 94%.
Desgargalamentos isolados, como o da Canexus, no Espírito Santo, que
aumentou sua produção em 13.600 toneladas, ajudaram também os consumidores
nacionais de soda cáustica.
A escassez de soda e a possibilidade de contar com mais do insumo no
mercado brasileiro reduziu as importações nacionais em 5,1%, passando de
553 mil toneladas de 2004 para 525 mil toneladas em 2005. Apesar de o
preço internacional da soda continuar em alta (no Golfo está a US$ 400/t),
o que em tese dificultaria a sua importação, alguns fatos podem correr
contra essa tendência. Isso porque há vários projetos de expansão próximos
de sair do papel da principal indústria importadora de soda, a de
alumínio, que responde por cerca de 55% das compras externas.
A Alcoa, em São Luís-MA, acrescentará 1,3 milhão de toneladas de alumina
à sua usina no início de 2007. A Alunorte passará da capacidade atual de
2,4 milhões de toneladas para 4,2 milhões de toneladas em 2007 e a
Companhia Vale do Rio Doce investe US$ 1 bilhão em usina de refino de
alumina no Pará, com início previsto também para o próximo ano e meta
inicial de chegar a 1,8 milhão de toneladas do produto. Ao se saber que
cada tonelada de alumina (matéria-prima para o alumínio) consome cerca de
85 kg de soda cáustica, não fica difícil imaginar que no futuro esse setor
vai penar um pouco para importar o escasso e caro insumo ou, na melhor das
hipóteses, vai se beneficiar da tão esperada (e cada vez mais necessária)
expansão da indústria nacional de cloro-soda.


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