Cuca Jorge

Terrorismo no Oriente Médio provoca petróleo e compromete a esperada recuperação de lucros da petroquímica mundial

Marcelo Fairbanks

Ações terroristas na Arábia Saudita, o maior fornecedor de petróleo para o Ocidente, agravaram o clima de intranqüilidade no Oriente Médio, já antes conturbado pela invasão americana no Iraque. O resultado imediato foi a brusca elevação do preço do petróleo para a casa dos US$ 40 por barril (tipo Brent) em maio, com recuo em junho para valores acima de US$ 35. A insegurança de suprimento aliada ao aumento do consumo de derivados nos Estados Unidos deverá manter as cotações muito fora da banda de US$ 23 a US$ 28 por barril, anunciada no ano passado pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

A persistência da alta de preços na matéria-prima afeta diretamente o setor petroquímico, que iniciava um período de recuperação de preços e margens de lucro, com pico previsto para 2005. No caso brasileiro, o setor depende basicamente do processamento da nafta, item responsável por 80% dos custos. O aproveitamento de correntes de refino também tende a ser contaminado pelo preço do petróleo. Já a opção do gás natural, adotada pela Rio Polímeros, que entra em produção em fevereiro, será afetada pelo aumento das cotações no mercado americano, adotado como paradigma de preço.

Além da questão econômica, a divulgação, em maio, da revisão do Plano Estratégico da Petrobrás com vista a 2015 significou, para muitos analistas, uma ducha de água fria. O adiamento da divulgação, antes esperado para março, atiçou especulações variadas, entre as quais ganhou destaque o plausível movimento da estatal na consolidação de um novo modelo para o setor petroquímico. Nessa hipótese, a estatal incrementaria sua participação acionária nos pólos existentes (em todos eles, ou apenas em um), de modo a induzir a formação de um segundo grupo petroquímico de grande porte, nas dimensões da Braskem.

Para decepção desses analistas, a estatal anunciou que destinará US$ 1,1 bilhão para seus investimentos no setor petroquímico até 2010. Esse valor seria direcionado para quatro projetos novos: uma unidade produtora de polipropileno no Estado de São Paulo que aproveitaria gases disponíveis em refinarias; a formação de um pólo gás-químico em Mato Grosso do Sul; um complexo de ácido acrílico e derivados; e uma unidade de fenol. Feitas as subtrações correspondentes, a verba restante para a reestruturação setorial se revelou insignificante.

"Para nós, esse anúncio da Petrobrás não foi uma surpresa boa, nem ruim, foi indiferente", comentou o vice-presidente de novos negócios da Braskem, José Mauro Carneiro da Cunha. "O importante é contar com suprimento adequado de nafta e gás natural." 

Armando Guedes Coelho, diretor-superintendente da Suzano Petroquímica, entendeu o anúncio da estatal como recomendação para que os players do setor se ajustem sozinhos. "Isso quer dizer que a Petrobrás não tem mais nada a ver com a estrutura acionária do setor", comentou. 

Com larga experiência no setor de petróleo, tendo sido funcionário de carreira e presidente da Petrobrás, ele afirma que a estatal tomou a decisão mais acertada para investimento estratégico: concentrar seus esforços na oferta de petróleo. "Com o óleo a US$ 40/barril, seria um crime tirar dinheiro da produção para investir em qualquer outra coisa", afirmou. Além do retorno econômico mais favorável, ele destaca a importância de explorar rapidamente os campos descobertos pela empresa, dadas as regras de concessão vigentes, pelas quais é obrigatória a devolução ao Estado das áreas não exploradas.

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Coelho: futuro do setor é integrar-se ao refino

Recordando os choques do petróleo dos anos 1970 e 80 que causaram graves danos à economia nacional, Coelho aponta diferença significativa da situação brasileira. "Estamos caminhando para a auto-suficiência em petróleo, o que nos deixa em posição muito mais confortável", afirmou. Apesar de os preços elevados serem preocupantes, eles não devem ser vistos com tanto temor. "Esse dinheiro fica circulando dentro do País, é muito diferente da exportação de capitais que houve no passado", comentou. Ao contrário, Alemanha e Japão importam praticamente todo o petróleo que consomem. Os EUA dependem de suprimento externo para 70% de sua demanda.

Na análise do executivo, manter a produção de petróleo no Oriente Médio, em um ambiente de insegurança crescente, será muito difícil, pois a manutenção dos campos e da logística operacional é feita por empresas estrangeiras, muito visadas pelos terroristas. "Fica complicado manter os profissionais na região", disse. Caso o ambiente se degrade ainda mais, Coelho vaticina um profundo desequilíbrio de toda a cadeia petrolífera e da petroquímica mundial.

A demora da Petrobrás em repassar para a gasolina automotiva a elevação do custo internacional do petróleo reacendeu a idéia de desvincular o preço dos derivados das cotações internacionais, atrelando-o somente aos custos locais de produção. "A blindagem externa do Brasil exige que os preços sigam parâmetros internacionais, disso depende a confiança dos investidores", repeliu. "As leis precisam ser estáveis, sejam elas boas ou ruins".

Nafta ou gás - O setor petroquímico brasileiro só apresenta, atualmente, um investimento de vulto, a Rio Polímeros, que ofertará 500 mil t/ano de polietilenos quando estiver em regime pleno de operação. Apenas pequenas ampliações estão programadas, algumas ainda em suspenso, como a ampliação da produção de eteno (200 mil t/ano) na Petroquímica União a partir de gases de refinaria, ou já definidas, a exemplo das 50 mil t/ano adicionais de PVC da Braskem, que também ofertará mais 100 mil t/ano de polipropileno no Rio Grande do Sul.

A carência de novos projetos é generalizada no continente americano e na Europa. "O foco dos investimentos mundiais está direcionado para o Oriente Médio, onde há abundância de matérias-primas, ou no Extremo Oriente, onde há demanda crescente", comentou Cunha, da Braskem. Na sua avaliação, a petroquímica é uma atividade prioritariamente regional. "O Brasil não tem vantagens competitivas para ser um grande exportador petroquímico", disse. Por isso, as vendas ao exterior dificilmente se sustentam acima de 20% da produção, e devem ser direcionados para mercados próximos, por exemplo, a América Latina. Pólo exportador será o Oriente Médio, que não tem consumo interno relevante, embora disponha de gás natural muito barato.
Coelho, da Suzano Petroquímica, sócia da Unipar, Petrobrás e BNDES na Rio Polímeros, concorda com a avaliação de Cunha. "A exportação de resinas brasileiras é uma saída quando o mercado interno se retrai; dá algum fôlego ao setor, mas não é uma solução definitiva", explicou. Para ele, o nível médio das exportações setoriais se situa entre 15% e 20% da produção e não deve passar disso, pois a margem de lucro é baixa.

A Rio Polímeros exportará 30% de suas resinas nos primeiros quatro anos de operação, por força dos contratos de financiamento internacionais que captou para a construção. No quinto ano, o percentual cai para 10%. "Essa produção serve como garantia para os financiadores, além de aliviar um pouco a oferta no mercado interno", comentou Coelho. Mesmo assim, a oferta nacional de polietilenos receberá um reforço de 350 mil t/ano a partir de 2006.

Atualmente, a empresa desenvolve atividade de pré-marketing, comercializando resina similar a que será produzida no Rio. O fornecedor é a fábrica de polietileno da Braskem em Camaçari-BA, que conta com tecnologia similar (Unipol). O entendimento entre as duas grandes companhias era inimaginável há alguns anos. "Precisávamos comprar resina de algum fornecedor e preferimos adquiri-la de um fabricante nacional", comentou. Embora o relacionamento tenha melhorado entre os players, eles ainda disputam o mercado. Isso fica claro quando se fala na fábrica de polipropileno ratificada pela Petrobrás para São Paulo. "A Polibrasil tem interesse em disputar esse projeto, assim que o modelo de negócio esteja definido", disse. 

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