Indústria
de bens de capital, Marcelo
Furtado
Para começar, a desvalorização
do dólar tem inibido a curva de crescimento das exportações, não só
de máquinas como das indústrias clientes, tirando força de uma
estratégia que vinha dando bons resultados. Contam também contra as expectativas a queda da cotação
internacional das commodities agrícolas, que deve arrefecer o
consumo de máquinas colheitadeiras e de outros equipamentos da área, e
os brutais aumentos do preço do aço, cujo valor dobrou em 2004 com firme
possibilidade de continuar a crescer em 2005. Esses três fatores apontados em recente levantamento da
Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq)
devem, em uma análise menos pessimista, diminuir o ritmo de crescimento
do setor, vindo de um ano considerado muito bom. Mesmo ainda sem
competitividade internacional, tanto em escala produtiva como em
tecnologia, os fabricantes finalmente conseguiram se recuperar em 2004 de
uma longa época de letargia pós-abertura de mercado da década de 90.
Pelo menos a melhora se revela nos últimos números divulgados pela
Abimaq: o faturamento total de 2004, de cerca de R$ 44 bilhões, cresceu
28,7% sobre 2003, e as vendas externas, mais representativas no quesito
competitividade, subiram 35%, ante os US$ 4,94 bilhões exportados em
2003. Trata-se do melhor resultado dos últimos 15 anos, a despeito do
aumento de custo produtivo do setor também considerável, em alguns casos
de cerca de 20%. A dúvida com 2005, porém, se fundamenta em notada queda
nos pedidos do último trimestre de 2004, que já provocam sinais
negativos e fazem a Abimaq estimar crescimento de apenas 10% no
faturamento e de 15% nas exportações do próximo ano. A cautela ganha
mais força ao se levar em conta que as importações brasileiras de máquinas
registraram alta em 2004, de 13,8%, totalizando US$ 6,6 bilhões. Com o
ritmo de valorização do real em curso, esse déficit comercial tem
chances reais de crescer ainda mais. Principalmente acrescentando-se à
tendência a falta de competitividade inerente aos custos tributários
brasileiros e, mais especificamente, a proveniente do aumento de 100% no
preço do aço, responsável por 17% do custo de produção de máquinas e
equipamentos. Se depender da grita e da mobilização do setor, porém,
o cenário preocupante pode ser minimizado. Além de reclamações formais
e informais ao Governo Federal (a Abimaq, por exemplo, ultimamente
alardeia releases de repúdio à postura do Banco Central com relação
à queda do dólar, à elevação das taxas de juros e à política de
metas inflacionárias), os fabricantes também agem por meio de
investimentos em modernização. Segundo a Abimaq, entre 2001 e 2003, os
fabricantes de máquinas e equipamentos investiram em média R$ 3 bilhões
ao ano (a maior parte em manutenção). Mas no ano passado, em virtude do
desempenho recorde de vendas, as inversões dobraram para R$ 6 bilhões. Segundo a Abimaq, a desconfiança com 2005 não impedirá
os fabricantes de aumentarem em 25% os investimentos em modernização e
ampliação, para uma média de R$ 7,5 bilhões. Com os fabricantes ciosos
de ganhar escala e mercados mais exigentes, o aumento se justificaria, com
a ressalva de poder gerar ociosidade no futuro próximo, caso a desconfiança
com o desempenho de 2005 se concretize. Modermaq
entusiasma – Outro fator para acreditar no maior investimento é
o desenvolvimento da nova linha de financiamento para renovação do
parque produtivo nacional, o Modermaq, do BNDES, lançada em agosto de
2004. Um primeiro levantamento do BNDES revela que até 30 de dezembro de
2004 o Modermaq aprovou R$ 136,8 milhões em 299 operações. E a análise
da Abimaq sobre a linha é positiva. Com recursos de R$ 2,5 bilhões (até
julho de 2005), juros de 14,95% ao ano, cobertura de 90% do valor
financiado, prestações fixas e prazos de pagamento de até cinco anos,
com seis meses de carência, a linha deve responder por um terço dos
investimentos previstos pela Abimaq para 2005. Mas o programa oficial não recebe só elogios. Voltado
originariamente para micros e pequenas empresas, o Modermaq na verdade
privilegiou bem mais as maiores, com faturamento acima de R$ 60 milhões/ano,
com 76% do valor liberado até agora. Apesar dessa distorção poder ser
resolvida na medida em que o programa ganhar mais visibilidade, outros
problemas só podem ser solucionados com mudanças profundas na formatação
do Modermaq. A principal delas tem sido motivo de críticas dos dirigentes
setoriais. Trata-se de uma emenda que permite o financiamento de máquinas
usadas, o que fere o princípio de “renovar” a produção nacional, ao
permitir a compra de equipamentos velhos. A outra falha apontada é o
valor disponibilizado para financiamento (R$ 2,5 bilhões), considerado
baixo para atender as necessidades do setor.
“Se considerarmos que os aumentos de custo para o segmento, até outubro
de 2004, foram da ordem de 19%, vê-se claramente que não houve aumento
real do faturamento”, explica Vallo, também diretor da fabricante Omel. Por aumento de custos, Vallo cita, de início, o aço,
insumo importantíssimo para o mercado de bombas, especialmente nas
empregadas em óleo, gás e petroquímica. Nesse caso, o presidente da
CSBM lembra que os aumentos foram superiores a 100% e devem continuar a
subir. Mas houve também outros insumos cooperando negativamente com o
custo de produção das bombas. Segundo ele, o ferro fundido, cobre, aços
planos e motores elétricos tiveram acréscimos de preço entre 30% e 50%,
bem acima da inflação declarada de 6%.
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