|
Quanto ao suprimento de insumos, Coelho é enfático: "se a Petrobrás não ampliar o fornecimento de nafta, ela matará a petroquímica dela dependente", afirmou. Ele explica essa dependência com base na história setorial. "A petroquímica dos EUA floresceu com o desenvolvimento da indústria automobilística nas décadas de 1940 e 50", disse. Na época, a tecnologia de refino era limitada na obtenção de gasolina, gerando grande quantidade de subprodutos. Com a evolução da demanda do combustível, as companhias investiram para criar o craqueamento catalítico fluido (FCC), para aumentar a recuperação de gasolina das frações mais pesadas da destilação. Como exemplo, ele cita o caso brasileiro, no qual estima que, para 1,7 milhão de barris de petróleo cru processados diariamente, sejam também craqueados 600 mil bpd nas unidades de FCC. A solução para o impasse, segundo o superintendente da Suzano Petroquímica, virá do desenvolvimento tecnológico da cadeia petrolífera. "Já começaram a aparecer inovações tecnológicas e conceituais que permitirão processar óleos pesados e, ao mesmo tempo, ofertar olefinas e aromáticos de possível uso petroquímico", afirmou. O modelo de negócios mais provável, para ele, seria a transformação das refinarias convencionais em clusters (agregados de empresas), nos quais seriam operadas de forma autônoma várias unidades de processamento, orientadas para cada corrente ou produto desejado. Segundo informou, há disponibilidade de cargas líquidas em vários lugares do mundo, incluindo condensados de gás natural e GLP, com custos favoráveis, ainda capazes de suportar o desenvolvimento de negócios petroquímicos. A Nigéria, por exemplo, tem excedentes de condensados. Outras regiões produtoras de gás podem instalar condensadores para retirar os componentes mais pesados. "Para bombear o gás a longas distâncias é preciso retirar a parte úmida", disse. Além disso, com o preço do barril superando os US$ 30 por barril, voltam a ser econômicos alguns campos menores de óleo, que geram produtos mais leves. Nos grandes centros, porém, há um estrangulamento no fornecimento de nafta. O parque mundial de refino não cresceu em capacidade física, mas em potencial de conversão em produtos leves. "Isso significa redução de volume de nafta disponível", confirmou.
Apesar de a nafta estar em patamar elevado de preços - chegou a US$ 380/t em abril, mas recuou para a faixa de US$ 350/t em junho - , Moreira considera que a diferença de preços com a gasolina ainda está muito grande, se comparada com médias históricas. "A gasolina no mercado internacional está cerca de US$ 60/t mais cara que a nafta", calculou. Isso reflete uma queda da atividade petroquímica mundial, resultante da decisão chinesa de frear o ritmo de desenvolvimento. Analisando a hipótese de especializar o processo de refino de petróleo de modo a integrá-lo à petroquímica, Moreira entende que isso está em andamento, mas terá limites. "Funciona bem quando a refinaria estiver situada perto de pontos de grande consumo de gasolina, energia e derivados petroquímicos", considerou. Atualmente, a demanda pelas frações leves é determinada pelo consumo norte-americano de gasolina. Há outro ponto formador de preço no Oriente (Coréia/Japão), mais direcionado para nafta petroquímica. No caso brasileiro, a demanda atual por nafta petroquímica se aproxima de 10 milhões de t/ano, para um suprimento local de 6 milhões a 7 milhões de t/ano. Isso exige importar aproximadamente 3,5 milhões de t/ano. Como o perfil dos petróleos nacionais tende a ficar mais pesado, característica da Bacia de Campos, a oferta de nafta tende a ser reduzida para menos de 6 milhões de t/ano, implicando o aumento das importações. No entanto, ao longo dos anos, a vantagem comparativa entre a petroquímica de nafta e a de gás está ficando mais apertada. O parâmetro básico de preço do gás natural do Brasil é o de Mount Belvieu, nos EUA, refletindo a situação atual de suprimento apertado, com valores inflados. Vão longe os tempos do gás a US$ 1,00 por milhão de BTUs, que hoje se situa por volta dos US$ 5. "O uso de nafta está ficando melhor do que o gás natural, principalmente porque a nafta tende a baixar de preço, acompanhando a acomodação dos preços do petróleo", afirmou Cunha, da Braskem. Além do custo, o uso de cargas líquidas permite obter produtos complementares. Situação semelhante apresenta o óleo diesel brasileiro, normalizado com baixo ponto de fulgor (38ºC), mas vendido, em média, com 42ºC, enquanto o padrão internacional (Europa e EUA) é de 55ºC. "A elevação do ponto de fulgor de 42ºC para 55ºC, como querem Anfavea [Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores] e Ibama [Instituto Brasileiro do Meio-Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis], liberará 700 mil t/ano de nafta, ou seja, 12% da oferta nacional", comentou. Na atual matriz de produção, as refinarias absorvem dois terços da nafta obtida no processamento do óleo cru. A petroquímica fica com apenas 20% do insumo, segundo o especialista. Para suprir suas necessidades, a Copesul importa 50% da nafta que consome, oriunda da Argentina e da Argélia. Essas operações foram autorizadas desde 2002. "Atualmente, a importação é vantajosa para nós", afirmou Schuck, sem citar os números, salientando que a Copesul é a central petroquímica brasileira que mais investiu para ser flexível em cargas. A Braskem importa 30%, segundo Cunha. No final de maio, embora o preço do petróleo tenha alcançado a faixa de US$ 40 por barril, a Petrobrás ainda não havia repassado o aumento de custo para a gasolina, mas o preço da nafta já fora atualizado. "No Brasil, a nafta custa mais caro que a gasolina: US$ 370/t, contra US$ 310/t", disse Schuck. Para ele, a estatal precisa definir com urgência sua estratégia para o setor petroquímico, incluindo a disponibilidade de matérias-primas, fixação de política de preços e da sua capacidade de investimentos. No campo do gás natural, ele espera que o Brasil consiga desenvolver usos para o gás natural, seja como combustível para veículos de transporte, seja para produzir eletricidade. "O aumento do consumo tornará viável a exploração de novas fontes de gás, como a Bacia de Santos ou mesmo na Bolívia", acrescentou. As cotações de gás nos EUA devem continuar altas, pois não há expectativas de mudanças na matriz energética até 2050.
|
|||||||
| <<< Anterior | |||||||