Logística

Ensaios certificam embalagem química

Até o final de outubro será publicada a primeira Regulamentação de Avaliação de Conformidade (RAC) para embalagens de produtos perigosos, elaborada pelo Instituto Nacional de Metrologia e Controle da Qualidade (Inmetro).

Essa regulamentação é o último passo para que se tornem exigíveis os padrões recomendados pela Organização das Nações Unidas (ONU) nesse tema, com reflexos diretos no transporte de produtos químicos no País.

Paulo Igarashi

Técnico conduz teste de resistência hidráulica em embalagens

O Modelo de Regulamentação – Recomendações para o Transporte de Produtos Perigosos, mais conhecido pelo apelido de Orange Book, da ONU, estabelece bases para a normatização do setor, devendo ser adotadas por todos os países signatários, como o Brasil. No entanto, o sistema internacional permite que cada país adapte as recomendações às suas características próprias.

No caso brasileiro, o Ministério dos Transportes já havia editado a Portaria 204 em 1997, exigindo testes de resistência para embalagens dessa categoria, porém sem a previsão do regulamento dos ensaios, atribuição específica do Inmetro. Em fevereiro de 2004, a Agência Nacional dos Transportes Terrestres (ANTT), do mesmo ministério, editou a Portaria 420, revisada em agosto pela Resolução 701, dando prazo até junho de 2005 para que o uso de embalagens aprovadas se tornasse obrigatório, agora prevendo a participação do Inmetro.

“Não dá nem para reclamar que não houve prazo para adaptação, pois a exigência começou em 1997”, disse Sérgio Couto, diretor da Concepta D.G. Compliance, empresa nacional especializada em embalagens para produtos perigosos.

Paulo Igarashi

Sérgio: setor de tintas sentiu o impacto das normas

Ele elogia a disposição da ANTT em dialogar com todos os interessados, no modelo de consultas públicas, para elaborar e aperfeiçoar as normas. Ao mesmo tempo, ele avisa que as Polícias Rodoviárias Estaduais e Federal e a Polícia Militar na região metropolitana de São Paulo já qualificaram agentes para a fiscalização, que só não é mais rigorosa pela falta de normas de ensaio, que está sendo suprida.

Nos modais de transporte marítimo e aeronáutico, as normas da ONU são aplicadas usualmente, sendo os ensaios das embalagens conduzidos sob supervisão e acompanhamento de equipes das armas, que concedem certificados. Segundo Couto, as empresas exportadoras já conhecem essas normas e as respeitam, porém no transporte terrestre doméstico ainda há problemas.

Do ponto de vista externo, as embalagens aprovadas ostentam marcação com códigos da ONU que identificam sua resistência e indicação de uso. Essa marcação deve ser estampada, no caso dos tambores, na tampa ou na lateral, podendo ser também impressa com destaque em local mais visível para facilitar a inspeção. A parte complicada consiste na homologação da embalagem. “Não basta pegar as amostras e colocá-las nos ensaios previstos, é preciso também auditar a linha de produção para ver se a qualidade se repete”, comentou Couto, profissional com 23 anos de experiência no ramo, treze dos quais com produtos perigosos, inclusive infectantes. Isso se faz para evitar que os pretendentes levem para ensaios algumas “superamostras”, capazes de passar nos testes, sem espelhar as características dos produtos que serão colocados no mercado.

A Concepta já conta com laboratório acreditado pela Inmetro para ensaios de embalagens e está se preparando para conseguir a acreditação junto ao órgão para tornar-se também certificadora, auditando as linhas de fabricação. “Investimos R$ 500 mil de capital próprio nos últimos dois anos para qualificar o laboratório”, informou. Instalada na Moóca, em São Paulo, a empresa pode ensaiar embalagens de qualquer material, em baterias desde as mais simples verificações de resistência a quedas (em vários ângulos), até testes de longa duração, como os realizados com o empilhamento de contenedores plásticos.

As normas exigem ensaios nas condições mais críticas. Antes de testar a resistência à queda de embalagens plásticas, por exemplo, é preciso que elas estejam na temperatura de -18ºC, na qual o stress é maior. “Alguns fabricantes jogam a embalagem cheia de água no chão e acham que ela passa no teste, mas quando isso é feito na temperatura da norma ela muitas vezes arrebenta”, disse.

Para isso, a Concepta conta com câmara fria adequada ao condicionamento desses materiais.

Paulo Igarashi

José: testes devem ser felizes nas condições mais críticas

 

Por outro lado, o empilhamento de embalagens plásticas também é simulado sempre a 40ºC, no mínimo, por prazo de 28 dias. O efeito combinado do peso e da temperatura pode levar à deformação dos materiais, quando inadequados. “Essas condições não são absurdas, elas realmente podem ser encontradas em porões de navios ou em pátios de manobras de vários lugares do mundo”, explicou José Couto, também diretor da Concepta.

Na opinião dos especialistas, os fabricantes de embalagens e a indústria de resinas termoplásticas devem ficar atentos às normas de ensaios para evitar problemas. “Já vimos diferenças gritantes de desempenho de embalagens feitas com lotes diferentes das mesmas resinas”, alertou Sérgio Couto. A indicação de contratipos dos grades aprovados das resinas deve ser feita com muita cautela. Aliás, a empresa também faz ensaios com tanques de combustível feitos de plástico.

Segundo José Couto, o custo dos ensaios variem conforme o tipo de produto e a necessidade dos clientes. Muitas vezes são feitos pré-ensaios para verificar o comportamento de um artigo ainda fase de desenvolvimento. “Em média, uma bateria de ensaios para embalagens simples custa R$ 3 mil, enquanto as combinadas ficam por volta de R$ 2,5 mil”, informou. Embalagem combinada é a que usa dois ou mais tipos de envoltório para acondicionar o produto. Por exemplo, bombonas de plásticos colocadas dentro de caixas de papelão formam uma embalagem combinada. A bombona isolada é uma embalagem simples.

Uma divisão da Concepta monta embalagens combinadas para clientes interessados em atender aos requisitos rigorosos de transporte, enquanto outra área da empresa forma especialistas em embalagem e transporte dentro das normas internacionais de aviação e navais.

Os diretores da empresa esperam que a regulamentação do Inmetro traga benefícios para todos os segmentos da cadeia produtiva. Atualmente, cada modal conta com seus procedimentos de homologação específicos. “Isso implica obter uma certificação para cada modal de transporte, colocando na embalagem as marcações com os códigos correspondentes, embora os ensaios sejam os mesmos”, disse. Sendo norma oficial de âmbito nacional, a homologação e certificação pelo Inmetro tende a se fixar como única no mercado.

Tintas exemplares – O setor de tintas foi o primeiro a perceber o tamanho do problema que se avizinha. A Portaria 420 colocou o setor em polvorosa, pois essa indústria usa embalagens de tamanhos muito variados, desde o quarto de galão até carros-tanque. “A norma tem redação um pouco obscura em alguns pontos, que deram margem para discussões”, explicou Sérgio.

Os fabricantes Basf e Tintas Coral (ICI Paints) pediram à Concepta uma análise detalhada dos efeitos da normalização no setor. Foram convidadas e aderiram ao estudo os dois maiores fabricantes de embalagens metálicas para tintas, Brasilata e Prada. “Uma análise cuidadosa da norma, confirmada com a ANTT, mostrou que embalagens combinadas de recipientes plásticos ou metálicos até 5 litros agrupados com filme plástico encolhível ou acondicionadas em caixas de papelão dispensam homologação prévia, desde que respeitem limite máximo de 40 kg por unidade”, comentou Sérgio. “Esses recipientes formando pilhas paletizadas não ficam sujeitos a esse limite.”

Portanto, a maioria dos esmaltes e grande parte das tinta base água para o consumidor final já está dentro das normas de transporte. O problema ficou restrito às embalagens maiores, a começar pelas latas até 20 litros, as mais usadas para látex, por exemplo, bem como os baldes usados na indústria automobilística. Com base nesses estudos, o Sindicato das Indústrias de Tintas e Vernizes do Estado de São Paulo (Sitivesp) e o Sindicato da Indústria de Estamparia de Metais do Estado de São Paulo protocolaram no dia 10 de junho um pedido junto à ANTT para estender às latas e baldes metálicos ou plásticos até 20 litros o mesmo critério da categoria de menor volume. Já para as embalagens para mais de 20 e até 200 litros foi solicitada dilação de prazo de mais um ano para adequação. “Os pleitos ainda estão sendo avaliados pela agência”, comentou Sérgio Couto.

Toda a cadeia produtiva espera pelo acolhimento das reivindicações. Na categoria de 5 a 20 litros não existem latas disponíveis no mercado nacional que possam atender à demanda. Os fabricantes já apresentaram ao mercado produtos normatizados, já usados para transporte naval, porém precisariam investir entre US$ 7 milhões e US$ 8 milhões para montar uma só linha de produção capaz de atender a apenas um grande fabricante de tintas no Brasil.

Nos tambores de 200 litros, o especialista esclarece que apenas os modelos de tampas removíveis, indicados para produtos de alta viscosidade, encontram dificuldade para suportar os ensaios. “Os fabricantes desses tambores já estão se adaptando e devem apresentar novidades em poucos meses”, disse. No entanto, é preciso conceder um prazo para que sejam consumidas as embalagens em estoque junto aos clientes e resolver uma outra questão, ainda mais delicada: como lidar com as embalagens recuperadas.

M. Fairbanks

 
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