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Ilustração: Martinez

Produtos de álcool vivem fase de euforia

Boa aceitação dos carros multicombustíveis e perspectivas otimistas na exportação de álcool e de açúcar abrem caminho para investimentos

Marcelo Fairbanks

O início do ano não foi dos melhores para o setor sucroalcooleiro. O aumento da produção de cana-de-açúcar e seus derivados não foi acompanhado pelo consumo: a frota de carros movidos a álcool envelhecia, sem renovação, as vendas de açúcar se mantinham estáveis, com poucas possibilidades de expansão, pois prejudicadas pelas barreiras erguidas pela União Européia. Para piorar, a safra na região Centro-Sul deveria começar em março, mas foi atrasada pela ocorrência de fortes chuvas, capazes de prejudicar a qualidade da matéria-prima do setor.

Mas, do limão surgiu a limonada. A atraso na entrada da safra deste ano permitiu consumir o estoque de passagem vindo de 2003, estimado em um mês de demanda interna brasileira, ou seja, aproximadamente 1 bilhão de litros, que representava um custo a ser carregado pelos produtores, além de pressionar para baixo o preço do álcool. Iniciada com atraso e com perdas de produtividade, a safra atual mostra poder recuperar-se e até superar a do ano anterior, de 15 milhões de m³.

O excesso de álcool, porém, já não representa risco nenhum para o setor. “As vendas de carros multicombustível e as perspectivas de exportação crescente, tanto de álcool, quanto de açúcar, afastam qualquer nuvem negra do horizonte”, comentou Antonio de Pádua Rodrigues, diretor-técnico da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Única), Estado que oferta 60% da produção etílica nacional. Segundo informou, os veículos que aceitam dois ou mais combustíveis (gasolina, álcool e gás natural, por exemplo) apresentam grande aceitação de mercado, chegando, em alguns modelos, a deter 37% das vendas. Como o diferencial de preços com a gasolina, ainda que se desconte o menor rendimento, é amplamente favorável ao uso do etanol hidratado, a antiga frota de carros movidos apenas com o álcool se mantém estável, afastando a hipótese de sucateamento. “Não temos como saber quanto do consumo do álcool deste ano foi para os multicombustíveis, até porque o uso de misturas do tipo ‘rabo-de-galo’ em carros a gasolina é grande, mas a demanda aumentou sensivelmente”, afirmou.

Também o aumento das exportações de álcool absorve maior volume. A previsão para 2004 aponta para a venda externa 600 milhões de litros além do volume negociado em 2003, chegando a 2 bilhões de litros, segundo Rodrigues. “Houve quebra de safra na Índia e, com a situação de preços baixos no Brasil e a alta da gasolina nos EUA, tornou-se viável exportar álcool para lá, mesmo bancando todos os impostos e sobretaxas”, explicou. Até 2007, espera-se que as vendas externas se estabilizem em torno dos 2 bilhões de litros/ano. Para 2010, a expectativa é de exportar 5 bilhões de litros.

Marcelo Fairbanks Plínio Mário Nastari, presidente da consultoria Datagro, é mais otimista. “As exportações de álcool devem se situar entre o mínimo de 1,87 bilhão e o máximo de 2,2 bilhões de litros neste ano, mais do que o dobro dos 910 milhões de litros de 2003”, afirmou. “Isso sem falar no Japão, que pretende incluir 2% de etanol na sua gasolina a partir de 2006.” 
Nastari: setor precisa manter estoque regulador

Também a Rússia sinaliza interesse em aderir ao Protocolo de Kyoto, motivo pelo qual também se tornará consumidora de álcool para redução da emissão de poluentes.

Os contatos com o Japão avançam com bastante cautela, principalmente quanto à logística da operação e o temor de depender de um fornecedor único. Embora se possa argumentar que o Brasil apresenta várias regiões, com diferenças marcantes de clima, assegurando o fornecimento, o ideal seria contar com uma rede de países produtores. Índia , Tailândia, África do Sul e Austrália, além de países da América Latina, são exemplos de produtores de cana-de-açúcar que tem atuação incipiente no mercado de álcool. “Esses países têm sua matriz de produção voltada exclusivamente para o açúcar”, explicou Nastari, que participa ativamente de seminários e palestras em vários locais do mundo. “O Brasil prova que a atividade pode ser muito mais rentável se houver o aproveitamento de todo o potencial da cana, ou seja, quando se faz açúcar e álcool e se gera eletricidade a partir dos resíduos.”

O consultor recomenda não ver a entrada desses países como aumento de concorrência, mas como garantia de oferta para os consumidores. “Além disso, só o Brasil possui área significativa para a expansão de canaviais, os demais países produzirão álcool com sacrifício da oferta de açúcar, cujos preços devem se tornar mais remuneradores, beneficiando também os produtores brasileiros, que têm custos baixos e capacidade de conquistar oportunidades de mercado.” A exportação açucareira motiva, principalmente, as usinas da região Norte-Nordeste, cuja oferta de sacarose (em parte aproveitada para álcool) cresceu 33% nos últimos dois anos. Segundo o especialista, a vantagem logística para exportação do Norte-Nordeste compensa a diferença de produtividade e custos em relação ao Centro-Sul do País, cujas usinas se situam longe da faixa litorânea.

Em artigo recente, escrito a quatro mãos com o físico José Goldenberg, Nastari evidenciou que a produção de álcool de cana segue perfeitamente uma curva de aprendizado. “Na fase atual, está sendo adicionado valor ao bagaço, pontas e palhas, agregando receita ao processo, que se torna cada vez mais competitivo”, comentou.

Apesar de todas as vantagens do álcool combustível, Rodrigues, da Única, aponta um problema grave: as diferenças entre o ICMS cobrado em cada Estado. “O álcool só é competitivo em São Paulo e nos outros Estados que cobram ICMS de 12%; nos demais o imposto varia de 22% a 31%, fazendo com que o álcool custe de 80% a 90% do preço da gasolina na bomba”, explicou. “É preciso uniformizar o tributo no País, no nível paulista.” Também a cobrança da Cide na gasolina dá algum fôlego para o etanol, que ainda não foi desonerado totalmente da incidência do PIS/Confis no âmbito das distribuidoras. “O governo federal ainda não implementou a lei que dá isenção, e os distribuidores têm de recolher 8,2% no hidratado”, criticou.

Garantia de abastecimento – Nos anos 1990, quando a atividade sucroalcooleira ainda era controlada pelo governo federal, houve séria crise de abastecimento de mercado, provocada pela má gestão de estoques. Como conseqüência, os consumidores passaram a preferir carros movidos a gasolina, prejudicando o setor. Até hoje, quando se fala em ampliação de demanda, muitos proprietários de carros a álcool franzem a testa.

“Não há mais razão para preocupação porque, depois da desregulamentação, o setor se organizou em torno de centrais de abastecimento e comercialização, capazes de garantir o atendimento da demanda”, afirmou Nastari. “O setor, hoje, prefere perder renda a deixar o mercado desabastecido.”

“Os produtores estão atentos às oportunidades e se preparam para atendê-las, tanto que há mais de 30 projetos de instalações novas para começar a produzir até 2007, apenas na região Centro-Sul, sem falar nas ampliações das usinas existentes”, afirmou Rodrigues. Para o diretor da Única, os preços atuais de R$ 0,75/l para o anidro e de R$ 25/t de açúcar são compensadores, mas precisam ter estabilidade.

Nastari confirma a estimativa de projetos em andamento, cuja conclusão é muito plausível durante os próximos três anos. Com base em modelo preditivo próprio, ele espera que o Brasil alcance a produção de 582 milhões de t de cana por safra até 2013, ante as 358 milhões de t em 2003, e a expectativa de 389 milhões de t para este ano.

Apesar da previsão, que elimina o risco de desabastecimento, Nastari ainda considera importante a criação de um mecanismo de regulação de mercado por meio de política de estoques, a ser mantido pelo próprio setor. “O governo não pode participar, porque comprometeria a entrada dos produtos brasileiros no mercado internacional”, explicou. Para ele, seria importante manter estoque regulador, pelo menos, equivalente a 30 ou 45 dias de consumo. Segundo afirmou, a capacidade física de estocagem já existe, pois as usinas sempre operaram com períodos de safra de 180 dias, mas precisavam suprir o mercado durante o ano todo. “Hoje a safra já passa de 200 dias, há ociosidade nos tanques”, afirmou. Porém, falta definir quem arcará com o ônus do carregamento do estoque regulador, questão a discutir na cadeia produtiva.

O estoque proposto por Nastari é mais ou menos igual ao excedente da safra do ano passado, que se revelou útil em face do atraso do início da safra deste ano. “No começo do ano, enquanto muitos produtores consideravam alto o excedente, eu afirmei que o volume existente, igual a apenas um mês de consumo, era até pequeno”, disse.

 

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