TINTAS

Empreendedorismo dá o tom do sucesso no pólo catarinense

Histórias de ousadia de empresários locais transformam o sul catarinense em importante região produtora de tintas, vernizes e solventes aromáticos

Fernando de Castro

Algumas iniciativas de ousadia e espírito empreendedor servem para ilustrar a história do pólo de tintas, vernizes e solventes aromáticos, erguido nos últimos 18 anos à margem da BR-101, na parte sul do Estado de Santa Catarina. Tem o balconista que se transformou em presidente de uma sociedade anônima e o dono de ferragem convertido num bem-sucedido fabricante de tintas e transformador de resinas termoplásticas. Há ainda uma empresa apostando na inovação com a tinta acrílica em estado pastoso para cobertura de paredes, inclusive de fachadas e outras áreas externas. Concorrência acirrada e troca de farpas são os outros ingredientes dessa indústria, formada por mais de dez empresas em sua grande maioria de médio e pequeno porte, na qual aparecem novos players da noite para o dia, e cuja estimativa aponta um faturamento de R$ 300 milhões em 2003. 

Albertino Colombo trabalhava atrás de um balcão em uma loja de material para construção civil em Criciúma, a principal cidade da região sul catarinense. Em 1986, ele decidiu deixar o emprego e tentar a sorte fabricando massa plástica para reparos em lataria de automóveis. Contam amigos e desafetos que nos tempos ainda de vacas magras percorria as lojas do ramo e oficinas de chapeação e pintura para oferecer seu produto com uma bolsa de couro estilo hippie para carregar as latas. Dez anos mais tarde, Colombo saltou em longa distância ao inaugurar uma unidade de produção de solventes e tíners nacionalmente conhecida pela marca Anjo, criada no vácuo da falência da Paulista, uma das principais fabricantes do solvente no país, à época.

De lá para cá, Beto Colombo, como faz questão de ser chamado, não parou mais de crescer. Agora, ele preside duas sociedades anônimas: a Companhia Sul Americana de Tintas e Solventes e a Companhia Brasileira de Tintas e Solventes (CBR). As duas juntas formam um parque industrial de mais de 15 mil metros quadrados e comercializam os produtos com nome comercial Anjo.  Fernando de Castro
Colombo: de balconista a bem-sucedido industrial

Sem contar os 220 empregos diretos pelos quais é responsável, Colombo detém 86% do mercado catarinense de tíners, perto de 50% da região sul e disputa a liderança nacional com os pesos pesados do segmento, como a Renner, Suvinil e Glasurit, essas duas últimas marcas comerciais da gigante Basf do Brasil.

A Companhia Sul Americana responde pela produção de tintas imobiliárias, industriais, repintura automotiva e por uma inovação do mercado brasileiro. A tinta emborrachada lançada há cinco anos contém uma carga de elastômero acrílico, sendo apresentada como produto totalmente livre de solventes, solúvel em água, com baixo odor e de fácil aplicação. A tinta-borracha é indicada para impermeabilização e proteção de telhados, fachadas e superfícies metálicas, evitando a oxidação ocasionada pelas intempéries. Funciona ainda como isolante térmico e acústico. Em caso de trincas, acompanha o grau de dilatação do concreto sem o rompimento do filme. O resultado é um revestimento capaz de esticar na proporção das rachaduras dos prédios, protegendo a aparência da superfície e agindo contra a infiltração e a umidade. "Tem outros fazendo o mesmo produto, mas fui eu quem lancei", assegura Colombo. A tinta emborrachada é oferecida ao mercado em 28 cores. 

De qualquer forma, o carro-chefe da Anjo continua sendo a linha automotiva, formada por 24 itens entre tíners diluentes e solventes, todas as configurações de massas plásticas e os esmaltes sintéticos. A empresa oferece também uma família de cobertura para o segmento industrial metal-mecânico. Já a CBR opera exclusivamente no mercado de tintas para impressão de embalagens em flexografia e os solventes específicos desse segmento. Somente no sul do Brasil vende 150 toneladas por mês. Na opinião de Colombo, os mercados de tintas e complementos estão em plena expansão e continuarão crescendo nos próximos anos. Sua previsão é produzir 40 milhões de litros de todos os produtos marca Anjo em 2004, sete milhões a mais em comparação com 2003.

Fundada em 1993, a Farben tem parque fabril com 5.000 m2 de área construída, localizado em Içara, um pequeno município desmembrado de Criciúma, e produziu 15,6 milhões de litros em 2003, 80% em tintas para a indústria de móveis, sendo que 40% são formulações personalizadas de acordo com as configurações químicas e padrões de cores estabelecidos pelos clientes. 

Fernando de Castro A Farben é outra empresa a encarnar o espírito empreendedor de seu dono: "Até os 26 anos eu era office-boy", faz questão de ressaltar o empresário Jayme Zanatta. Junto com o irmão Jorge, ele impulsionou a petroquímica de terceira geração do sul catarinense, nos anos 70 e 80, antes de partir para o mundo das cores. 
Zanatta era office-boy e hoje produz tintas moveleiras

A grade completa dos produtos para móveis da Farben é formada por seladores, vernizes, primers, lacas, tíners, acabamentos em poliuretano, catalisadores, diluentes, tingidores e massas. Há ainda uma linha de secagem ultravioleta formada por fillers, primers pigmentados, vernizes, tingidores e tintas para impressão. A Farben fabrica também revestimentos especiais em pátina, decapê, marmorizado acetona, marmorizado água, satinê, granito, craquelê, efeito teia de aranha e acabamento texturizado. Segundo Jayme Zanatta, a única empresa no Brasil com a mesma diversificação em produtos para pintura em madeira é a Sayerlac, divisão de tintas para móveis da Renner, uma das líderes do setor no Mercosul. 

Os outros 20% da produção Farben estão direcionados para tintas acrílicas, poliuretânicas e epóxi base água para o mercado imobiliário e os esmaltes sintéticos de reparação automotiva, mercado no qual a empresa ingressou recentemente. Tíners, solventes e massas plásticas também fazem parte da lista de produtos da empresa. Um dos pontos fortes da Farben no mercado de tintas é a rede de distribuição com 200 representantes e ação redobrada nas principais regiões do país. Além disso, consegue exportar cerca de 8% de sua produção para o Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolívia e México. De acordo com Jayme Zanatta, sua empresa mantém ainda uma rede de assistência técnica como suporte aos distribuidores. No seu entender, a tinta direcionada à indústria de móveis exige agilidade no caso de ocorrer defeitos com alguma das formulações. 

A Resicolor, de Siderópolis, a dez quilômetros de Criciúma, tem como carro-chefe uma gama variada de tintas imobiliárias com destaque para a linha completa de acrílicas e esmaltes sintéticos, algo em torno de 10 milhões de litros por ano, nos cálculos de seu diretor-administrativo e co-proprietário, Jaime Dal Farra. 

Nos últimos dois anos, peitou de frente as líderes do mercado nacional, Renner e Suvinil, ao lançar um sistema tintométrico, o Resicolor System para manipulação de cores personalizadas em pontos de vendas. Somente no Rio de Janeiro, são oito máquinas para a produção de mais de mil cores.  Fernando de Castro
Moreno (esq.) e Dal Farra: desenvolvimento próprio de sistema tintométrico desafia as multinacionais

Os equipamentos podem custar desde R$ 25 mil até R$ 50 mil para o dono da loja de material de construção. Segundo o diretor industrial da Resicolor, José Moreno, em Santa Catarina, a marca ocupou fatias de mercado da Renner. Segundo ele, o grupo gaúcho teve problemas com dezenas de revendas ao investir nos centros de pintura exclusivos. Com isso, diversas lojas deixaram de comprar seus produtos, abrindo espaço para o crescimento da Resicolor. Mas os tentáculos da empresa já encostaram no Rio Grande do Sul, no Centro-Oeste brasileiro, o Norte, o Sudeste e os principais mercados do Nordeste do país, em especial a Bahia e Pernambuco. 

A Resicolor fabrica 14 itens no segmento imobiliário: inseticidas, esmaltes sintéticos, tintas a óleo, acrílicas, impermeabilizantes elásticos, esmaltes acrílicos semibrilho e fosco, removedor de ferrugem, tíners, tintas para piso e uma linha fosca. Na área industrial, oferece revestimento rodoviário para demarcação de estradas com diluente redutor, repintura automotiva de segunda linha, vernizes e redutores para móveis, esmaltes para máquinas industriais e implementos agrícolas completam a lista. Nessas linhas de produtos, a Resicolor processa mais 2 milhões de litros ano, perfazendo 12 milhões de litros na grade completa de produtos da marca. 

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