Jogo sem regras - Há consenso quanto a falta de investimentos no setor químico no Brasil. O relatório anual da Abiquim aponta o reflexo disso no novo recorde de importações de produtos químicos, que chegou a US$ 11 bilhões em 2003, a despeito de ter sido um ano de baixa atividade econômica. Também são unânimes os empresários ao reclamar uma profunda reforma tributária, um sistema jurídico eficaz e célere, associado à melhor oferta de serviços públicos, a começar pela segurança. Além disso, faltam regras claras em especial nos setores ligados à infra-estrutura. Some-se ao quadro o pífio desempenho da economia nacional. "Nesse cenário vai ser muito difícil atrair ou mesmo manter os investimentos internacionais no País", lamentou Pedro Wongtschowski, diretor-superintendente da Oxiteno. CUCA JORGE
Wongtschowski: investidor global só pensa no Oriente

A petroquímica, em especial, perdeu atratividade. "Há vários projetos que não saem do papel por falta de definição quanto ao preço dos insumos, garantia de suprimento e de regras claras de operação", comentou. A oferta local de nafta tende a diminuir, pelos motivos já expostos, e a possibilidade de ampliar o uso do gás natural depende de suprimento plausível. "Santos poderá ser uma alternativa, desde que se desenvolva um mercado para mais ou menos 50 milhões de m³/dia de metano que seriam processados para se obter o etano necessário para um cracker novo", disse. 

Estrategicamente, Wongtschowski recomenda que as empresas nacionais busquem oportunidades de crescimento em outros países, como a Venezuela e no México, apesar dos riscos envolvidos em cada caso. A própria Oxiteno comprou a mexicana Canamex, com linha similar de produtos. Uma outra estratégia seria a de direcionar a produção local para produtos de maior valor agregado, abastecendo o mercado nacional com commodities importadas. "Economicamente até seria viável, mas é medíocre para o desenvolvimento nacional", avaliou.

Em contatos com vários investidores estrangeiros, ele tem notado um profundo desinteresse por temas da América Latina. "Só se fala em Oriente Médio e Extremo Oriente, os latino-americanos estão fora da pauta", lamentou. 

O desempenho dos negócios no mercado interno apresenta uma ligeira recuperação neste primeiro semestre, em relação ao semestre anterior. "É preciso considerar que o primeiro semestre de 2003 foi atípico, pois muitas empresas formaram estoques gigantes, temendo os efeitos da invasão americana no Iraque, que não se confirmaram", explicou Armando Guedes Coelho, da Suzano. Estocados, esses clientes reduziram as compras nos meses seguintes, abalando os resultados do ano anterior. Pelo menos 2004 está mais estável, com perspectivas de melhora no segundo semestre.

"A instabilidade dos preços do petróleo gera intranqüilidade, mas deve chegar a um ponto de equilíbrio, embora em um patamar elevado", considerou. Como o mercado interno se mostra pouco disposto a aceitar os repasses de custos, a indústria petroquímica trata de assimilá-los da maneira possível. "Preferimos perder margem do que perder vendas." Ele estima uma defasagem média de preços de resinas termoplásticas em relação à variação de custos da ordem de 10% a 15%, que precisaria ser repassada para a cadeia produtiva.

Em âmbito mundial, Coelho salienta que a China decidiu brecar o ritmo alucinante de desenvolvimento econômico, enquanto os EUA apresentam modesta recuperação, porém ameaçada pelos gigantescos déficits fiscal e comercial. Além do preço alto do petróleo, esses fatores combinados afetam diretamente a previsão de um fly up (elevação mundial de preços e margens) com um pico no próximo ano. "É provável que o fly up seja adiado em seis meses, e que seu pico não seja tão alto", avaliou. "Porém, talvez a sua duração seja maior, pois os investimentos em novas capacidades demorarão mais para ser ativados."

Para ele, um período com preços mais altos, embora não explosivos, e de duração maior poderia ser melhor para o setor. "Flutuações exageradas de preços provocam algumas empresas a fazer besteiras que acabam, depois, abalando a rentabilidade do negócio todo", afirmou. 

A Rio Polímeros sofreu, no início do ano, uma greve de 45 dias referente ao setor de construção civil no Estado do Rio de Janeiro. A retomada das obras foi lenta, mas já voltou ao ritmo habitual. "A partida da planta está prevista para fevereiro próximo, mas as unidades só devem estar plenamente em regime a partir de maio, com todos os compromissos de desempenho operacional verificados. "Temos financiadores internacionais que exigem cuidados elevados com a condução das operações", explicou.

A Polibrasil (50% Suzano, 50% Basell) comemora os bons resultados da fábrica nova no pólo paulista, em Mauá-SP, para 300 mil t/ano de polipropileno. Segundo Coelho, com apenas mais US$ 10 milhões, será possível chegar a 360 mil t/ano, desde que se tenha suprimento de propeno. A unidade de Duque de Caxias também poderá ser ampliada para 300 mil t/ano, com investimento de mesmo porte, mas depende igualmente da oferta de propeno. "Se a Petrobrás não puder nos suprir, poderemos até importar o propeno complementar para essas unidades", disse. Isso seria viável, segundo ele, porque o investimento adicional é muito pequeno em relação ao acréscimo de produção.

A unidade de polipropileno na Bahia segue em operação, garantindo o abastecimento da Região Nordeste, que representa 15% da demanda total interna. "Somos extremamente competitivos na região, que não tem oferta de propeno para ampliação ou construção de nova planta", afirmou.
Em compasso de espera fica o projeto de ampliação da Petroquímica União. "Ainda não foi resolvida questão do custo da matéria-prima, que a Petrobrás quer vender pelo preço que pagará pelo gás da Bolívia, ainda muito caro", explicou. O gás de Santos precisa de mais consumidores para tornar-se viável. "Aí temos aquela história do ovo e da galinha: sem oferta de gás, ninguém investe para consumir; sem consumo garantido, a Petrobrás não investe para produzir", lamentou. "Alguém vai ter que apostar primeiro."

A ampliação com base em cargas líquidas esbarra na dificuldade de suprimento de nafta, hoje integralmente fornecida pela Petrobrás à central paulista. "Quem quiser importar nafta precisa primeiro saber se o mercado consumidor vai pagar preços internacionais pelos produtos", afirmou Lauro Moreira, da Vitol. Embora seja grande supridor internacional, a empresa possui atuação modesta no Brasil. "Falta política de preços clara para o petróleo nacional e isso inibe investimentos", explicou. A Vitol está se preparando para atuar no mercado, tendo montado estrutura comercial com sede em São Paulo e mais duas filiais em operação. "Há outras filiais preparadas, mas ainda em espera", comentou.
Desde 2002, a Vitol realizou várias operações de importação de nafta, diesel e gasolina. "Inauguramos as importações privadas de derivados de petróleo em Suape (Pernambuco), São Luís, Vitória, São Sebastião, Santos e Paranaguá", disse, ressaltando ter usado sem problemas a estrutura logística da Petrobrás. "O Brasil tem carência de tancagem especializada para esses produtos", afirmou. Por isso, a Vitol tem cinco projetos de terminais marítimos para o País.

Com preços de derivados descolados da realidade internacional, a Vitol redirecionou negócios. Hoje ela compra excedentes de gasolina e óleo combustível da Petrobrás para vender em outros mercados. Além disso, exporta álcool combustível produzido no Brasil. "Não somos corretores, somos traders no sentido estrito, ou seja, assumimos os riscos das operações de comércio internacional", explicou.

Espremido do lado internacional pela escalada terrorista, que eleva a cotação do petróleo e, do lado interno, pela lição de casa adiada da instituição de marcos regulatórios críveis e de ambiente favorável ao desenvolvimento de negócios, a petroquímica brasileira se esforça para manter um ritmo mínimo de crescimento. Caso o País volte ao caminho do desenvolvimento, com taxas de expansão do PIB pelo menos compatíveis com o crescimento vegetativo da população, o consumo de produtos do setor exigirá ampliar importações e, talvez, motive a desatar os nós que impedem novos investimentos, sejam eles de ordem de estrutura de capital, sejam de regulamentação ou mesmo de oferta de matérias-primas. 

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