Indústria de tintas argentina desperta, mas mostra fraqueza 

Crise econômica abalou o mercado, a ponto de reduzir consumo per capita argentino à metade do registrado em época de ouro

Texto e fotos de Renato Pachione

As luxuosas instalações do Sheraton Retiro, de Buenos Aires, Argentina, foram palco para a segunda edição do Report, evento promovido pela Sociedad Argentina de Tecnólogos en Recubrimientos (Sater). De 1o a 3 de setembro, a indústria de tintas do país se fez representada em exposição e congresso técnico. Apesar da pompa do local, foi impossível mascarar a fragilidade do mercado da região. Com 36 expositores, a mostra apresentou poucas inovações e deixou transparecer as dificuldades às quais a economia argentina passou.

“É preciso entender que o mercado de tintas estava completamente apático”, justificou o presidente da Sater Rubén Garay. Segundo estimativa dos profissionais da área, antes da crise econômica, o setor respondia, em média, pelo consumo de 120 milhões de litros de tinta, ao ano. Hoje não chega a 90 milhões de litros. O consumo per capita argentino também não empolga. De acordo com Garay, em 1998, ano de referência para o setor, esse volume era de 4 litros; hoje está reduzido à metade disso. Por conta desse cenário, a feira, segundo ele, não tinha condições de ser maior nem tão pouco de se embasar em lançamentos.

Além de se restringir ao seu caráter institucional, a exposição foi organizada para ser reconhecida como um complemento do congresso. “O Report prioriza os seminários”, explicou Garay. Esse foco tem um porquê. A indústria argentina carece de formação específica, pois, por tradição, os profissionais adquirem conhecimento nas próprias empresas e não em cursos técnicos ou universitários. Até por esse motivo, o congresso se deu em três dias e a feira, em dois. Desde sua fundação, em 1996, a Sater se dedica à organização de cursos, seminários e congressos técnicos. Em 2001 assumiu a organização do Report e se propôs a realizá-lo no ano seguinte. Em função das condições econômicas da indústria na época, o evento foi postergado para 2004.

Com os esforços voltados para o seminário, a Sater se associou à norteamericana Federation of Societies for Coatings Technology (FSCT) e convidou órgãos de outros países, como a Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati) e a Associação Nacional dos Fabricantes de Tintas do México (Anafapyt). Em função dessas parcerias, o Report 2004 contou com palestrantes internacionais, como os norte-americanos Jamil Baghdachi e Dean Webster, representantes da FSCT, e o presidente da Abrafati Dilson Ferreira, entre outros.

Qualidade em pauta  Uma das palestras mais controversas integrou o módulo: Gerência Competitiva. A partir do tema “Estratégia Competitiva e aumento do mercado”, o professor da Universidade de Buenos Aires Alberto Levy destacou a importância do industrial argentino priorizar a qualidade dos produtos ofertados. “Para sermos um mercado competitivo, precisamos investir em tecnologia, pois quem compete por preço quebra”, disse. Logo após essa afirmação, a platéia, até então calada, se manifestou na tentativa de alertar o palestrante sobre a realidade local. “Se destaca quem vende mais barato. Acredito no seu ponto de vista, mas é uma visão romântica”, um dos participantes deu voz à maioria. Não convencido, Levy reafirmou: “Um mercado forte só se constrói, a partir da qualidade da oferta. Se o seu produto tem valor, o consumidor irá comprá-lo sem pensar no preço.” Consternada, a platéia indagou: “Vamos supor que invista na qualidade, vou ficar com produtos encalhados, pois o consumidor quer o mais barato. É essa a nossa realidade”, resumiu outro convidado. Ao perceber a fragilidade do seu argumento, frente à platéia, Levy finalizou: “Eu entendo que existam dificuldades, mas se não nos sacrificarmos agora, a indústria argentina não evoluirá”, concluiu.

Tendo como foco a qualidade, o presidente da Abrafati Dilson Ferreira proferiu a palestra Programa Setorial de Melhoria da Qualidade das Tintas Imobiliárias. Na ocasião, falou sobre o processo de implantação e das normas técnicas do programa brasileiro. Para ele, a participação na feira pode ser o início de um trabalho voltado à criação de normas no Mercosul para o setor de tintas imobiliárias. Não por acaso, essa iniciativa vai ao encontro das perspectivas da Abrafati. 

 De acordo com previsão da entidade, o setor de tintas deve exportar US$ 83 milhões, neste ano. Desse total, cerca de 35% será destinado ao Mercosul, sobretudo para a indústria argentina e uruguaia. Segundo Ferreira, as normas facilitariam o livre comércio entre os países e seriam um forte instrumento para tornar a região mais competitiva em suas exportações. Gabriela Acevedo
Ferreira destaca qualidade do setor

Foco em revestimentos  As palestras mais concorridas integraram o módulo dedicado à durabilidade das tintas e dos revestimentos. Para abarcar o tema, Baghdachi, professor da Eastern Michigan University, falou sobre as variáveis que afetam a vida útil das tintas, como a exposição a intempéries e algumas propriedades das formulações. Ele analisou as causas e os tipos de mecanismos capazes de gerar falhas, como a relação monômero/polímero e o efeito dos aditivos e dos pigmentos nas composições, entre outros fatores. Professor do Departamento de Polímeros e Revestimentos da Universidade Estatal de North Dakota, Webster ficou encarregado de abordar a química avançada dos polímeros e a indústria de revestimento. 

Ele revisou os mais recentes avanços em tecnologia e a utilização dos polímeros nos sistemas de revestimento, com destaque para novos métodos destinados ao controle da polimerização de radicais livres. As tecnologias de polímeros à base água, incluindo sistemas epóxi e uretano também estiveram no foco da discussão. Cuca Jorge
Na opinião de Garay,o mercado estava complemente apático

Bastante concorrido, o Seminário Técnico de Cores em Tintas lotou o auditório. Ministrada pelo consultor Hugo Sinelnicof, a palestra trouxe à baila o desenvolvimento dos aspectos teóricos dos estudos da cor, como incidência, propagação e composição do espectro solar, com ênfase às propriedades cromáticas e geométricas das cores. Para finalizar, abordou o desenvolvimento das cores, assim como a reprodução e o controle dos pigmentos nas formulações das tintas. O gerente de desenvolvimento de mercados no exterior da Tego Chemie Jay Adams destacou novos aditivos reológicos para revestimento à base água. Conforme apontou, o uso desses aditivos permite ao formulador ajustar o fluxo do revestimento, de maneira a obter alta resistência, amplo poder de revestimento e brilho. Em sua fala, também discutiu as aplicações de espessantes para revestimentos à base água e destacou parâmetros de diversas tecnologias, sobretudo do tipo associativo.

Ao falar sobre a primeira tinta látex do país, desenvolvida em 1957, o presidente do Departamento de Meio Ambiente e Tecnologia da União Industrial Argentina Jorge Mazza fez uma breve retrospectiva do setor, com ênfase para as mudanças atuais da demanda argentina. Para ele, uma importante transformação da indústria local dá conta do advento do sistema faça-você-mesmo, pois a partir dessa nova postura, a indústria teve de se mobilizar para oferecer ao mercado instrumentos de fácil utilização e formulações de solventes atóxicos. A fim de melhor capacitar profissionais não-técnicos, o consultor Jorge Rusconi proferiu palestra sobre os métodos de busca, classificação e codificação dos insumos. Especificações e seleção de fornecedores foram alguns dos temas abordados.

Durante a realização do congresso, o entra-e-sai era freqüente. Nem mesmo a fala dos convidados estrangeiros conseguiu abafar o toque constante dos celulares. Alguns respeitaram a ocasião e saíram do local, enquanto outros atenderam a seus telefones no próprio auditório, dando uma amostra da postura da indústria local.

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