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EFLUENTES
Vinícola reduz consumo de
água e protege o ambiente
Para cada litro produzido, a indústria vinícola gera volume
igual de água residual, ou efluente. Na safra 2005 do Rio Grande
do Sul, principal região vinífera brasileira, foram fermentadas
587 milhões de toneladas de uva, convertidas em aproximadamente
451 milhões de litros da bebida e a mesma quantidade na forma de
lodos e outros resíduos líquidos, mais 410 milhões
de t de rejeitos sólidos.
Embora todas as empresas sejam obrigadas a cumprir a legislação,
a Vinhos Salton investe desde 1998 na construção da primeira
fábrica cujo projeto teve como ponto de partida o aspecto ambiental.
| Dos R$ 30 milhões imobilizados
pela empresa, R$ 1,5 milhão dizem respeito a um criativo sistema
de reaproveitamento de sólidos, tratamento de lodo e de água
industrial, com capacidade para absorver até 400 mil litros
de água, no auge da atividade industrial, durante a safra compreendida
de janeiro a março. Em 2005, a Salton fermentou 13,7 milhões
de quilos da fruta. |
Fernando de Castro |
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| Salton: efluente bem tratado abastece geradores de vapor |
Localizada no distrito de Tuiuty, a dez quilômetros do centro de
Bento Gonçalves-RS, a nova fábrica, colocada em atividade
em 2002, conta com prédio de 30 mil m², com capacidade instalada
para produção de 17 milhões de litros/ano entre vinhos
tintos, brancos, espumantes e uma parcela menor de suco de uva integral,
processado sem conservantes e sem adição de água.
Como forma de dinamizar o processo de tratamento da matéria orgânica,
o piso de fábrica foi feito de porcelana e inclinação
de um grau, para facilitar escoamento dos dejetos para calhas de aço
inoxidável. Abaixo do piso há uma manta de fibra de vidro
como revestimento do encanamento em PVC azul para evitar a corrosão
pela ação ácida da uva fermentada. Tal providência
impede vazamentos e contaminações do solo abaixo do prédio.
“Os equipamentos utilizados e a tecnologia empregada na vinificação
buscam minimizar o impacto ambiental tanto dos resíduos sólidos
como do volume de água gerados”, explica o diretor-superintendente
da empresa, o engenheiro químico Antonio Salton. Segundo ele, todo
o projeto está focado no reaproveitamento do rejeito sólido
e da água. “São dois processos de grande geração
de sólidos, o escoamento do bagaço pós-esmagamento
da uva e a retirada do cabo do cacho, popularmente denominado engaço”.
| Os resíduos sólidos são
aproveitados de duas maneiras. O bagaço é convertido
em fertilizante ou nutriente para ração animal. O engaço
vai para baixo dos vinhedos e serve como proteção das
encostas contra a erosão. Para a adubação, um
agrônomo define a quantidade a ser colocada, pois no caso das
vinhas é importante não exagerar nos nutrientes: |
Fernando de Castro |
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| Parte final do processo e embalagem na fábrica de Tuiuty |
“A uva para vinhos finos não gosta muito de água,
nem de solo rico”, ensina Salton. A maioria dos sólidos gerada
na indústria vinícola pode ser aproveitada ainda nas destilarias
para produção de “cachaça” de uva, ou
graspa, ou nas indústrias farmacêutica, alimentícia,
como matéria-prima.
No entanto, a menina dos olhos de Salton é de fato o sistema de
separação do lodo e o reaproveitamento da água derivada
do efluente industrial para abastecer as caldeiras. O tratamento físico-químico
consiste na correção do pH, floculação e classificação,
na qual ocorre a remoção dos sólidos suspensos por
meio de produtos químicos. Após o tratamento primário,
os efluentes são tratados no reator biológico por meio do
sistema de lodo ativado com aeração prolongada.
O tempo de reação é alto e leva em torno de três
dias para a completa ação dos microorganismos. O polimento
final ocorre no sistema terciário, formado por tanques em série.
A sofisticação no sistema de tratamento da Salton ocorre
após a decantação primária e fica por conta
do Contipress – fusão tecnológica da prensa com a
centrífuga – um processo contínuo capaz de separar
mais uma vez os resíduos sólidos do líquido por sucção
a vácuo e compressão. “Foi o primeiro equipamento
a entrar em operação no Brasil, a um custo de R$ 110 mil.
Hoje não sai por menos de R$ 250 mil”, revela Salton.
O projeto ambiental da Salton deverá estar totalmente concluído
nos próximos dois anos, com a finalização do sistema
terciário. Quando estiver pronta, a ETA (estação
para tratamento de água) permitirá o reaproveitamento de
grandes volumes de água também para a lavagem do chão
e irrigação para jardim e pomares. Atualmente essas operações
usam água da chuva armazenada em cisternas com capacidade para
três milhões de litros.
A construção de cisternas para a captação
de água na nova fábrica também se justificou porque
a planta industrial tem uma enorme área de telhado. A água
é tratada com radiação ultravioleta e pode servir
à lavagem dos tanques de fermentação, elaboração
e armazenagem dos vinhos.
Experiência acumulada – De acordo com Antonio Salton sua
empresa foi muito visada com relação ao impacto ambiental
no passado, embora todos seus resíduos fossem devidamente tratados,
com dificuldade, em decorrência das condições de construção
da antiga fábrica, localizada no centro de Bento Gonçalves,
onde o espaço físico era inadequado para uma estação
de tratamento dentro dos parâmetros atuais.
A antiga sede da vinícola, um prédio de 100 anos, conta
Salton, serviu de escola para a montagem do novo conceito ambiental da
empresa. Ali foi possível produzir a radiografia do impacto ambiental
gerado numa linha de produção de vinho. “O que se
sabe é que quanto menos casca, melhor para tratar. O vinho tinto
é o produto mais complicado porque libera muita casca e corante
após a fermentação. O vinho branco é mais
simples porque é obtido sem casca e não tem cor”.
O caro piso de porcelana tem sua justificativa. O vinho ácido atacava
o cimento (base) e destruía o piso, promovendo infiltrações.
Os encanamentos de metal e mesmo os de PVC comum sofriam a ação
da corrosão de maneira muito mais abrupta. O controle de vazão
era desconhecido, as porcentagens dos rejeitos eram igualmente ignoradas.
Hoje, sabe-se que a uva gera 0,75 gramas de casca. Enfrentavam problemas
graves de desníveis no casarão.
As condições eram precárias. Havia nessa antiga fábrica
uma estação de tratamento vertical. Como não deu
mais para suportar a vazão de água, o jeito foi adquirir
o serviço de carros-pipa e transportar o efluente até a
área onde está a nova planta. “Nós começamos
a tratar o lodo aqui antes mesmo das obras da nova fábrica, até
porque já havia postos de recebimento de uva na região”,
esclarece Salton.
Quando as obras da nova fábrica foram aceleradas, em 1999, a estação
já funcionava parcialmente com uma área para depósito
do efluente e decantação do lodo. A realização
do projeto foi um trabalho multidisciplinar. Envolveu um engenheiro hidráulico,
a engenheira química Marinete de Carli, responsável pelo
projeto e execução da estação de Tuiuty, e
do enólogo Lucindo Copat, funcionário da Salton, com status
de diretor.
A família Salton foi uma das primeiras a colonizar o Vale dos Vinhedos
a partir de 1878, vindo da Itália, quando a localidade foi batizada
Vila Izabel, onde posteriormente foi fundada a cidade de Bento Gonçalves,
a capital brasileira do vinho. Sua primeira atividade empresarial foi
um armazém de cereais, embutidos e alimentos em geral. Como as
cultivares de uva trazidas da Itália se adaptaram bem nas encostas
da serra gaúcha, passaram também a investir no plantio da
fruta e na elaboração de vinhos, espumantes, vermutes em
escala artesanal e posteriormente industrial. Em 1948 foi aberta uma unidade
em São Paulo, para destilar o Conhaque Presidente.
Apesar da mítica a envolver o chamado líquido dos deuses,
da fermentação ao engarrafamento, o vinho fino de mesa moderno
é produzido com ciência e tecnologia. Para acertar a fórmula,
um lote do produto passa por 25 modelos de ensaios químicos entre
os quais se destacam o teor alcoólico, intensidade de cor, acidez
total, volatilidade, densidade de açúcar, presença
de álcool metílico, acidez volátil, teor de taninos,
polifenóis, turbidez, presença de anidrido sulfuroso parcial
e total.
Dessa maneira, a Salton mantém dois laboratórios próprios
equipados para realizar todas as análises necessárias à
produção de seus vinhos, um de análises químicas
e outro de microbiologia para detectar leveduras e bactérias, como
explica o tecnólogo em viticultura e enologia da empresa Marcos
Vivian. Os apreciadores da bebida agradecem.n F. C. Castro
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