Embora reconheça que seu preço ainda não é muito baixo, Greco já conseguiu vender no Brasil quatro instalações de MBR para reuso de efluentes: duas em indústria de alimentos, uma em petroquímica e outra em fábrica de bebidas. Junte-se a esses negócios outros da Zenon com a Natura (reuso de efluentes, para produção de 20 m3/h) e com a Petrobrás para pré-tratamento de osmose reversa (Reman, Revap e Reduc) e dá para se ter uma noção de que o mercado da ultrafiltração começa a se desenvolver. Aliás, se depender da estatal do petróleo, ele tende a crescer ainda mais, tendo em vista os estudos em escala piloto de unidades de MBR promovidos pelo Cenpes.

Projetos viáveis – A viabilidade econômica dos projetos de reuso, nessa fase inicial no Brasil, é fundamental. Sem nunca ter perdido a importância, levando-se em conta que nenhuma indústria costuma “jogar dinheiro no rio”, o custo da água de abastecimento na região sempre será comparado com o do reuso. E, em uma segunda análise, a opção tecnológica sempre se adequará à contabilidade do cliente. Isso significa, por exemplo, que dificilmente uma empresa decidirá por tecnologias como a de MBR pela simples razão de ter achado interessante. Se ela não se tornar “pagável”, principalmente no estágio ainda relativamente caro em que se encontra, com certeza os especialistas sérios em reuso não a oferecerão.

Há exemplos no Brasil de reuso que levaram em conta essas características mais realistas do mercado. A própria Centroprojekt, também fornecedora de sistemas MBR, conta como seu principal contrato de reuso de água um negócio com a Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), do Espírito Santo, feito com tecnologias convencionais. Trata-se de processo físico-químico, com floculação, decantação acelerada (módulos tubulares) e desinfecção com cloro. Com o projeto, a CST passará a recuperar 720 m3/h de efluentes anteriormente tratados e descartados em um canal que deságua no mar capixaba. A Centroprojekt represou o canal e construiu uma elevatória para encaminhar o efluente para a ETE. “A água tratada vai voltar para o processo produtivo do aço”, afirma Greco Junior. Estimada em R$ 20 milhões, a obra ficará pronta em março.

Outro caso marcante de reuso feito com parcimônia ocorreu na Rhodia Têxtil, em Santo André-SP. A cautela no projeto, provavelmente, tem a ver com o fato de se tratar de um dos primeiros do gênero no País, iniciado antes mesmo que o assunto se tornasse moda. Para ser mais exato, seu planejamento começou em 1989 e pôde ser desenvolvido de maneira criteriosa ao longo dos anos, culminando com o circuito fechado hoje atingido pela unidade produtora de fios de poliamida e de fibras de acetato de celulose da empresa de origem francesa.

Cuca Jorge “A decisão na época, quando a questão ambiental ainda engatinhava no país, foi puramente econômica”, afirma o gerente de utilidades da fábrica, Renato do Amaral Ferreira. 
Ferreira: água cara fez Rhodia fechar o circuito

O motivo é simples: a água da região é a mais cara do Brasil (cerca de R$ 15 por m3) e naquele período sinalizava para um agravamento de preço, o que por sinal fez muitas indústrias vizinhas migrarem para outras cidades e, em alguns casos, para outros Estados.

A primeira etapa foi deixar de captar água do rio Tamanduateí, transformando a estação de tratamento de água em uma de efluentes. Para isso, foram incluídos dois geradores de ozônio para desinfecção: um logo após a aeração do tanque biológico e antes de seguir para a coagulação e outro no final do tratamento. O primeiro provou conseguir, além da oxidação dos contaminantes, reduzir o consumo de hipoclorito e de cloreto férrico empregado para a coagulação. Essa fase foi finalizada em 1995, quando a Rhodia deixou de captar completamente água do rio, utilizando o efluente interno recuperado como make-up das torres de resfriamento. O tratamento foi melhorado mais para a frente também com a construção de nova lagoa de aeração em 1997.

Cuca Jorge

Faria: ganhos anuais de R$ 4,4 milhões

A partir daí a meta foi diminuir a compra de água da Semasa, a companhia municipal de saneamento de Santo André, em detrimento do maior uso da água de poços da unidade, para empregá-la principalmente na alimentação de caldeiras. Segundo o assistente técnico de utilidades, José Faria de Morais, com a substituição do sistema de troca iônica por uma unidade de osmose reversa a tarefa tornou-se possível. A proporção de uso da água da Semasa e de poços na época era de quatro para três. Com as mudanças paulatinas, toda a água de caldeiras hoje provém apenas dos poços situados a 200 metros de profundidade no site.

A grande conquista com o uso racional da água, que incluiu o uso de tecnologias com menor geração de efluentes, como por exemplo a osmose reversa, que não utiliza os regenerantes ácidos e alcalinos da troca iônica, foi também reduzir o consumo. Se em 1989, o consumo de água dos poços era de 110 m3/hora, hoje ele é de 60 m3/h. 
Ozônio ajudou a recuperar efluentes na Rhodia

Em efluentes, a geração foi zerada em 2005, com a finalização do reaproveitamento gerado nos refeitórios (o volume era de 118 m3/h em 1989). A água da Semasa, consumida em 120 m3/h naquele ano, passou para só 1 m3/h, totalizando um consumo de água fresca de 61 m3/h, contra 230 m3/h de 1989. A economia de água representou ganhos anuais de US$ 4,4 milhões, ante o investimento total do projeto de US$ 3 milhões (em tecnologias e redes novas e segregadas).

Como aprimoramento do projeto, a Rhodia pretende até o final de 2006 instalar uma unidade de ultrafiltração para polimento dos efluentes tratados, com vazão de 40 m3/h. A idéia é gerar uma água sem necessidade de dosagens extremas de biocidas e dispersantes no condicionamento para as torres de resfriamento. De acordo com Faria, devem ser investidos cerca de R$ 500 mil para a aquisição do equipamento. Ao se concretizar essa etapa, a empresa praticamente esgota o caminho do reuso, servindo como bom parâmetro para os interessados em entrar nessa nova fase do gerenciamento da água.

Petrobrás estuda tecnologias de reuso


Os fornecedores de sistemas para reuso de água industrial estão em polvorosa. Não só porque as expectativas gerais são as melhores possíveis, com o aumento do custo da água liderando as causas para a nova demanda. Mas sim porque há uma iniciativa específica com potencial de provocar grande número de negócios no País: a Petrobrás, por meio do seu centro de pesquisas, o Cenpes, com sede na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, avalia uma série de tecnologias de reuso de efluentes com o propósito de indicá-las a suas 11 refinarias.

O objetivo do estudo é saber quais técnicas podem ser empregadas para produzir uma água condicionada para uso em suas torres de resfriamento, de longe a parte do processo com maior necessidade do recurso, e também para outras aplicações, até mesmo na geração de vapor. Em uma primeira fase do projeto, os técnicos do Cenpes participaram de missões internacionais para conhecer melhor as diversas modalidades de reuso que existem. Após isso, e escolhidas as primeiras técnicas a serem avaliadas, foram montadas unidades piloto na Refinaria Gabriel Passos (Regap), em Betim-MG.

Na Regap são avaliados, por exemplo, processos de clarificação avançada e de filtragem especial. Passam por teste também filtros de carvão ativado, unidades de membranas de osmose reversa e de eletrodiálise reversa (para remoção de cloretos) e as de micro e ultrafiltração e sistemas de membrane bio-reactor (MBR) (para remoção de sólidos suspensos, colóides, bactérias e vírus) . 

As tecnologias de membranas de ultrafiltração, em geral, são empregadas pela Petrobrás como pré-tratamento de osmose reversa para desmineralização de água.

As experiências nas unidades piloto começaram a gerar os primeiros resultados e algumas delas já são recomendadas as refinarias. Segundo a coordenadora da pesquisa, a engenheira Vânia Santiago, as tecnologias de membrana, incluindo a eletrodiálise reversa, a osmose reversa e o MBR tiveram eficiência comprovada e vão começar a ser implementadas para projetos de reuso. Como precisam de pré-tratamentos mais severos, para não afetar as membranas serão indicados também filtros de cascas de nozes, para remover óleos residuais, e filtros de carvão ativado, para combater compostos orgânicos não-biodegradáveis.

Como a proporção de consumo de água e refino de petróleo é de 1:1, a Petrobrás está levando a sério o trabalho técnico do Cenpes e elegeu a economia máxima de água como prioritária em seu plano bilionário de investimentos de ampliação do refino. As primeiras refinarias a receber esses investimentos em reuso serão a Revap, de São José dos Campos-SP, e a Repar, de Araucária-PR. Ambas instalarão filtros de cascas de nozes, unidades de MBR, de microfiltração, filtro de carvão ativado e módulos de osmose reversa, todos visando recuperar efluentes para ampliar as refinarias sem aumentar o consumo de água via captação em corpos de água. Na Regap, será construída uma unidade protótipo de eletrodiálise reversa (ver QD-398, pág. 44, outubro de 2001) para reaproveitamento de água em sistemas de resfriamento.

 

Empresa carioca vende o B.O.M.

Uma nova tendência no mercado de reuso de água industrial começa a surgir no Brasil. Trata-se da modalidade B.O.M. (build, operate and maintain), ou seja, uma oferta de terceirização de operações em que o prestador de serviços financia, projeta, constrói, opera e se responsabiliza pela manutenção de uma estação de tratamento de efluentes e/ou de reuso.

Divulgação

A empresa que identificou a demanda e passou a vender o B.O.M. no mercado foi a EcoAqua, do Rio de Janeiro, uma sociedade entre o grupo Monteiro Aranha e a holding Brasil Saneamento (do grupo português SGC e do brasileiro Victory).

De acordo com o presidente da EcoAqua, Vlamir Paes, trata-se de uma evolução das ofertas de B.O.T. (build, operate and transfer), que a empresa vinha executando, com sucesso nos últimos anos, em cerca de 13 clientes (dois deles em projetos de reuso).

Paes: clientes não querem transferência

“Os clientes passaram a ficar tão satisfeitos com a terceirização que não só começaram a renovar os BOTs como passaram a manifestar o interesse de não optar pela transferência das estações ao final dos contratos”, explica. Daí para chegar à conclusão de que o melhor seria mudar o foco da empresa para o BOM foi um pulo. “No escopo da terceirização, em que o cliente passa a se concentrar na sua produção e deixa as utilidades nas mãos dos especialistas, não tem porque a empresa desejar reassumir a estação depois de alguns anos”, completa o presidente da EcoAqua.

A percepção do executivo, transformada em estratégia comercial a partir do início de 2004, foi obtida com a experiência nos primeiros clientes da empresa. Nas unidades de produção de vidro da Owens-Illinois em São Paulo e no Rio de Janeiro, onde a empresa possui contratos de BOT que englobaram construção e operação de estações de tratamento de efluentes e de reuso, houve duas prorrogações dos contratos. Também na produtora têxtil Lancaster, de Blumenau-SC, a prorrogação fez o contrato inical de cinco anos de BOT passar para dez anos. “E a tendência é eles não optarem pela transferência”, diz.

Os clientes em prospecção também já começam a demonstrar interesse pela nova modalidade de contrato. Segundo Vlamir Paes, duas siderúrgicas em negociação para implantar projetos de reuso pretendem terceirizar o serviço sem a intenção de transferência dos ativos. “Eles querem que a gente assuma tudo”, diz. Aliás, pelos contratos assinados, até mesmo possíveis multas e outras obrigações ligadas à operação são riscos assumidos pelo ofertante.

O propósito da EcoAqua, com os serviços voltados aos principais setores industriais (inclusive a petroquímica, mercado que a empresa já atua, em BOT de quinze anos fechado com a Nitriflex, de Duque de Caxias-RJ), é financiar, com capital próprio, cerca de R$ 100 milhões nos próximos dois anos. Para atingir a meta, Paes confia na profusão dos projetos de reuso. Não só porque o mercado de água industrial é estimado em pesquisa interna da EcoAqua em cerca de R$ 12 bilhões, mas também, e principalmente, porque as economias conseguidas pelos clientes são incontestáveis. “Com a experiência dos primeiros projetos, podemos afirmar que o custo da água cai, no mínimo, pela metade”, finaliza o executivo.


 

 
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