Couro perde mercado para os polímeros

Texto e fotos de Fernando de Castro

A edição 29 da Feira Inter-nacional de Couros, Quí-micos, Componentes e Aces-sórios, Equipa-men-tos e Máquinas para Cal-çados e Curtumes (Fimec 2005), realizada de 19 a 22 de abril, na cidade gaúcha de Novo Hamburgo, registrou 60 mil visitantes. Desses, 4.500 representaram 55 delegações estrangeiras, com aumento expressivo da participação das delegações de países asiáticos e africanos. Com isso, o evento bateu novo recorde de público e bilheteria e revelou também um quadro irreversível: a consolidação dos materiais derivados da petroquímica em nichos de mercado onde predominam ou predominaram os couros provenientes de esfola de animais.

A sofisticação dos materiais é tamanha que em breve alguns modelos de calçados deverão receber camadas de roupa de astronauta nas áreas internas. Outro aspecto interessante foi a crescente oferta de poliuretanos de alto desempenho para revestimentos externos. A última aferição da Associação Brasileira da Indústria de Plásticos (Abiplast) revela: 3% dos termoplásticos transformados no país são consumidos na indústria de calçados. O número pode parecer insignificante, mas fica acima dos itens brinquedos e laminados.

O diretor de inovação do Centro Tecnológico do Couro, Calçados e Afins (CTCCA), Aluísio Ávila, considera irreversível o avanço da petroquímica em substituição ao couro, nas áreas internas e inferiores dos calçados assim como no revestimento de acessórios e outros artefatos originalmente fabricados em peles naturais. Além do já mencionado poliuretano, nos últimos anos surgiram peças e componentes em PVC, borracha termoplástica (TR), o náilon, o látex e o EVA, além de diversas blendas e plásticos reforçados. “Está surgindo uma blenda do couro natural com a lycra”, revelou.

O objetivo da indústria, justifica Ávila, é melhorar o desempenho de segurança, durabilidade e conforto. No CTCCA, esses materiais são extenuados em diversos testes físico-químicos. Com a adição de reforços é possível melhorar a qualidade das moléculas menos nobres como a do PVC. Aos poucos, analisou o especialista, a indústria está encontrando o melhor lugar para cada polímero. Na visão de Ávila, o PU e o EVA são imbatíveis na confecção das palmilhas. Submetidas a testes recentes, mantiveram a espessura original de 3 milímetros, após seis meses de aferição.

No item conforto, os polímeros são imbatíveis. Com 30 gramas de EVA é obtida uma palmilha. De couro pesaria 100 gramas. Isto significa a retirada de 70 gramas de um pé e 140 gramas de um par de sapatos. O resultado é maior comodidade para o usuário do produto. Ainda assim por razões estéticas e culturais a parte de cima do sapato será revestida em couro. “A parte de baixo dos calçados será 100% da petroquímica”, profetizou Ávila.

Outro fator favorável ao aumento da participação dos polímeros nos calçados e artigos é o avanço da indústria automotiva sobre a indústria de curtumes para revestir estofamentos e partes internas dos automóveis. Dessa maneira, o couro começa a ficar caro no mercado e perde competitividade em nichos de calçados e acessórios de baixo custo.

Mais um indicativo do avanço da petroquímica no terreno dos curtumes foi a iniciativa da Bayer ao se retirar da indústria de curtumes e criar a Lanxess para atender a cadeia produtiva do couro natural. Com isso, o grupo alemão irá concentrar sua área de pesquisa para materiais do setor calçadista exclusivamente sob a bandeira da Bayer Materialscience, o braço da empresa em engenharia de materiais. Foi exatamente com a divulgação de quatro linhas de PU em alto desempenho que a Bayer focou sua participação na Fimec. A partir das marcas comerciais Impranil, Impraperm, Imprafix e Desmoderm, querem atingir os mais diversos segmentos de revestimento externo, entre os quais se destaca a fabricação de bolsas, calçados impermeáveis, tênis, chuteiras, mangueiras e roupas para ambientes especiais.  

 
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