Substâncias agressivas prejudicam inovações

Domingos Zaporali

As empresas que atuam no mercado brasileiro de biocidas equilibram seus negócios sobre duas certezas, uma positiva e outra não, e uma grande incógnita. O fato positivo é que o mercado consumidor de seus produtos cresce a um ritmo superior ao da evolução do PIB industrial. O negativo é que, mesmo assim, as margens de lucro estão significativamente reprimidas, colocando em questionamento a manutenção de algumas operações.

A grande incógnita está em saber quando as autoridades do País e os consumidores industriais vão se atentar para a questão da segurança do homem e do meio ambiente e banir substâncias prejudiciais à saúde pública, a exemplo dos Estados Unidos, Europa e Japão.

A substituição de substâncias agressivas é aguardada como um acontecimento com o poder de mudar o perfil do setor, dinamizando significativamente as vendas, aumentando a escala de diversas substâncias que hoje apresentam uma tímida presença no mercado nacional e, assim, permitir melhor margem de lucro para as empresas a elas relacionadas. “Seria um forte impulso nos negócios das empresas que trabalham com produtos não agressivos e uma segurança a mais para a saúde pública”, diz Roberto Griebel, gerente de vendas de biocidas para a América Latina da Lanxess, empresa surgida em julho de 2004 após um desmembramento dos negócios da Bayer.

É fácil entender porque a proibição de substâncias agressivas gera tanta expectativa entre os fabricantes de biocidas. Apesar de não haver um número oficial sobre o mercado brasileiro, três fabricantes aceitaram fazer uma estimativa do faturamento do setor. As vendas nacionais de biocidas não agressivos, segundo esses cálculos, somariam hoje algo entre 80 e 100 milhões de dólares anuais. Poderia dobrar se fosse proibida a comercialização das substâncias que já se encontram fora de uso nos países desenvolvidos.

A substância mais utilizada como conservante no Brasil é o formaldeído. Seu problema: é tido como cancerígeno. O formaldeído é utilizado numa gama diversa de produtos: de pastas dentais e cosméticos a produtos de limpeza e desinfetantes. A seu favor estão sua eficácia e custo baixo. Ele pode ser comprado por US$ 0,50 o quilo, enquanto seus concorrentes custam, no mínimo, três vezes mais.

Outras substâncias cuja aplicação é proibida em alguns países, mas liberadas no Brasil, são o pentaclorofenol, popularmente conhecido como pó da China, e o tribromofenol, biocidas com larga utilização pela indústria madeireira. Além destes, há ainda uma série de produtos cuja aplicação já vem sendo questionada nos países mais desenvolvidos. Como os parabenos, o algicida diuron, as carbendazinas e os liberadores de formol.

Os principais fabricantes de biocidas estão se preparando para uma nova realidade de mercado, se posicionando como fornecedores de produtos não agressivos. Afinal, por mais que demore essa tomada de consciência no País, a aposta geral é que, mais cedo ou mais tarde, ela ocorrerá.

Como expuseram os executivos do setor ouvidos para essa reportagem, os indícios dessa mudança são fortes. Primeiro em decorrência da regulamentação estrangeira. Hoje as empresas brasileiras estão com os olhos postos no mercado externo. E quem quer exportar deve atender as normas do mercado consumidor.

O segundo fator de pressão está em indústrias, principalmente multinacionais, que estão adotando como norma banir o uso de substâncias nocivas de seus produtos, independente da regulamentação local. Além de ser uma atitude socialmente correta, a ação é uma boa oportunidade de marketing.
O terceiro fator é que os órgãos regulatórios brasileiros costumam, mesmo com uma certa lentidão, acompanhar as decisões de seus similares internacionais.

O quarto é que várias substâncias são sintetizadas no exterior e importadas por formuladores brasileiros. Na Europa, por exemplo, essa produção e comercialização depende da aprovação das autoridades locais, que exigem testes toxicológicos, que chegam a custar até 1 milhão de dólares. A tendência é a descontinuação da produção das substâncias mais suscetíveis a questionamentos.

Afinal, quem vai investir em testes de um produto que pode ser condenado.

Cuca Jorge

Linha de produção da isotiazolionas da Ipel no interior São Paulo

“A substituição de substâncias nocivas é uma tendência irreversível. Hoje as questões da ética e da responsabilidade ambiental são preceitos cada vez mais adotados como norma no mercado mundial”, diz Sebastian Canto, gerente de negócios de biocidas da americana Arch, empresa que tornou-se líder mundial de biocidas após adquirir, no final de 2004, os negócios da Avecia (ex-ICI) no setor.

 

 
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