Fábricas
químicas e suas MARCELO FAIRBANKS O
agregado de atividades econômicas referentes à química inicia 2005 com
expectativas otimistas, ao contrário de períodos anteriores, sempre
congestionados de nuvens cinzentas no horizonte. Com céu de brigadeiro, o
setor espera resultados tão robustos quanto os obtidos durante 2004,
quando obteve faturamento líquido de US$ 58,7 bilhões, 28,7% superior ao
de 2003. Cotado em reais, esse faturamento cresceu apenas 23,2%. A diferença
representa a valorização do real frente ao dólar. Considerando apenas os produtos químicos destinados à
subseqüente industrialização, o faturamento alcançou US$ 33 milhões,
37% a mais que em 2003. O crescimento da demanda interna, além do aumento
das exportações (de US$ 4,1 bilhões para US$ 5,0 bilhões), ocupou mais
as unidades produtivas nacionais, que operaram com média anual por volta
de 87%, contra as médias de 82%, em 2003, e 80%, em 2002.
No aspecto internacional, a boa exportação não
conseguiu compensar o aumento do déficit químico, que passou de US$ 4,8
bilhões para US$ 6,7 bilhões em 2004. As importações chegaram a US$
11,7 bilhões, alimentadas pela maior compra de fertilizantes, defensivos
agrícolas e ingredientes farmacêuticos, responsáveis por US$ 5 bilhões
de compras externas. “Os números indicam a necessidade de o setor voltar a
investir para atender à evolução da demanda”, analisou o presidente
do conselho da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim),
Carlos Mariani Bittencourt. Ao mesmo tempo, ele salienta que o País
apresenta reduzido número de projetos de investimentos no setor, pelo
menos com conclusão prevista até 2008. Mesmo assim, esses projetos pouco
ajudariam a reduzir o déficit setorial, pois os itens já mencionados, os
mais importantes na relação dos importados, dificilmente seriam feitos
no Brasil. Nos fertilizantes, as fontes de potássio situam-se todas no
exterior e os nitrogenados não apresentam condições de suprimento de
matéria-prima (gás natural) e logística satisfatórias para reversão
do quadro. Nos agroquímicos e farmacêuticos, a estrutura mundial de
produção de ingredientes ativos se baseia em unidades produtivas únicas
de escala mundial, poucas da quais de fácil implantação no País. Para
o segmento petroquímico, o principal entrave diz respeito à garantia de
suprimento de matérias-primas, como gás natural, nafta e condensados de
petróleo, a preços internacionais. “O déficit químico apenas aponta oportunidades de
investimento, mais nada”, afirmou Mariani. Uma vez que o Brasil é uma
economia aberta e conta com câmbio flutuante, não há problema nenhum.
“Só a Europa e o Japão têm superávit químico em todo o mundo”,
considerou. Além disso, essas importações ajudam a compor cadeias
produtivas de outros setores econômicos, por sua vez exportadores. É o
caso da agroindústria: os fertilizantes e defensivos são consumidos na
produção de soja e milho, exportados na forma de grãos, produtos
industrializados ou como carnes, pois são ingredientes para a formulação
de rações para aves e mamíferos. A China, por exemplo, importa 60% dos
termoplásticos que transforma e depois exporta. “São os campeões do draw-back”,
disse. Segundo Mariani, 2005 herda de 2004 um panorama de negócios animador. A demanda por produtos químicos encontra-se robusta em todos os países, mantendo altos os preços. Do ponto de vista dos custos, a elevação drástica das cotações do petróleo ocorrida em 2004, de US$ 30 para a casa dos US$ 50 por barril tende a se estabilizar, embora em uma média bem acima da anterior. O dirigente setorial salienta o fato de a economia mundial pouco ter sido afetada pela elevação do insumo. “A inflação no Brasil não disparou, nem em nenhum lugar do mundo, ou seja, os preços foram contidos dentro das cadeias produtivas antes de chegar aos consumidores”, comentou.
No setor petroquímico, a nafta pegou a onda altista do
petróleo: subiu de US$ 333/ t em janeiro de 2004 para US$ 480/t em
outubro. “Mas a alta de preços só ocorreu e se sustentou por efeito da
demanda mundial”, disse. Segundo informou, há poucos projetos de novas
capacidades produtivas confirmados também no exterior. Os poucos
verificados situam-se no Oriente Médio, valendo-se de gás natural a preços
módicos. “Se a demanda mundial continuar crescendo, os preços
continuarão subindo e alguns produtos podem tornar-se escassos”, disse. Os indicadores econômicos nacionais apóiam uma visão
otimista para 2005. “A economia nacional vai bem em todos os setores e já
se percebe uma recuperação de poder de compra da população”, afirmou
Mariani. A partir do segundo trimestre do ano, ele prevê aumento
significativo da oferta de crédito internacional para projetos de
investimento em países do porte do Brasil.
Segundo o experiente economista, a conjuntura econômica
mundial favoreceu o desempenho brasileiro em 2004. Com todo o mundo
desenvolvido em forte recuperação, liderado pelos Estados Unidos, e com
a contínua expansão chinesa, até as commodities agrícolas e
industriais (químicas inclusive) alcançaram cotações muito
remuneradoras. Essa pujança, no entanto, pode ser um problema para 2005.
A demanda mundial por petróleo e gás natural continua muito alta,
mantendo os preços bem acima dos praticados em 2002, antes da guerra no
Iraque. Também o desempenho chinês preocupa, pois o crescimento
segue próximo a 10% ao ano, embora o próprio governo da China já tenha
promovido medidas para conter a expansão. “Algumas cidades chinesas já
sofrem com falta de água e luz, e a inflação se torna preocupante”,
explicou. O crescimento chinês absorve a produção de aço e de metais
em todo o mundo. Além disso, no panorama internacional, a situação da
economia norte-americana não é estimulante. Os déficits gêmeos (fiscal
e de contas correntes) assumem proporções monumentais e exigirão
medidas drásticas de contenção. Segundo Mendonça de Barros, as famílias
americanas apresentam grau zero de poupança, enquanto o governo de lá
está em poupança negativa. “A diferença entre produção e consumo é
financiada pelas economias asiáticas, como China e Japão, que absorvem dólares,
mesmo com prejuízo, para manter fluxos de exportação”, afirmou.
“Caso os bancos centrais de lá resolvam desovar dólares, a economia
mundial ficará toda desarrumada.” No campo interno, a economia brasileira vai fazendo sua
lição de casa. A situação das contas correntes nacionais melhorou
muito, embora o superávit comercial de US$ 21 bilhões ainda seja
pequeno, igual às dívidas de curto prazo. “O governo está exportando
a riqueza nacional, é o que se espera de quem precisa pagar as dívidas
que contraiu no passado”, disse. A redução da dívida externa do setor
privado também indica que investimentos não estão sendo feitos no País. Para Mendonça de Barros, a meta de 4,5% de inflação
anual pode ser considerada ambiciosa. O Chile, economia apontada como
modelo, levou 12 anos para chegar a esse patamar de inflação anual.
“Como a meta é árdua, os juros devem se manter muito elevados durante
o ano”, considerou. Em 2004, a inflação foi de 7,4% (pelo IPCA). Ao
mesmo tempo, o aumento da atividade econômica redunda em aumento da massa
salarial da ordem de 4%, ou seja, menos da metade da queda verificada em
2003. Porém isso também pressiona a inflação. A previsão do analista é de uma expansão do PIB da
ordem de 3,7% em 2005, abaixo dos 4,9% de 2004. A redução do índice
pode ser explicada pelo fato de a base de comparação ser maior e também
pela expectativa pessimista em relação a produtos agrícolas. A soja,
por exemplo, encontrará preços menores no mercado externo e terá custos
de produção mais elevados, por causa da ocorrência da ferrugem. A carga
tributária se aproxima de 36,5% do PIB, desestimulando a atividade econômica.
“Basta verificar que a formação bruta de capital fixo é muito baixa;
os produtores preferem apenas aumentar o grau de ocupação das fábricas
a investir em novas capacidades”, lamentou. O zelo oficial com os desembolsos públicos, que impede até mesmo a recuperação da malha viária nacional, preocupa os investidores. “Temos graves deficiências de infra-estrutura e não há iniciativas para saná-los”, criticou.
Dependo
do grau de infestação, a safra daquele país pode ser afetada, tal como
aconteceu com a brasileira em 2004. “Mas, se a infestação lá for
muito forte, pode ser que faltem fungicidas em todo o mundo, ou pelo menos
seu preço fique ainda mais alto”, ponderou. De outra forma, caso o
mercado de carnes (suína, bovina e de aves)
se fortaleça, as vendas de grãos ficarão asseguradas. O encarecimento da
produção e as baixas previsões de preços tornaram mais conservadoras
as empresas fornecedoras de insumos para o setor. “Estamos muito mais
seletivos na concessão de créditos, de modo a evitar exposição elevada
a prejuízos”, explicou.
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