A tendência na Europa, aliás, é a demanda pelo co-processamento crescer sem interrupção. A progressiva condenação ao uso de aterros industriais explica essa perspectiva. Desde 1991, há uma diretiva da União Européia que recomenda o aterro apenas como última opção para destinação de resíduos. Mais tarde, em 1999, outra diretiva recomendou a proibição de se colocar lixo orgânico em aterro sem tratamento prévio a partir de 2005, o que encarece e muitas vezes inviabiliza essa tecnologia. E há ainda várias outras determinações, com restrições progressivas quanto à disposição de resíduos orgânicos industriais e domésticos, que começam a reverberar nos países-membros.

O caso mais radical ocorre na Alemanha, onde a partir de julho deste ano será proibida a destinação de resíduos orgânicos industriais e residenciais em aterros. Apenas continuarão legalizados os voltados para resíduos inorgânicos, que por serem mineralizados são inofensivos ao solo. Também na Áustria restrição em alta, que culminou com a adição de uma taxa de 90 euros por tonelada de resíduo destinado em aterro, além do preço normal cobrado pela disposição. O resultado da política adotada pelos dois países foi a solução do co-processamento, e outras soluções térmicas, ganharem cada vez mais força.

Taxas similares à austríaca devem se replicar em toda a comunidade européia, segundo explica Francisco Leme, o diretor da Eco-Processa, joint-venture brasileira em co-processamento entre o grupo cimenteiro francês Lafarge e o português Cimpor. "Os europeus querem incentivar a valorização dos resíduos, principalmente como fonte de energia, pois sabem que o aterro é uma bomba-relógio, que pode explodir nas próximas gerações", afirmou Leme. "Há projetos da União Européia para criar taxas entre 70 e 90 euros por tonelada aterrada e de deixar progressivamente de dispor resíduos orgânicos", completa. Aliás, não só na Europa há essa perseguição, nos Estados Unidos, a agência ambiental EPA coloca o aterro como última opção para resíduos industriais, no final de uma cadeia hierárquica que começa com a redução na geração, passa pela reciclagem e depois pela combustão. Também na Ásia há incentivo às soluções térmicas (o Japão co-processa 25 milhões de t/a de resíduos e 80% de todo o seu lixo é destruído termicamente).

Cuca Jorge
A preocupação mundial tem a ver tanto com a desconfiança de que as impermeabilizações dos aterros no longo prazo venham a ceder, o que não é de todo impossível caso a sua operação não seja bem gerenciada, quanto com a indisponibilidade de novos terrenos apropriados
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. Essa futura lacuna deixada pelos aterros apóia a adoção de políticas favoráveis às tecnologias térmicas. No Reino Unido, por exemplo, esta nova perspectiva fez a Câmara dos Lordes estimar a necessidade da instalação e/ou adaptação de até 165 novos incineradores, para além dos pouco mais de 10 em funcionamento. Neste caso, incluíram na conta tanto os incineradores dedicados como os fornos de cimento. 

Pende para o lado do co-processamento a tendência em afirmar que, entre as soluções térmicas de destruição, ela é a mais competitiva. A defesa dessa tese conta com argumentação vasta. Em comparação com os incineradores dedicados, os fornos de cimento atingem temperaturas mais altas (até 2.200ºC contra 1.200ºC) e possuem maior tempo de residência dos gases de exaustão (4 a 6 segundos) e do material (30 minutos). Além disso, os produtos da combustão, as cinzas, se incorporam no cimento por meio de processo de fusão parcial (clinquerização). Já no incinerador, as cinzas precisam ser descartadas em aterros industriais. 

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