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Couro Gaúchos reaproveitam sal de cromo O Rio Grande do Sul gera aproximadamente 200 mil toneladas
por ano de resíduos industriais sólidos Classe I, distribuídos em 16
setores industriais. Desses, 120 mil se originam da indústria de calçados,
que recicla ou reaproveita no máximo 3% dos rejeitos, destinando o
restante em aterros. Aliás, do total gerado no Estado, o equivalente a
100 mil toneladas segue o mesmo destino, existindo ainda os resíduos não
convenientemente tratados, abandonados em corpos de água, aterros sanitários
ou em lixeiras clandestinas, com alto poder de contaminação devido à
presença do cromo. Como algumas empresas do ramo coureiro-calçadista já
encontram dificuldades para conseguir licenciamento ambiental para
descartar seus resíduos, uma alternativa vem sendo desenvolvida por conta
da parceria entre cinco fabricantes da cidade de Dois Irmãos, a 60 quilômetros
de Porto Alegre, com diversas instituições oficiais, lideradas pela
equipe do Laboratório de Processamento de Resíduos (LPR) da Escola de
Engenharia Química da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Denominado “Incineração de Resíduos Sólidos da Indústria
Coureiro-Calçadista”, o projeto resultou na construção de uma planta
piloto para destruir as aparas provenientes da montagem de sapatos, além
de permitir o reaproveitamento dos sais de cromo impregnados no material.
As pesquisas contam com financiamento da Fapergs (a agência de fomento à
pesquisa do governo gaúcho), do CNPQ e dos próprios empresários. A
atividade do reator resulta em 75 kg/hora de material processado, o
equivalente a 3 mil kilocal/hora. Porém, até a conclusão do equipamento
em 2002, o projeto funcionou dentro do LPR da UFRGS. As pesquisas com a
tecnologia começaram em 1997. Inicialmente, a equipe, sob coordenação do doutor Nilson
Romeu Marcílio, montou dois reatores de bancada, um em leito fluidizado e
a outro em leito fixo. Naquela época eram processados 1 kg/hora de
serragem de couro. Como explicou Marcílio, no mesmo período os cinco
fabricantes de calçados constituíram a empresa Preservar Tratamento e
Reciclagem de Resíduos, primeiramente para administrar um aterro sanitário
das classes I, II e III. “O problema é que eles tinham a expectativa de
obter um local adequado por 20 anos. No entanto, perceberam que a
capacidade se esgotaria talvez em dez anos”, diz. Além disso, reforçou
Marcílio, o órgão ambiental gaúcho (Fepam) vem dificultando cada vez
mais o licenciamento ambiental para aterros destinados a resíduos da indústria
do couro.
Na estação de alta
produção o consumo é de 0,32 kg/s. Segundo Marcelo Godinho, pesquisador
do LPR, para atender essa demanda energética, seria necessária uma
planta com potência térmica de 1,8 MW, a qual corresponde ao tratamento
de 500 kg/h do resíduo da indústria do calçado. Conforme
Maiquel Santos Vieira, também pesquisador do laboratório, o processo
projetado para a recuperação do cromo consiste na oxidação do óxido
de cromo (Cr2O3) presente nas cinzas destes resíduos
ao dicromato de sódio (Na2Cr2O7). O
dicromato formado é, então, reduzido a sulfato básico de cromo (Cr2(OH)2(SO4)2),
principal sal curtente utilizado pela indústria coureira. Os estudos da
equipe do LPR revelaram ainda que substâncias com cromo de toda a região
do Vale dos Sinos, devidamente recicladas, poderão gerar futuramente negócios
na casa do R$ 15 milhões por ano, isso se toda a cadeia produtiva do
couro implantar sistemas semelhantes. Autocombustão
– De acordo com Luiz Antônio Germano, diretor e sócio-majoritário da
Luftech, de Porto Alegre-RS, empresa a quem coube construir o
equipamento-piloto, o incinerador ou reator para tratamento térmico, como
preferem denominar os pesquisadores, funciona por autocombustão. No caso
do sistema em operação de Dois Irmãos foi escolhido o modelo por leito
fixo. O querosene é usado apenas para a partida do equipamento, pois após
esta etapa inicial a reação de combustão ocorre por meio do vapor
gerado das aparas incineradas, constituindo-se num
sistema auto-sustentável.
Outros tipos de combustíveis, como gás natural, também
podem ser utilizados na partida. O reator foi montado com a estrutura em
chapas de aço carbono, reforçado externamente por cantoneiras e
revestido internamente por camadas de isolante térmico e refratário à
base de alumínio. Detém alta resistência à temperatura e a
determinados agentes químicos. A grelha (onde se deposita o material a
ser incinerado) é fabricada para conferir resistência ao calor e aos
agentes corrosivos. Os ventiladores foram desenvolvidos especialmente para o
equipamento, garantindo pressão constante a fluxos de volumes diferentes,
sendo acionados por motores elétricos. A vazão dos resíduos depende do
poder calorífico e do peso específico do material. A câmara de alimentação
é composta por duas comportas, evitando-se, desta forma, a fuga dos gases
da câmara geradora. Por meio de um sistema especial, a eclusa é lavada
com ar antes da abertura da tampa superior, a fim de eliminar os gases. A operação é iniciada a partir da colocação do resíduo,
com ou sem secagem prévia, na câmara de alimentação do incinerador.
Fechada a câmara, a próxima comporta é aberta automaticamente, levando
o resíduo ao reator de gaseificação. Ali, o material passa do estado sólido
para gasoso a 650ºC, sem haver queima. O gás gerado neste reator passa
à câmara de combustão de três estágios até atingir 1.200ºC na última.
“Isto reduz a formação de NOx e permite uma maior eficiência de
combustão para evitar a formação de dioxinas e nitrosaminas devido ao
ambiente redutor sub-estequiométrico”, explica o diretor da Luftech. A câmara de combustão em forma de ciclone foi concebida de
tal forma a reter a quase totalidade dos particulados originados na queima
do resíduo. Na seqüência, as substâncias particuladas se precipitam
para um cinzeiro situado na parte inferior do equipamento. Na queima de
materiais com alto poder calorífico, a temperatura da câmara de combustão
pode atingir até 1.600 graus centígrados. Na seqüência, acrescenta
Germano, o gás quente originado no ciclone, pode ser utilizado para gerar
energia térmica ou elétrica. Posteriormente ao resfriamento, o ar passa
pelo lavador de gases para eliminação de eventuais materiais
particulados ou outros compostos. Ao final da operação as cinzas são
coletadas, resfriadas e removidas do incinerador. O gás é totalmente
queimado em razão da sua boa mistura e do tempo de residência no
ciclone. O reator conta com sensores de temperatura para monitorar e
acompanhar todas as etapas do processo de queima e possui um dispositivo
para manter a temperatura na faixa desejada a partir de um sistema de
controle automático, o qual pode acionar o compartimento do combustível
auxiliar se assim for necessário. Por liberar grande quantidade de calor,
sem utilizar combustível auxiliar, apenas lixo, esse tipo de reator
oferece três formas possíveis de aproveitamento da energia, como produção
de vapor ou água quente, por meio de um boiler para lavanderias, duchas
ou cozinhas, processos de secagem industriais, estufas de pintura ou
outras; produção de água gelada, através de um sistema chiller para
ar-condicionados de médio e grande porte; e processos de resfriamento
industriais em injetoras de plástico e câmaras frias. Embora a pesquisa com incineração de calçados seja nova no
Rio Grande do Sul, aproximadamente 200 reatores similares foram construídos
pela Luftech a partir de uma parceria com o governo alemão. A empresa tem
instalado esses sistemas em diversas regiões do país com a finalidade de
destruir lixos hospitalares, resíduos de aeroportos, clínicas odontológicas,
laboratórios de análises clínicas e outras formas de resíduos sólidos
gerados nas indústrias de transformação. A Luftech, revelou Germano, já
adquiriu inclusive a tecnologia para tratamento térmico de lixo
radioativo. “Ainda não existe licenciamento ambiental para esses resíduos
no Brasil, mas quando houver estaremos prontos para atender o mercado”,
garantiu o diretor da empresa. Ele contabiliza ter montado pelo menos 200
incineradores em território brasileiro desde a fundação da Luftech. É um sistema muito eficaz em termos ambientais, econômicos
e de saúde pública. Depois de iniciado o processo o reator não
necessita de combustível auxiliar, o próprio resíduo é o combustível.
Com possibilidade de aproveitamento da energia térmica gerada em instalações
existentes, há uma economia de 98% em espaço físico. "A alta eficiência
energética ocorre pela otimização na injeção de ar”, completou
Germano. No entanto, o licenciamento ambiental obtido para a operação
do reator do setor coureiro-calçadista é para a etapa experimental. A
expectativa é que a Fepam autorize a atividade em caráter industrial
ainda no primeiro semestre de 2005. Essa pelo menos é a expectativa do
coordenador do LPR. Nilson Romeu Marcílio. Enquanto isso, os estudos
prosseguem. Atualmente, a equipe do laboratório está colocando a
serragem e o pó de couro provenientes dos curtumes, como forma de ampliar
as possibilidades do sistema quando sua operação industrial for possível.
Há ainda o processo de construção de uma sonda para aprofundar os
testes com aproveitamento dos gases e do potencial energético da planta
piloto. Fernando de Castro
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