PETRÓLEO

Programa qualifica fornecedores no RS

A Rede Petro do Rio Grande do Sul, um programa de qualificação de fornecedores da Petrobrás, articulado entre o governo gaúcho e instituições de pesquisa, a iniciativa privada, Sebrae e com a Refinaria Alberto Pasquallini (Refap), começa a abrir novos horizontes para fornecedores de produtos e serviços da estatal do petróleo. Esse é o caso da Dambroz de Caxias do Sul, que passou a ser orientada pela rede. A empresa há dois anos passou a fabricar os chamados cavalos de pau, sistemas para bombeio de petróleo nos poços em terra. Primeiramente construiu protótipos convencionais, mas por conta da criatividade de sua equipe de desenvolvimento, no ano passado, a Dambroz deu um salto tecnológico ao apresentar uma nova geração dessas máquinas que chegarão ao mercado com ingredientes tecnológicos significativos em relação aos convencionais.

Enquanto o cavalo de pau tradicional funciona por um sistema de transmissão com polias e correias para permitir o acionamento da bomba pelo motor, a nova geração denominada sistema de bombeio ortogonal, um conjunto com pinhão e coroa, acoplado ao propulsor, puxa o óleo bruto das profundezas da terra. O diferencial produtivo de um artefato com relação ao outro é significativo. Para alterar a velocidade de um cavalo de pau dos antigos, os técnicos da Petrobrás precisam trabalhar diretamente no equipamento, o qual deve ser desligado, para a troca das polias necessárias à mudança de velocidade. Com o ortogonal, a operação ocorre a distância por controle remoto. Para se ter uma idéia da agilidade decorrente do novo equipamento, a distância de um poço em relação à base de operações da Petrobrás na região onde os protótipos estão em operação na UN-RN, Rio Grande do Norte, pode chegar a 100 quilômetros.

Como os cavalos de pau convencionais e os ortogonais estão homologados, a Dambroz inicia a estruturação de uma unidade de negócios para fabricação destes equipamentos em série. Somente a Petrobrás deverá consumir aproximadamente 200 máquinas por ano entre substituições  de equipamentos obsoletos e a partir da abertura de novos poços. Cristina Gaboardi, responsável pelo projeto da Dambroz na área de equipamentos para petróleo e gás credita o salto de qualidade ao ingresso da empresa na Rede Petro, combinada com o suporte amplo e abrangente do Sebrae-RS.

 Também integra a Rede Petro/RS a Serrano Automação Industrial. Conforme seu diretor comercial, Lu-ciano Karnas, a empresa ingressou no sistema há dois anos. Com isso, mudou a visão de mercado, a partir do desenvolvimento de redes de relacionamento e oportunidades de novos negócios. A Serrano atua na prestação de serviços de automação e controle de processos industriais. Seus técnicos são especializados na programação e configuração de controladores lógicos programáveis (CLPs) e sistemas digitais de controle distribuídos (SDCD). Recentemente foram convidados a conhecer o centro de operações da Petrobrás em Macaé. Atualmente estão em concorrência de um projeto dentro da Refap. No entendimento de Karnas, a Rede Petro funciona como um cartão-de-visitas de tal forma a permitir a aproximação da empresa com outros players da cadeia produtiva do petróleo, como a Copesul, a Braskem, Ipiranga Petroquímica e DSM. “A Rede Petro é uma organização para nacionalização de produtos e serviços, que começou no Rio Grande do Sul e agora se expande para o restante do sistema Petrobrás”, reforça Karnas. O portfólio da Serrano lhe garantiu alianças comerciais importantes com as norte-americanas Emerson e Rockwell e com a alemã Siemens. “O nosso know-how é operar esses equipamentos, programá-los, colocá-los em funcionamento, alterar suas configurações quando for necessário e instalar os softwares”, informa Karnas.

 

Outra empresa filiada à Rede Petro/RS é a Servilab, fornecedora de estufas, balanças, vidraria, pipetas, balanças outros produtos para laboratórios. Comercializa também reagentes específicos para os testes em cromatografia. “A partir dos cursos da rede estamos providenciando a melhoria do atendimento e das embalagens. Agora vamos entrar na gestão financeira, organização e distribuição”, assinala um dos diretores da Servilab, Giulnei Toldo.

O modus operandi – Suzana Sperry, coordenadora da Rede Petro/RS explica co-mo funciona o sistema. Segundo ela, 170 empresas estão cadastradas no projeto, que conta com o apoio de dez instituições de pesquisa tecnológica universitárias, voltadas para o aprimoramento de empresas gaúchas capazes de atender as demandas primeiramente da Refap, e num segundo momento para o sistema Petrobrás. Para tanto, a rede conta com alianças estratégicas importantes como o Sebrae, elemento chave no desenvolvimento da rede e integrante do conselho executivo do organismo, justamente por proporcionar os programas de capacitação das micro e pequenas empresas do setor. A Rede Petro funciona como projeto especial dentro da secretaria de ciência e tecnologia do estado gaúcho.

O coordenador setorial metal-mecânico do Sebrae/RS, Tiago Lemos é um entusiasta do Projeto Petróleo e Gás, como é denominado o projeto dentro de sua instituição. Segundo ele, a primeira etapa dos programas começou com 36 empresas. Eram pe-quenos empreendimentos sem vínculo comercial direto com a Refap, mas serviam a duas importantes fornecedoras da empresa, o grupo gaúcho Coester, um centro de excelência em automação de válvulas para refinarias e unidades de prospecção, além da Weatherford, fabricante de equipamentos para complementação de poços de petróleo, paredes de sustentação, brocas entre outras ferramentas.

Conforme Lemos, o trabalho do Sebrae e dos empreendedores começa pelo Empretec, um programa voltado à identificação dos aspectos comportamentais dos sócios e diretores da empresa, de tal forma a permitir a visualização das dificuldades de convivência, testar as condições emocionais das pessoas durante situações de tomada de decisão, suas atitudes frente ao risco, suas vocações e competências. Na fase seguinte, o Sebrae se volta para dentro da empresa, investe na capacitação desses fornecedores, distribuídos nos setores de indústria, comércio e serviços e na busca de eficiência gerencial.

A partir daí intensificam-se as atividades relacionadas a conceitos de qualidade total, certificações e consultorias tecnológicas, além de SMS (Segurança, Meio Ambiente e Saúde), as quais são condições indispensáveis para atender o mercado de petróleo e gás. Na seqüên-cia, o Sebrae analisa o potencial para desenvolvimento tecnológico da firma, sua capacidade de inovar em produtos ou serviços. Na última etapa, a entidade coloca o empreendedor em contato com as ferramentas do marketing moderno. O programa proporciona rodadas de negociação em feiras, seminários e congressos.

Lemos traduz o resultado do programa em números. “As 36 empresas da primeira etapa aumentaram as contratações de mão-de-obra, em 15,6% no período. Entre elas, sete foram certificadas com a ISO 9000 e nove expandiram a estrutura existente ou compraram novas instalações”, complementou Lemos. A idéia deu certo. Agora a Refap, antes apoiadora do projeto, virou parceira. Na segunda etapa iniciada em novembro último vai colaborar financeiramente com os cursos para capacitar 83 empresas, entre as quais 17 remanescentes da primeira etapa. O objetivo é que esse grupo passe a servir diretamente à própria Refap e a outras unidades do sistema Petrobrás. 

Uma das empresas incluídas na segunda etapa do Projeto Petróleo e Gás é o Laboratório Alac. Fundado há 13 anos, foi um dos primeiros criados no Rio Grande do Sul com a finalidade de promover análises químicas para a caracterização das uvas e qualificar o vinho produzido em Garibaldi e no Vale dos Vinhedos. Posteriormente o Alac expandiu seu raio de ação e hoje oferece todas as formas de ensaios com ênfase em impacto ambiental industrial e dos resíduos, identificação dos rejeitos depositados nas lagoas de efluentes.

Stela Maris Leonardi, diretora da empresa, informa ter recebido a visita de consultores do Sebrae. “Eles ficam algumas horas dentro da empresa. Depois teremos os cursos” explica. Segundo ela, o Alac já prestava serviços para a própria Refap, Copesul, Oxiteno, Innova, entre outras empresas da cadeia petrolífera. No entanto, ao se submeter aos programas do Sebrae estará habilitado em definitivo para participar de qualquer licitação do sistema Petrobrás e até fora do país, isto porque as homologações da indústria petrolífera têm abrangência internacional.

Ao todo, complementa Stela Maris, dos 60 funcionários do Alac, 40 atuam na área técnica, atendem uma carteira ativa de 1.200 clientes, entre os quais destacam-se a Varig, a Springer Carrier, Dana Albarus, Ambev e Steel. “No ano passado duas auditoras da Petrobrás estiveram em Garibaldi conhecendo nossas instalações. Acho que em pouco tempo estaremos habilitados a servir as unidades da estatal nos outros estados”, confia a diretora.

Licitações mantidas – A adesão à Rede Petro e aos programas do Sebrae e da Refap não modificam as regras legais e éticas relacionadas com as leis de licitação, tomadas de preço e editais. A informação é de Vicente Rauber, o diretor administrativo e financeiro da refinaria, em Canoas. Segundo ele, de maneira direta ou indireta os atuais participantes dos programas já forneciam produtos e serviços à Refap, mas não demonstravam a qualificação administrativa necessária ao atendimento de empresas do porte da cadeia produtiva do petróleo.

 “A principal defecção verificada era na formação de preços e contadoria”, diz. De acordo com Rauber, ocorriam discrepâncias com valores muito acima da realidade de mercado. “Uns vinham com preços tão altos que saíam fora de qualquer patamar de negociação. Outros vinham com preços tão baixos que a qualidade do produto ou do serviço ficava completamente comprometida”, revela o executivo da Refap.

Um aspecto importante do programa, na ótica de Rauber, é a inexistência de qualquer acordo de obrigatoriedade entre as partes. “Nós estamos investindo na requalificação deles, mas não temos nenhum compromisso em contratar”, enfatiza. Da mesma forma, atesta Rauber, os integrantes do programa têm autonomia para definir se querem ou não entrar nas licitações ou atender às cartas-convite. O projeto Petróleo e Gás foi montado pelo Sebrae justamente a partir dos critérios e demandas apresentados pela Refap.

Ao finalizar, enfatiza Rauber, a preocupação maior da Refap com esses investimentos é apontar um caminho consistente para a substituição das im-portações da indústria petrolífera brasileira, demasiadamente dependente de tecnologia e serviços estrangeiros na ótica do atual governo federal. A segunda etapa do programa de capacitação dos 83 fornecedores da Refap está prevista para terminar em 2007 a um custo total de R$ 3,1 milhões. Os valores serão divididos entre a Refap, o Sebrae e pelas empresas de acordo com suas possibilidades financeiras. n

                  Fernando Cibelli de Castro

Rede será ampliada pelo BR

O sucesso da Rede Petro-RS entusiasmou o sistema Sebrae e a Petrobrás de tal maneira que para 2005 R$ 15 milhões estão destinados a capacitar centenas de empresas nos 13 estados com atividade petrolífera. No âmbito do Ministério da Ciência e Tecnologia foi criado um grupo de trabalho comandado por Marcelo Lopes, idealizador da Rede Petro-RS para acompanhar o processo de criação das redes estaduais. Da mesma forma, o objetivo é mapear a cadeia, identificar gargalos e criar uma estrutura de informação capaz de tornar mais competitiva a inserção das micro e pequenas empresas na lista de fornecedores diretos da Petrobrás.

“O foco do trabalho não será somente com um viés de capacitação de fornecedores de forma pontual. Estaremos investindo esforços e recursos com um plano macro de desenvolvimento, onde as entidades parceiras estarão mobilizadas para aumentar a participação das empresas gaúchas no mercado de petróleo e gás, através da competitividade na gestão e com tecnologia de ponta”, ressalta o diretor-superintendente do Sebrae/RS, Deomedes Talini. Em sua opinião, esse é o momento mais apropriado para detonar um amplo programa capaz de tornar a cadeia produtiva do petróleo brasileira competitiva já no contexto da quebra do monopólio do petróleo.

Talini ressalta em todo esse processo a importância do Empretec, uma parceria com a Organização das Nações Unidas para identificar o potencial de empreendedor de cada indivíduo. Para o superintendente, o treinamento promovido em conjunto com a Refap tem como alvo o dono da empresa, os sócios ou toda a linha de comando. “Começamos com a Refap trabalhando o empreendedor. Primeiro detectamos os problemas gerais para depois passar para as dificuldades específicas com as questões comuns a todas as estruturas empresariais”, completa Talini.

As bases da Rede Petro-RS, como referência à criação de uma sistemática similar com abrangência nacional, foi apresentada pela Secretaria da Ciência e Tecnologia, na Oil&Gás Expo 2004, realizada de 4 a 7 de outubro no Centro de Convenções do Riocentro, Rio de Janeiro. Treze empresas gaúchas se apresentaram durante o evento: Taurus, Valge, ER Amantino, Cali, Dambroz, Intecnial, Sulgás, Neogás, MKS Services, Novus, Madalpal finger, Autotravi e Startech. Todas são fornecedoras terceirizadas ou quarteirizadas do setor de petróleo, gás e energia.n

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