Recap trabalha para racionalizar o seu tratamento de água

Não é só no aspecto político que os colaboradores do pólo de Mauá estão se movimentando para tentar diminuir os riscos de um temido desabastecimento de água. Conscientes há algum tempo de que o preço e a pouca disponibilidade do insumo já são fatores de perda de competividade, visto que sua limitada fonte gera uma água até três vezes mais cara em comparação a dos outros dois pólos petroquímicos do País, os profissionais de Capuava se esmeram também tecnicamente para minimizar os impactos negativos. 

Responsável pelo tratamento e o abastecimento de água para as empresas do pólo, a Refinaria de Capuava (Recap), da Petrobrás, é o símbolo maior de todo esse esforço. Empenhada em reduzir o consumo e introduzir tecnologias para melhorar o gerenciamento da água, a Recap chegou até a criar recentemente um grupo de trabalho, o Gota (sigla de "grupo de otimização da água"), para coordenar a tarefa.

Apesar da má fama que os grupos de trabalho normalmente têm, este já demonstra bons resultados. Uma primeira conquista foi permitir à Recap não precisar mais utilizar a água potável comprada da Sama para diluir a empregada no processo de refino e em resfriamento. "Somos a única unidade do pólo que usa a água da rede concessionária apenas para uso humano", comemora o gerente da área de utilidades da Recap, Mauro Lopes. 

Os outros ganhos, para Lopes, virão como conseqüência dos trabalhos. "Criamos um grupo multidisciplinar que tem sugerido não só o estudo de tecnologias como técnicas para conservação, reuso e reciclagem de água", afirmou. Um ponto importante e já em andamento são as auditorias de possíveis focos de desperdício, tanto nas áreas industriais como prediais.

Mas o Gota é só a mais nova das ações da Recap em água. O principal mesmo, em termos de otimizações, vem sendo feito nas estações de tratamento. Também não é para menos, pois delas dependem todas as onze empresas do pólo e trata-se de tarefa difícil. Como já foi mencionado, o Rio Tamanduateí, de onde a Recap tem outorga para captar 1.300 m3/hora, é constituído em cerca de 75% de sua vazão de esgotos in natura, lançados logo no início de sua nascente, situada na gruta de Santa Clara, em Mauá, a apenas 5 quilômetros da refinaria. 

CUCA JORGE
Lopes: refinaria não usa a rede da concessionária

A Recap divide a sua operação em duas ETAs (estações de tratamento de água), alimentadas também por duas represas que recebem a "água" do rio. A represa 2 atende a ETA 2, responsável pelo abastecimento da PQU, Polietilenos União, White Martins e União Química. Nela são tratados 750 m3 por hora. Já a represa 1, que recebe água da represa 2, alimenta a ETA 1, por sua vez responsável pela produção de 450 m3 por hora que abastecem a própria Recap, a Oxiteno, a Polibrasil e a Oxicap.

O trabalho para administrar a poluída água do Tamanduateí, rio classe 4, é evidente. Por receber não só efluentes domésticos, mas também industriais, o grau de complicação aumenta. Há contaminantes extremamente difíceis de serem tratados, como a amônia, resultante dos descartes domésticos, que chega a teores elevadíssimos de até 130 ppm e em média fica em torno de 70 ppm. O ideal seria o teor de amônia estar próximo de zero, para não afetar com sua alta corrosividade os equipamentos. O outro complicante com importância é a elevada contaminação microbiológica, com DBO de 150 mg/l. 

Essa crescente contaminação orgânica faz a refinaria precisar muitas vezes renovar-se em tecnologia. Um exemplo mais recente ocorreu porque o gás cloro normalmente utilizado para desinfecção e clarificação da água de entrada das estações começou a não funcionar a contento. A saída foi buscar um oxidante mais forte. Ainda em teste, uma alternativa com boa aprovação, e provavelmente a ser adotada oficialmente, é o dióxido de cloro. 

Especificamente na ETA 1, onde são tratados 450 metros cúbicos, a Recap instalou um gerador de dióxido de cloro líquido, da empresa Prominent, o qual produz o oxidante a partir de ácido clorídrico e clorito de sódio. O produto passou a ser empregado em conjunto com o coagulante PAC (policloreto de alumínio), fornecido pela Clariant, substituto do sulfato de alumínio com a vantagem de ser menos dosado (1/3 do outro) e de aglutinar melhor os sólidos suspensos. "Ganhamos uma água de melhor qualidade, elevando os ciclos de concentração das torres, diminuindo a necessidade de limpeza de trocadores de calor e gerando menos lodo", lembrou Mauro Lopes.

CUCA JORGE O dióxido de cloro e o PAC vão permanecer em teste na ETA 1 até o fim do ano, para completar um estudo de sazonalidade de operação. Isso se faz necessário porque a Recap já percebeu que em períodos de estiagem o gás cloro ainda é imbatível, época em que o teor de amônia sobe muito por não ser diluído na chuva. "O dióxido de cloro não reage com a amônia", lamenta o coordenador da área de sistemas de água da refinaria, Alfredo Jardim. Apesar de preferir deixar de usar o cloro, que precisa ser transportado de caminhão desde Cubatão-SP (da Carbocloro Oxypar), representando mais custo e perigo logístico, o gás deve ser mantido no futuro para combater o indesejável contaminante. "Pelo menos quando não chover", completa.
Jardim aprovou o dióxido em períodos de chuvas

Os técnicos da Petrobrás prometem mais novidades para melhorar o tratamento de água de Capuava. É uma meta do grupo de estudo Gota incluir outras tecnologias nas duas estações. Estão sendo feitos estudos de custo-benefício, por exemplo, das tecnologias de desinfecção por raios ultravioleta ou por geração de ozônio. "A idéia é complementar com novas técnicas o que já desenvolvemos até agora, para ficar cada vez menos dependentes de situações externas e garantir água para as futuras ampliações do pólo", diz Mauro Lopes. 

Ozonofiltração - Esse propósito da Recap tem atraído o interesse de muitos fornecedores de tecnologia, que são chamados para apresentar soluções para otimizar o tratamento. Uma dessas empresas é a fornecedora de geradores de ozônio e de flitros especiais Okte, de São Paulo. Um projeto da empresa apresentado na refinaria contempla o pré-tratamento de 1.500 m3/hora - 1.200 m3 oriundos do Tamanduateí e 300 m3 de reuso do efluente da Recap - da água que segue para as lagoas. CUCA JORGE
Dióxido de cloro na Recap: só não reage com amônio

Segundo explica o diretor da Okte, Olli Kallervo, a engenharia envolve seis colunas de oxidação alimentadas com um gerador de ozônio de 250 kg/hora, complementadas com uma estrutura de concreto de filtros de areia por gravidade. Esses filtros foram adaptados recentemente pela Okte para uso conjugado com ozônio, a partir de um projeto antigo da empresa americana Permutit, dando origem a uma tecnologia denominda pela empresa como ozonofiltração. Trata-se de filtro autolavável que trabalha continuamente, sem válvulas, funcionando por meio de sistema de sifão.

CUCA JORGE Kallervo afirma que a vantagem da possível aplicação de um sistema de ozônio, em uma água de alimentação problemática como a do Tamanduateí, é seu alto poder oxidante, maior do que quase todos os disponíveis. Além de remover vários poluentes, desde compostos orgânicos complicados, como fenóis e detergentes (este último um problema na Recap), até inorgânicos, como cianetos e nitritos, o ozônio também serve como auxiliar na microfloculação, gerando flocos que depois são retidos nos filtros de areia. 
Kallervo tenta vender tecnologia de ozonofiltração

Também conta a seu favor a redução de trialometanos, gerados por seu oxidante concorrente, o cloro. Essa amplitude de atuação da ozonofiltração da Okte fez a empresa também ofertá-la em unidades pequenas, para potabilização de água em comunidades.

   

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