Foto de Gabriel M Covian/getty images - mostra carregamento de sal em unidade de cloro-soda no México

CHEGOU A HORA DE AMPLIAR A PRODUÇÃO NACIONAL

Crescimento dos mercados de PVC e PU, e preço recorde da soda, devem desengavetar projeto de expansão do setor

MARCELO FURTADO

A  indústria nacional de cloro-soda vive um momento decisivo. Há anos protelando investimentos, sobretudo por causa da falta de motivos conjunturais e de confiança no desempenho do mercado consumidor, agora parece ter chegado a hora dos produtores pensarem seriamente em colocar a “mão no bolso” para ampliar as fábricas. Uma junção de indicadores positivos, além de deixar poucas desculpas para novos atrasos, tem feito os principais produtores desengavetarem estudos técnicos e financeiros para possíveis ampliações ou, caso contrário, para mudanças de estratégia no país.

O cenário convidativo para os investimentos começa na esfera global. Em primeiro lugar, o preço internacional da soda nunca esteve tão alto, em uma faixa de US$ 350 a tonelada, depois de ter descido a US$ 50, em maio deste ano e de, na média histórica, pouco ter ultrapassado os US$ 150. Mas se a oscilação característica de commodity pode não empolgar, o melhor é saber que esse patamar deve perdurar por alguns anos. Sem nenhum anúncio importante de investimento no mundo, e na atual escassez de oferta desse insumo importante na indústria de alumínio, papel e celulose, ou de sabões e detergentes, o preço alto deve se manter, ajudando os produtores a equilibrar as vendas com o cloro, que sofrem menos oscilações.

Embora essa indústria sempre baseie seus investimentos no mercado do cloro e de sua rica e ascendente cadeia que envolve o PVC e o poliuretano, o aumento do preço da soda, e principalmente da sua demanda em freqüente acréscimo (de 900 mil a 1,2 milhão de t por ano), tem sido encarado como uma das causas da provável volta ao ciclo de reinvestimento do setor. Esses fatores devem fazer em breve os grandes produtores globais, como Dow Chemical, Solvay, Occidental, além de outros regionais, reverem a atitude de desinvestimento tomada nos últimos anos. 

Não custa lembrar que apenas na maior região produtora do mundo, o Golfo do México, no sul dos Estados Unidos, responsável por 30% da capacidade de cloro-soda global (15 milhões de t), cerca de 15% da produção foi desativada. Outras unidades na Europa seguiram o mesmo rumo, tirando do mercado, a partir de 2001, quase 2 milhões de t do insumo no mundo. Cuca Jorge
Pimentel: Golfo desativou 15 % da produção

O desinvestimento do Golfo, responsável no longo prazo pela alta da soda neste ano, foi provocado pela elevação do preço do gás natural nos Estados Unidos, que passou, a partir de 1999, de US$ 2,5 para US$ 6 por milhão de BTU. “Ao longo dos anos, eles apostaram nessa matriz energética mas não se prepararam para futuras expansões do consumo”, explica o gerente de marketing para América Latina da Dow Química, Luiz Pimentel. O resultado foi a queda do retorno para reinvestimento em unidades eletrolíticas no Golfo do México, a partir desse período, para a média de US$ 100 por tonelada abaixo do valor mínimo necessário.

Somente a Dow, maior produtora mundial com capacidade de 6,5 milhões de t/ano de cloro-soda e com unidade naquela região, reduziu em 345 mil t sua produção em Plaquemine, Louisiana. “Quando os investidores olhavam os gráficos de valores dos contratos, eles não só declinavam de investir como decretavam o fechamento de unidades”, afirma Pimentel. Esse cenário perdurou até 2004, aumentando não só o preço da soda como fazendo os produtores do Golfo diminuírem a exportação de derivados (DCE e PVC, principalmente) para se concentrarem no mercado americano.

O melhor de tudo, porém, foram esses longos anos de oferta apertada, aumento de demanda e falta de expansões terem sido responsáveis pela volta do interesse em reinvestimento. Hoje em termos globais já é viável se pensar em expansões, pois o valor médio para reinvestimento está acima da média histórica em quase US$ 200 por tonelada. “Tenho certeza que neste momento todos os grandes produtores estão fazendo estudos para construir novas unidades e fazer ampliações”, alerta Luiz Pimentel.

Tríplice escolha – Com o cenário de recuperação, o provável, segundo o gerente da Dow, é o montante deixado de produzir pelo Golfo do México começar a migrar para outras regiões do mundo, capacitadas a receber os investimentos. Na análise de Pimentel, três regiões vão concorrer nos próximos meses e/ou anos para ser palco do necessário up-grade da atual produção mundial de cloro estacionada em 51 milhões de toneladas, com ocupação média chegando nos 90% e, em muitos casos, a plena capacidade. São elas: Pacífico (leia-se China), Oriente Médio e, felizmente, América Latina (sobretudo Brasil, principal produtor da região, com capacidade instalada de 1,1 milhão de t de cloro).

Cada uma das regiões tem seus prós e contras, mas também todas podem merecer a atenção dos investidores. A China, cujo interesse mundial já virou lugar-comum, deve continuar a expandir seu parque de cloro-soda a um ritmo até cinco vezes maior dos registrados nos Estados Unidos e na Europa. Atualmente com capacidade instalada de quase 7 milhões de toneladas/ano, já encostando na produção européia (9 milhões), a previsão é de que o país asiático chegue em 2010 ao nível do mercado americano, hoje na faixa de 14 milhões t/ano. Com demanda interna alta de soda e de cloro, indústria de plástico em ascensão e PIB crescendo a 9% a.a, o único “contra” da China é a questão energética. Há quem coloque em risco o crescimento futuro chinês em virtude da disponibilidade limitada de energia, cuja matriz é muito concentrada no sistema hidrelétrico e dependente da entrada em operação da Usina de Três Gargantas, também no longo prazo com risco de ser insuficiente.

A questão energética no mercado de cloro-soda é fundamental, tendo em vista sua condição de atividade eletrointensiva. Para se ter uma idéia, no Brasil o insumo representa 40% do custo variável e chega a 75% do custo fixo de produção. Não é de se estranhar, portanto, que a energia seja o principal fator para promover o Oriente Médio a segundo candidato natural aos investimentos internacionais de cloro-soda. Ainda iniciante na atividade, os países árabes contam a seu favor para ingresso na geografia da indústria de álcalis e cloroderivados o fato de possuírem abundante e barata energia.

Da mesma forma, só que pesando contra, a energia também é levada muito em conta nas análises de migração de investimentos para o Brasil. Apesar de já contar com um parque produtivo considerável, um mercado interno interessante e em recuperação, e de não correr no médio prazo mais risco de “apagão”, o País conta com tarifas de energia que podem ser impeditivas para novos investimentos de grupos internacionais. “Mais de 50% do preço total da energia são custos tributários, entre encargos, emolumentos e taxas”, lamenta o diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Álcalis, Cloro e Derivados (Abiclor), Martim Afonso Penna. “Dessa forma, cada vez mais vamos exportar impostos e perder competitividade”, diz. Cuca Jorge
Penna: tarifa energética ainda é um problema

A indignação setorial é pior ao se constatar que nos últimos anos a parcela do custo correspondente à energia tem se mantido estável. Apenas a referente a encargos subiu, e com risco de aumentar mais ainda, caso o projeto de lei que pretende criar subsídio ao gás natural com repasse na tarifa de energia for aprovado no Congresso. “Ou tomamos medidas para deixar de sobrecarregar a indústria ou então perderemos esses investimentos”, acrescenta Penna.

O custo da tarifa também não é o único problema no longo prazo. Mesmo com o empenho das empresas do setor em reduzir ao máximo o custo da energia, e de estarem engajadas em alternativas de consumo livre (cujos leilões de energia são incentivados pelo governo federal), a previsão é que, depois de 2009, o Brasil poderá voltar a ter problemas de abastecimento. “Se não houver investimentos na área, e as demoradas licenças ambientais estão colaborando com isso, poderá ocorrer um colapso”, diz Penna. 

Segundo ele, vários investidores, cansados com a burocracia ambientalista do atual governo, já começam a desistir de consturir usinas, principalmente no Norte do País, onde o setor do alumínio terá necessidade de mais energia para ampliações e instalação das novas unidades programadas.

Aliás, o alerta relativo à energia vale também para toda a infra-estrutura brasileira. O caso da logística é o mais importante. Considerando que 67% da produção de cloro-soda se concentra no Nordeste, enquanto 70% da demanda se encontra no Sul e Sudeste, e ainda que, no caso da soda, 50% do transportado é água, fica fácil entender a preocupação. “O Brasil precisa aumentar a participação do transporte ferroviário, ter fretes competitivos e interligar os modais, caso contrário pode perder esses investimentos”, lembra Luiz Pimentel, da Dow.

 

<<< Anterior

Próxima >>>