A necessidade de contar com capital privado para se alcançar a universalização, para o vice da Abdib, fica evidente e, de forma  contraditória, também foi confirmada pelo governo. Tanto é assim que o Poder Executivo vem contando como arma principal para os investimentos de infra-estrutura as chamadas PPPs (parcerias público privadas). O problema é que sem um ambiente favorável, o que significa um marco regulatório que proteja os investidores e privilegie o respeito aos contratos, dificilmente sairão essas modalidades de gestão. “O capital privado existe, mas está literalmente parado, esperando para ver o rumo que os planos vão dar ao setor”, diz.

Até mesmo se o governo, o que não é muito provável, conseguir financiar as obras em saneamento sem a ajuda dos investidores privados, haveria um outro problema na opinião de Azevedo. Caso libere o dinheiro diretamente para as companhias de saneamento, o risco de malversação é muito grande. Isso porque dois terços destas empresas revelam despesas maiores que as receitas. E de acordo com um relatório recente da Controladoria Geral da União, após análise de 260 obras do período de 1999 e 2000, 52% das de abastecimento de água e 60% das de esgotamento sanitário têm irregularidades ou impropriedades. “Isso prova que o dinheiro público foi tratado com descaso”, conclui o vice da Abdib.

Inox –  Como 2003 foi um ano atípico negativamente, 2004, pelo pouco de encomenda recebida nos primeiros meses, sinaliza ser um pouco melhor. A própria Aquamec, empresa tradicional na fabricação de equipamentos e sistemas completos para tratamento de efluentes municipais e industriais, já sente uma leve retomada. “O ano começou bem, com projetos na Sanasa, em Campinas, e outros em vista em São Paulo e Minas Gerais”, afirmou o presidente da Aquamec, Sérgio Ceccato. Cuca Jorge
Ceccato investiu em caldeiraria a laser

Grosso modo, e apesar das indefinições, a expectativa maior para o ano continua sendo no setor público, responsável por quase R$ 150 milhões dos R$ 250 milhões do mercado total de equipamentos para efluentes (sem contar as obras da Petrobrás, que representam mais cerca de R$ 100 milhões em média). Além dos anúncios de verba federal, conta a favor desse panorama, segundo Ceccato, os planos eleitorais de alguns governadores de Estado, sobretudo o de São Paulo e Minas Gerais, que almejam a presidência ou, pelo menos, a reeleição.

Na seara privada, a previsão é ainda contar com os grandes projetos em setores exportadores, como o de papel e celulose, siderurgia e mineração. Um deles programado para este ano é o da fábrica de celulose Veracel, em Eunápolis-BA, uma megaobra de US$ 1 bilhão. Já o mercado industrial de porte um pouco menor, de indústrias mais voltadas para o mercado interno, a expectativa, segundo Gilson Cassini, do Sindesam e também da Aquamec, não é das melhores. “Enquanto o consumo interno não crescer, não há como a indústria investir”, diz.   Sérgio Ceccato
Grade do tipo step-screen: produzida em aço inox

Apesar desse cenário, as empresas do ramo de água e efluentes não deixam de investir em novas tecnologias, que normalmente são empregadas primeiro pelo setor privado. Para iniciar por um exemplo do segmento mais atingido pela crise, o de equipamentos, a Aquamec está apostando em uma tendência mundial de utilização de aço inox na caldeiraria para tentar modernizar seus fornecimentos. Em breve com um prédio próprio em Itu-SP, onde já possui uma fábrica convencional para preparação de chapas, corte e solda e montagem de seus equipamentos com capacidade de 150 t/mês, a Aquamec fundou em setembro de 2002 a Filaqua Laser, empresa equipada com máquinas de corte a laser específicas para o aço inox.

“O aço inox, muito mais resistente e sem necessidade dos revestimentos, que nem sempre funcionam, do aço carbono, precisa ser cortado a laser, muito mais preciso e sem o risco de deformar a peça”, explica Sérgio Ceccato, também professor de máquinas hidráulicas e mecânica dos fluidos na Escola Politécnica da USP. Para montar a nova linha, a Aquamec recorreu a financiamentos externos dos vendedores das máquinas (cada uma chega a 1 milhão de euros), a alemã Trumpf e a suíça Bystronic. Por enquanto, possuem duas máquinas, mas o objetivo é elevar o parque para cinco modelos.

Segundo Ceccato, muitos consumidores de equipamentos para efluentes já sabem das vantagens do aço inox sobre o aço carbono. “O movimento constante das partes submersas desgastam os revestimentos de epóxi do aço carbono a médio prazo”, diz. A migração só não é maior para o inox porque seu preço ainda é alto no Brasil, de três a seis vezes maior por quilo de aço (o teor de cromo que determina sua qualidade e seu valor). 

 “Apesar de ganhar no custo total da produção, ao se levar em conta os gastos de manutenção menores e as espessuras inferiores das peças, com o tempo seu preço deve cair”, completa Ceccato. A Açominas é a principal fornecedora do aço especial. 

A Aquamec já desenvolveu equipamentos em aço inox e fez alguns fornecimentos. São exemplos gradeamentos finos para comportas, aeradores, step-screens, removedores de lodo, prensas desaguadoras, peneiras de rolo, entre vários outros que também poderão ser nacionalizados em breve. Além do seu mercado de água e efluentes, a Filaqua Laser  também diversificará os serviços para mercados como montadoras e fabricantes de tratores, podendo suas máquinas cortar chapas de até 22 mm.  

Cuca Jorge
Cuetos: foco da Nalco voltou a ser privado

 

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