Fornecedores de equipamentos para efluentes esperam sair este ano de uma de suas piores fases, enquanto os formuladores químicos conseguem vender tecnologias para aumentar produtividade das estações O
desempenho do mercado de tratamento de efluentes reflete o atual estado de
ânimo da economia brasileira. Preocupante para muitas empresas,
principalmente ao se levar em conta a performance pífia de 2003, mas não
muito desanimador para outras cujas vendas se mantêm estáveis mesmo em
momentos de crise, o sentimento comum a todo o setor é o de cautela com o
futuro. E esse cenário tem uma explicação plausível: os esperados
investimentos públicos em saneamento ainda estão no campo da promessa e
a indústria apenas lentamente dá sinais de sair da letargia. A dicotomia entre os mais
e os menos preocupados tem a ver com a própria estrutura do setor de
tratamento de efluentes. Dividido entre os fornecedores de sistemas e
equipamentos, de um lado, e os vendedores de soluções e insumos químicos,
do outro, o impacto da falta de investimentos logicamente recaiu mais
sobre os primeiros. Em razão do desaquecimento da economia e da lentidão
do governo em definir sua política de saneamento, as cotações e concorrências
de novas estações de tratamento caíram drasticamente. Já o impacto
sobre os fornecedores químicos não teve o mesmo peso, tanto em virtude
do parque atual continuar demandando insumos, como porque muitas vezes a
escassez de capital intensivo para as obras de ampliação favorece a adoção
de tecnologias químicas para aumentar a produtividade do tratamento. Mas, independente das
diferenças no grau de impacto sobre o setor, o melhor para todos sempre
será contar com um ritmo de investimentos no mínimo razoável. “Há
muitos entraves que precisam urgentemente ser removidos para o setor
deixar de andar de lado ou para trás”, afirmou Gilson Cassini, desde o
início de fevereiro de 2004 presidente do Sindicato Nacional de
Equipamentos para Saneamento Básico e Ambiental (Sindesam), entidade da
Abimaq. Seu alerta se baseia no fraco desempenho da maior parte das 75
associadas do Sindesam. “Sei que muitas delas, empresas tradicionais com
mais de 30 anos no mercado, consideraram 2003 o pior da história”,
lamenta. A própria indústria dirigida por Cassini, a Aquamec, não foge
à regra. Segundo ele, o faturamento da empresa caiu pela metade no ano
passado. A causa imediata para a bancarrota foi o freio de mão puxado na indústria e logicamente a paralisia nas obras públicas. E é bom ressaltar que além do cenário macroeconômico outros fatores mais diretos ajudaram a criar esse clima de estagnação.
Apesar da dinheirama
prometida, o cenário ainda é de desconfiança. Caso esses recursos
realmente entrem, a dúvida seguinte dos participantes do setor é saber
se os investimentos necessários para alcançar a universalização dos
serviços de água e esgoto continuarão. Compartilha desse questionamento
o vice-presidente da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias
de Base (Abdib), Newton de Lima Azevedo. Para ele, é óbvio que o governo
sozinho não terá como bancar todos esses projetos, cuja demanda foi
avaliada pela secretaria nacional de saneamento em um total de R$ 178 bilhões
nos próximos 20 anos. Ou seja, para suprir a população com os
tratamentos adequados serão necessárias obras de R$ 9 bilhões por ano.
Isso fatalmente demandará a ajuda da iniciativa privada. A dúvida, segundo explica
Azevedo, é saber se o governo está disposto a deixar de lado as questões
ideológicas e atrair o capital privado. No primeiro ano de mandato, a
secretaria nacional de saneamento, anexa ao Ministério das Cidades,
passou elaborando dois projetos de lei que serão os pontos de partida
para os investimentos: um define o plano nacional e o outro, o marco
regulatório. Até aí tudo bem. Ocorre que essa elaboração,
teoricamente produzida com participação de todos os integrantes do
setor, desde sociedade civil até a iniciativa privada, não tem sido
muito bem-vista pela Abdib.
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