Esses investimentos seriam paralelos a outros para expansão da rede coletora de esgoto (atualmente 60% da cidade é atendida) e em um coletor-tronco (que levaria parte do esgoto para um interceptor que segue até a ETE ABC). "Todas essas metas foram estabelecidas em comum acordo e com base nas necessidades das petroquímicas, e precisarão ser atendidas em respeito ao contrato de concessão [de 30 anos]", explica o diretor da Ecosama.  CUCA JORGE
Rosa: se optar pelo reuso,pólo não dependerá só de um fornecedor

A outra observação de que o projeto ainda não está muito definido também recebe resposta do diretor Dagoberto Rocha. Segundo ele, após a liberação do dinheiro da Caixa, a chamada estação de produção de água para fins industriais (EPAI), da Ecosama, pode ser construída em 18 meses. A rapidez se explica pela não-complexidade da obra. Ela contemplará apenas o tratamento primário, com gradeamento fino, e o secundário (biológico), este um sistema diferente com aeração prolongada com balancins móveis, chamado Biolac e da empresa americana Parkinson. 

CUCA JORGE As obras demorariam um pouco mais caso seguissem o projeto original acordado no contrato de concessão. Para ganhar a concorrência, a Ecosama precisou ofertar um sistema que tivesse também a preparação final da água para uso industrial, visto que a prefeitura de Mauá já havia concebido o projeto de concessão com a idéia de deixá-lo viável por meio da venda da água industrial. Isso fez o projeto englobar ainda um tratamento físico-químico e o polimento final com osmose reversa para adequar a água para alimentação de caldeiras. Com a mudança de posicionamento do pólo, que passou a achar por bem comprar apenas o efluente secundário, a Ecosama precisou diminuir o espectro de tratamento da estação.
Rocha: reuso de Mauá sairia mais em conta

Com a água de reuso de Mauá o pólo não precisa fazer investimentos, à exceção do polimento final que prefere continuar a fazer na Recap. Inclusive se optasse pela opção anterior de comprar a água pronta, pelo menos de acordo com as informações do diretor geral da Ecosama, poderia até ter vantagens. Enquanto o efluente secundário da Sabesp tem preço estimado em R$ 2,50 o m3, Rocha afirma que venderia a água pronta para uso industrial, já desmineralizada, por R$ 2,20/m3. Já o efluente secundário, que está nos planos da petroquímica, a Ecosama acredita vender por R$ 1,20. Um dos motivos do baixo preço é a logística. "Estaremos a 200 metros da Recap", diz.

Cara e problemática - Os impasses para a adoção da água de reuso pela petroquímica paulista não terminam pelos desencontros institucionais. Há ainda um outro aspecto, de ordem política, que deve ajudar a aumentar o imbróglio. Com a recente confirmação de que o marco regulatório nacional do saneamento deixou a titularidade do sistema nas mãos do município, a PQU pode encontrar problemas caso prefira recorrer à Sabesp. O motivo é óbvio: como quem tem o controle sobre os serviços de água e esgoto no pólo é a prefeitura de Mauá, esta tem o poder de vetar a negociação entre a estatal e as empresas. Isso sem falar que pelo contrato público que originou a Ecosama, apenas a concessionária pode vender água de reuso no município.

Não fica difícil, portanto, imaginar mais obstáculos para a concretização dessa que é uma saída inteligente para o gerenciamento da água, sobretudo em uma região problemática como São Paulo. Utilizar água potável para fins industriais, como hoje indiscriminadamente se faz (inclusive no pólo, que ainda precisa para diluir e acertar a qualidade final da água recuperada do Tamanduateí), torna-se no mínimo um contra-senso. É evidente que por princípio a água foi potabilizada para permitir seu uso por seres humanos e não por máquinas. 

Até mesmo o ponto de vista oficial da PQU é optar pelo reuso em conseqüência de seu caráter "ambientalmente mais correto", segundo afirmou Jorge Rosa. Isso porque, ao se pensar em termos de custos, trata-se de opção mais cara. Conforme diz, para realizar o tratamento complementar do efluente, o custo operacional se elevaria em até 70%. No caso da água de reuso da Sabesp, o problema seria maior, porque viria de esgotos domésticos e industriais de várias procedências, com uma infinidade de contaminantes remanescentes. O da Ecosama, em uma primeira fase, seria o mesmo e ruim oriundo do Tamanduateí, mas com o passar do tempo ao provir de outros esgotos também complicaria o polimento na Recap.

Pela lógica exclusiva do custo, a propósito, o preferível para o pólo seria continuar do jeito atual. Se não houvesse o risco iminente de desabastecimento, seria melhor manter a compra de água potável da Sama (companhia pública de saneamento de Mauá) por R$ 3,50 o metro cúbico (até há pouco tempo era R$ 4,50), utilizada para ser misturada à água tratada do Tamanduateí em percentuais desde 10% no verão, com chuvas, até 30% no inverno e, em casos de maior estiagem, em até 50%. Além de, no final das contas, ficar mais barata, por não demandar mais obras não precisaria do longo prazo de até 15 anos para amortizar o investimento, como ocorrerá com o reuso.

Aquapolo é back-up - Mesmo não se preocupando com o custo alto do reuso, a boa vontade ambientalista do pólo também tem limites. Caso os enfrentamentos institucionais se agravem, a necessidade de encontrar uma nova fonte de água, já que em breve a PQU pretende expandir sua produção de 500 mil t de eteno para 700 mil t, deve fazer a escolha recair sobre o tradicional projeto Aquapolo. "Se o reuso não sair, começamos imediamente as obras", avisa Jorge Rosa. O projeto, segundo ele, já está com as duas licenças ambientais aprovadas (prévia e de instalação), com a engenharia pronta e, melhor ainda, com o financiamento de R$ 40 milhões garantido. Isso sem considerar que a outorga de três anos para captação, concedida pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), já foi renovada uma segunda vez, desde o nascimento do projeto há cinco anos. 

O Aquapolo proporciona uma água até mais econômica, a um custo em torno de R$ 1,50 o metro cúbico, e suficiente para as ampliações, pois a outorga é para 500 litros por segundo. A obra também não seria complicada, poderia ser feita em um ano por tratar-se apenas de uma adutora com tubulação de 28 km, nas faixas de servidão dos dutos da Petrobras, até as estações de tratamento da Recap. Segundo Rosa, o Aquapolo é uma opção substituta concreta, apesar de muitos o considerarem engavetado. Prova é já terem sido gastos nele, com a engenharia e as licenças ambientais, cerca de R$ 2,5 milhões. 

Mas há quem sugira no mercado de que o Aquapolo não é tão concreto assim. Pelo contrário, seria a dúvida quanto a seu futuro a motivadora dos planos do pólo petroquímico em adotar a água de reuso. Gente com experiência no mercado de saneamento básico comenta que a viabilidade do projeto corre risco em virtude da crescente escassez de água para abastecimento na região metropolitana de São Paulo. Isso significa que as necessárias outorgas para exploração do trecho do Tietê, concedidas pelo DAEE, podem não ser facilmente renovadas. Esse local de captação poderia vir a ser utilizado pelo Estado a qualquer momento e a petroquímica perderia seu investimento. 

Esse risco aventado no mercado tem sentido, pois sabe-se que a região metropolitana de São Paulo precisa trazer água de regiões cada vez mais longínqüas e além disso há previsões sérias de que em 2010 a oferta já não será suficiente para atender todo o consumo paulista. Embora oficialmente o pólo não considere a hipótese, visto que segundo Jorge Rosa a Sabesp não se interessa por esse trecho do Tietê para potabilização, o afã em adotar a água de reuso pode sugerir o contrário. 


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