Apesar da automação de um sistema de resfriamento poder ser feita por qualquer empresa especializada, o fato de um tratador de água possuir um sistema próprio facilita a vida do usuário, segundo Aguiar. “A lógica do sistema será mais apropriada ao tratamento, por incluir o conhecimento químico e as necessidades da operação”, afirma. Aliás, a outra concorrente, a GE Water Technologies, conseguiu unir esses dois casos: por pertencer ao grupo General Electric, a empresa aproveita as sinergias com o braço específico de automação do grupo americano, a GE Fanuc Automation. Em processo de aperfeiçoamento de sistemas oriundos da Betz, como o Pacesetter Platinum, de controle de dosagem, e com softwares, como o Insight, de supervisão de operação à distância, a empresa pretende intensificar a “automação da água”.

De acordo com o gerente de marketing para América do Sul, Eduardo Pavani, o Insight, com uso tanto para o controle da área de utilidades como para processos industriais, é um sistema de monitoramento remoto e de diagnose criado para proteger os ativos, combinando monitoramento via web, pacotes de automação padrão, de tratamento químico e o programa de serviço da GE no site. Cuca Jorge
Pavani: Ge aperfeiçoa automaçao vinda da Betz

Já o PaceSetter Platinum funciona como um sistema de automação e gerenciamento de dados que otimiza a dosagem de produtos químicos, controla o processo e comunica-se diretamente ao sistema de controle da planta. Havendo alteração na água, as dosagens são alteradas. O sistema VerifeedTM, também parte do pacote, verifica continuamente o tratamento, para evitar a subdosagem ou sobredosagem de produtos químicos. “Estamos implementando essas ferramentas no Brasil, fazendo os ajustes para operar com as variáveis da água local”, diz.

Dióxido de cloro?Os aperfeiçoamentos no tratamento de água para torres de resfriamento não se resumem ao campo do controle e automação. Na parte química do processo, ainda o coração do tratamento, também há movimentações interessantes no mercado. 

Uma delas, e com potencial para provocar discussão técnica, é o uso de opções desinfetantes para combater o crescimento microbiológico na água. Aplicação usual do gás cloro ou do hipoclorito de sódio, as experiências pontuais no Brasil com o dióxido de cloro em torres de resfriamento têm despertado o interesse em novos negócios por parte dos fornecedores da tecnologia, mas também o ceticismo de alguns tratadores.   Cuca Jorge
Dixódo de cloro na Recap: economia de 20 mil 

O apelo principal do dióxido de cloro é o seu alto poder de desinfecção oxidante, com capacidade de controlar além de algas e microrganismos, também nitrogênio amoniacal, ferro, manganês e fenol, entre outros contaminantes. Também pesa a seu favor o fato de ele agir de forma estável independente de pH, reduzindo o consumo de insumos para correção. E isso somado a outra característica importante: ele não reage com a água, como o cloro ou o hipoclorito, permanecendo como um gás dissolvido. Já os outros dois desinfetantes formam o ácido hipocloroso (HClO), que apesar de ser o agente de desinfecção pode ser dissociado em íon hipoclorito (não desinfetante) e ainda reagir com compostos orgânicos, amônia e fenol, formando subprodutos indesejáveis, como organoclorados em geral, clorofenóis, trialometanos ou as cloroaminas, além de também gerar mau odor e variação de cor.

Esses atrativos fizeram algumas indústrias importantes passarem a empregar a tecnologia em seus sistemas de resfriamento. O caso mais emblemático ocorre na Petroquímica União (PqU), em Mauá-SP, que utiliza há cerca de três anos, com tecnologia a partir do clorito de sódio, dois geradores de dióxido de cloro, um de 1,5 mil g/hora e outro de 6 mil g/h, para duas torres de resfriamento. Um outro caso ocorre na refinaria vizinha Recap, que passou a empregar o dióxido de cloro em sua ETA 1, responsável pelo abastecimento de suas torres de resfriamento. O fato de serem empresas vizinhas não é coincidência: ambas utilizam a poluídissima água do Rio Tamanduateí, com grande concentração de contaminantes orgânicos (ver QD-426, pág. 22). A PqU usa o sistema porque recebe água da ETA 2 da Recap, não coberta pelo dióxido de cloro na refinaria.

O dióxido de cloro é obtido por várias rotas químicas, mas duas delas são mais importantes, abundantes e viáveis comercialmente: a partir da reação do clorito de sódio com ácido clorídrico ou, então, por meio do ácido sulfúrico com uma solução de clorato de sódio e peróxido de hidrogênio, esta última tecnologia exclusiva da EKA Chemicals. Por ser um gás verde e amarelo muito instável, solúvel em água mas nesse ambiente estável por poucos dias, ele não pode ser armazenado ou comprimido e precisa ser gerado no local da aplicação por geradores específicos. Em concentrações acima de 300 g/m3 corre risco de explosão.

A tecnologia do clorito de sódio é dominada e fornecida principalmente pela Clariant, produtora do insumo principal em Suzano-SP. É inclusive a empresa que fornece para os dois casos citados: na PqU em contrato com a GE Betz, responsável pelo tratamento da torre, e na Recap, de forma direta, tendo em vista que há cerca de dois anos a Clariant também passou a ser fornecedora de tratamento e serviços para água industrial, por meio de divisão própria.

Aliás, na Recap, segundo o gerente da área na Clariant, Magno Meliauskas, em breve o dióxido de cloro será empregado, em conjunto com o gás cloro, também para tratar a água da torre K318, de 8 mil m3 de recirculação. “Queremos elevar o ciclo de concentração da torre de seis para oito, em um primeiro estágio, e depois para dez”, diz. Segundo ele, o ciclo alto será possível em virtude da desinfecção mais enérgica do dióxido de cloro e ao fato de a tecnologia ser menos agressiva corrosivamente na metalurgia da torre. É bom lembrar que os seis ciclos de concentração se tornaram viáveis depois que o dióxido foi empregado na ETA, juntamente com o coagulante PAC, o que também gerou economia de 20 mil m3 por mês à refinaria, segundo Meliauskas.

Mesmo ainda com esses poucos exemplos em torres, os “vendedores” de dióxido de cloro acreditam na expansão do mercado. Fornecedores principalmente para branqueamento de celulose, aplicação responsável pelos grandes volumes de consumo, e também para desinfecção de água de bebidas (principalmente cervejas), as empresas do ramo confiam no mercado de saneamento em geral, e no de torres de resfriamento em específico, como futuros bons compradores.

Além da Clariant, que pretende aos poucos expandir sua tecnologia de clorito de sódio a seus novos clientes em água, a Eka Chemicals, detentora da tecnologia Purate, e a Prominent, fornecedora de geradores para os dois tipos de dióxido de cloro, são os maiores exemplos dessa confiança. No entendimento de Gilmar Avelino Pires, gerente geral da alemã Prominent, com subsidiária em São Bernardo do Campo-SP, nos próximos três anos haverá um boom do uso em torres de resfriamento. Cuca Jorge
Gilmar acredita no potencial do potencial do resfiamento

Fornecedor principal dos geradores, inclusive responsável pelos três em operação em Mauá-SP e por mais de 140 unidades em outras aplicações pelo Brasil (50% em indústria de bebidas e o restante em frigoríficos e saneamento), o gerente da Prominent acredita que é uma questão de tempo para o mercado compreender as vantagens em comparação ao cloro, principalmente em grandes consumidores de gás cloro, como indústrias petroquímicas.

Além da segurança de manipulação, motivo que levou a Sanepar, companhia de saneamento do Paraná, a fazer a troca do gás cloro em regiões de alta densidade populacional, Avelino cita como atrativos a eliminação de uso de barrilha para controlar o pH, como ocorre com o concorrente tradicional, e da redução de consumo de outros produtos, como biocidas.  “Quando há variação de pH, com o cloro é necessário dosar mais biocidas”, diz. Segundo ele, a Prominent já vende muito para uso em torres de petroquímicas e em usinas térmicas, em países europeus, sobretudo na Itália.  Cuca Jorge
Gobbi: dióxido de cloro não é o salvador da pátria

 

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