Cuca Jorge

Falta de água complica os planos do pólo paulista

Com perspectivas de escassez a curto prazo, o pólo petroquímico de Capuava entra em clima de disputada para decidir se utiliza água de reuso ou se inicia as obras Aquapolo

Marcelo Furtado

Acostumado a processar um sem-fim de insumos químicos, muitos deles complexos e perigosos, pode soar contraditório saber que o pólo petroquímico de Capuava, em Mauá-SP, tem como principal problema garantir-se do abastecimento da simples e elementar água. Mas é exatamente isso o que ocorre à central de matérias-primas, a Petroquímica União (PQU), e às demais dez empresas do pólo, que temem em breve ficar sem fornecimento suficiente para seus planos de expansão e até mesmo para tocar o dia-a-dia em uma indesejável pespectiva de estagnação. 

Atualmente, o pólo baseia seu abastecimento de água na Refinaria de Capuava (Recap), da Petrobrás, responsável pelo tratamento do manancial captado do Rio Tamanduateí, que perpassa seu terreno e do qual possui outorga para retirar 1.300 metros cúbicos por hora. O problema é que cerca de 75% da água captada para abastecer as petroquímicas se origina do esgoto da cidade de Mauá. Com o firme aceno do saneamento básico chegar à região, fato próximo de ocorrer em virtude das metas de universalização que a nova concessão privada de Mauá (Ecosama) precisa cumprir sob contrato, o rio deixará de ter vazão para atender a demanda atual das empresas, visto que não receberá mais os despejos domésticos e industriais hoje lançados indiscriminadamente.

"O conselho de acionistas da central quer uma definição ainda neste ano sobre que plano vamos colocar em prática para garantir o abastecimento", afirmou o gerente de projetos da PQU, Jorge Rosa. E é para atender a essa urgente imposição que os encarregados da tarefa estão próximos da solução. Em um trabalho liderado pela PQU, principal interessada por ser responsável pelo consumo de 680 m3/h de água, de um total de 1.100 m3/h consumidos no pólo, em breve será definido um novo projeto de abastecimento de água. A escolha recairá sobre uma das duas seguintes opções: o comentado projeto Aquapolo, que propõe trazer água do Rio Tietê, coletada em seu trecho de Suzano-SP; ou então a opção pela água de reuso, isto é, recuperada de esgoto e fornecida por companhias de saneamento.

Mas a definição está longe de ser apenas uma simples escolha entre dois projetos viáveis. Por serem obras complexas e milionárias, numa região com um dos mais caros metros cúbicos de água do Brasil (média de R$ 4), elas devem gerar ainda muita polêmica. A maior controvérsia permeia justamente a opção em que o pólo mais se inclina a adotar, a de água de reuso, que tem a possibilidade de ser ofertada por duas companhias de saneamento: pela Sabesp, por meio de sua Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) ABC, e pela concessionária privada de serviços de esgoto de Mauá, a Ecosama, por meio do projeto Sanear, que contempla a construção de uma estação de tratamento ao lado da Recap, em terreno já adquirido.

Briga no reuso -
Há uma disputa de bastidores atrasando a tomada de decisão pelo reuso. O impasse começou quando a PQU decidiu, depois de estudar as duas possibilidades, a não depender apenas de um fornecedor. "Entendemos ser desconfortável para o pólo ficar na mão de uma única fonte", afirmou o gerente Jorge Rosa. A posição da PQU foi formalizada por meio de uma carta de intenções enviada à Ecosama. A formalização aí foi necessária porque quando houve a concessão dos serviços de esgoto em Mauá, cuja concorrência pública em 2002 foi vencida pela construtora baiana Gautama, houve uma espécie de entendimento mútuo de que o pólo compraria a água de reuso da cidade.

Essa nova posição liderada pela PQU não agradou os planejadores da prefeitura e da concessionária de Mauá. É simples entender o descontentamento, visto que a concessão foi montada em cima da confiança em ter o pólo petroquímico como fiel cliente e, sobretudo, como principal viabilizador financeiro da obra. A venda da água de reuso daria o retorno sobre o investimento necessário para promover a universalização do tratamento de esgoto da cidade em um prazo não muito longo. CUCA JORGE
Rio Tamanduateí passa pela Recap, mas vai perder vazão

Embora o pólo não afirme desprezar a água da Ecosama, a menção a um outro novo ponto levantado pode deixar dúvidas. Isso porque faz parte também da nova intenção do pólo bancar os investimentos para viabilizar o outro projeto aventado em reuso: a compra do esgoto da Sabesp. Trata-se de obra avaliada em cerca de R$ 50 milhões, que consiste em construir uma tubulação de 14 km, interligando a ETE ABC situada no bairro do Sacomã, em São Paulo, com a Refap, e ainda uma estação elevatória na unidade da Sabesp. "Temos várias opções de financiamento", diz Jorge Rosa. 

A companhia de saneamento paulista, aliás, é a que tem a posição aparentemente mais passiva na história. Seu único trabalho seria permitir ao pólo buscar e comprar seu esgoto secundário, aquele que passou por tratamento preliminar com grades e caixa de areia, para remoção de sólidos grosseiros, seguido por uma decantação primária para adensamento de sólidos em suspensão, e por um tratamento biológico em tanques de aeração antes da decantação final para clarificação. Apenas vender esse esgoto é um ótimo negócio. Além de não precisar investir, e também não polir o efluente para uso industrial (o que será feito na Recap), a Sabesp venderá por cerca de R$ 2,50 o metro cúbico do esgoto tratado, que até então vinha sendo descartado no rio.

Mesmo sem o pólo afirmar preferir o reuso da Sabesp, o simples surgimento dessa opção pode indicar uma tendência. Apesar de precisar investir, ao contrário do caso da Ecosama que bancaria suas obras com financiamento da Caixa Econômica Federal, as indústrias garantiriam com a ETE do governo do Estado água por muito tempo, segundo explica o gerente de projetos da PQU, Jorge Rosa. Na sua estimativa, quando todos os esgotos da região do ABC estiverem sendo tratados na ETE, haverá uma vazão de 3 m3/s, o que dará de sobra para a demanda atual do pólo (350 litros/s) e para a estimada na expansão (0,5 m3/s). E o melhor é saber que a universalização dos serviços de coleta e tratamento de esgoto da Sabesp na região está em curso. Atualmente já é tratado cerca de 1 m3/s e até o final do ano estima-se que esse número deva dobrar. 

A mesma confiança na disponibilidade de água de reuso da Sabesp Jorge Rosa não demonstra pelo da concessionária de Mauá. Para ele, além do fato de o projeto ainda estar no papel, para chegar às necessidades advindas das futuras ampliações do pólo a Ecosama precisaria contar com 100% da rede coletora de esgoto na cidade, o que de acordo com o gerente ainda está longe de ocorrer e demanda alto investimento. "Em virtude da nossa pressa em resolver o problema, entendemos que a opção ainda não se mostra muito concreta", diz.

A opção de Mauá - Não tem o mesmo posicionamento da PQU, logicamente, a Ecosama. De acordo com seu diretor geral, Dagoberto Antunes da Rocha, o projeto acordado com a prefeitura para tratar o esgoto da cidade, denominado Sanear, está em fase final de liberação de recursos na Caixa Econômica Federal, em um montante de R$ 60 milhões. 

CUCA JORGE A quantia será empregada para a construção da estação de tratamento de esgoto para fins industriais, situada ao lado da Recap, estrategicamente localizada em um terreno de 45 mil m2 logo após o ponto de captação da refinaria no Rio Tamanduateí. 
ETAs na Recap tratam 1.200 m3 /h da água poluída do rio 

A estação terá capacidade total de esgotamento para 1.080 litros por segundo, meta a ser atingida em sete anos, com a coleta ampliada do esgoto da cidade. Nos três primeiros anos, segundo Rocha, há possibilidade de se atingir 530 litros/s, a partir de uma primeira fase operando a 350 litros, justamente para atender à demanda atual do pólo. 

   

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