Nutritivo e gostoso Outro papel da casa de aroma centra-se na tentativa de auxiliar a indústria de alimentos a antever oportunidades de mercado. De acordo com pesquisas, o apelo saudável e a sensação de bem-estar embutidos nos produtos têm influenciado o consumidor na hora da compra. Por isso, a fim de alinhar as características do industrializado a esse conceito “natural”, o setor tem oferecido algumas alternativas inovadoras. Na avaliação do gerente geral da Ottens Flavors, de São Paulo, Mario Slikta, a indústria tem se movimentado no sentido de somar ao produto os benefícios nutricionais e o gosto agradável. Nesse caso, o aroma assume o papel de mascarador. “O aditivo viabiliza o avanço dos produtos saudáveis”, explica Slikta. Em função dessa direção da indústria, a companhia destaca a linha Ottens Plus. São realçadores de doçura e bloqueadores de amargor capazes de atuar sobre os receptores de sabores da língua, prolongando o pico de percepção positiva de aromas, enquanto bloqueia ou disfarça a percepção de sabores desagradáveis. Os produtos vitamínicos, caracterizados por sua indesejável amargura, foram os principais responsáveis pelo desenvolvimento desses produtos. Essa geração de ingredientes camufla off notes (notas desagradáveis), em geral, encontrados em nutrientes, como soja, vitamina B e ginseng.

 

Outra aposta da indústria dá conta da aromatização de alimentos à base de soja. Um dos lançamentos da marca Ottens Flavors trata-se da linha SavoryPlus Vegetarians Choice: uma geração de aromas salgados, destinada a alimentos vegetarianos industrializados. A tecnologia empregada permite o desenvolvimento do aroma de carne, galinha e carne de porco, para encobrir notas de alimentos à base de soja. “O produto fica saudável e com o gosto agradável”, afirma Slikta. Outra possibilidade em evidência seria a linha SavoryPlus Meatless Sensation. Desenvolvido para o mercado fast food, o aroma, ao ser aplicado em produtos de soja, reproduz os sabores de hambúrgueres, frango assado e cachorro-quente, entre outros. Neste sentido, Daniela apresenta uma alternativa para a indústria de aromas. Conforme as pesquisas apontam, há uma gradual substituição da gordura animal pela vegetal nas formulações alimentícias. Na avaliação dela, o aroma torna-se forte aliado na diminuição do impacto provocado por essa transição ao paladar do consumidor.

Nem a água, famosa por reunir a tríade: incolor, inodora e insípida, sai ilesa do apelo promovido pelo aroma. A partir da idéia de gerar a sensação de bem-estar à bebida, esta teve incorporado à sua formulação um toque peculiar ao dos sucos cítricos naturais, como laranja e lima. Na avaliação da Ottens Flavors, o mote de bem-estar também reflete o avanço das bebidas com aspectos funcionais, combinações entre a água mineral ou sucos e ingredientes estimulantes, como ginseng, taurina e vitamina B. Para Slikta, o conceito traduz, em parte, o ritmo da indústria de bebidas. Ele baseia a afirmação no mercado norte-americano. De acordo com a Beverage Marketing Corporation, o volume de bebidas energéticas nos Estados Unidos cresceu mais de 100% em 2001.  

Responsável por cerca de 30% de todo o setor, o segmento de bebidas tem sustentado as vendas das casas de aroma, sobretudo em época de crise econômica. “Nos últimos dez anos esse mercado cresceu muito, impactando de forma positiva o nosso setor”, comenta Martinez. Daniela aponta o segmento como atraente oportunidade para a indústria, por conta da diversificação da categoria. “Temos muitas opções, não só os carbonatados, mas chás, sucos e bebidas lácteas. Um leque amplo a ser explorado pelo setor”, explica.

Globalização de sabores – Cada vez mais próximo ao cliente, o fabricante de aroma tem assumido uma posição pró-ativa, com a apresentação de conceitos e novos produtos. Confirmando essa idéia, está um dos mais recentes projetos da Danisco, destinado ao mercado de sorvetes. Trata-se do Escape, um princípio a partir do qual a empresa fabrica aromas para sorvetes, de acordo com as particularidades de regiões específicas. “Há um sabor característico para determinados países. Temos o sorvete do México e da Indonésia, por exemplo”, comenta Daniela. De forma geral, os representantes das casas de aroma concordam: conhecer as particularidades da cultura local de onde querem se estabelecer é condição para a sobrevivência neste mercado. Com sede em Jaraguá do Sul - SC, a Duas Rodas tem adotado essa postura para manter seu market-share. A empresa se coloca como uma das maiores produtoras de ingredientes para a indústria de alimentos da América Latina e líder nos segmentos de aromas e produtos para sorvetes no Brasil. E não é à toa. Adotou como estratégia a expansão do negócio junto aos mercados onde quer atuar. Em 1996, montou a unidade de negócios de Rosário, na Argentina, incluindo rede de assistência técnica local. Um ano depois foi inaugurada a unidade industrial de Santiago, no Chile, e em 2000 adquiriu a de Palma, em Buenos Aires, Argentina. No ano passado, a Duas Rodas investiu R$ 15 milhões na construção de sua nova fábrica, em Estância, Sergipe.

A Givaudan desenvolveu um programa de inspeção científica para mapear as comidas típicas de cozinhas de todo o mundo. O projeto já abarcou países da Europa, Ásia e América Latina, entre outros. Trata-se do Taste Trek, uma espécie de expedição de cientistas pesquisadores, cuja missão é descobrir novos aromas. No ano passado, eles vieram ao Brasil, onde investigaram as moléculas de alguns pratos típicos do Nordeste e do Sul, além das frutas tropicais. A tentativa de recriar em laboratório os sabores de cada país rendeu experiências locais interessantes. No caso do Brasil, a companhia captou os aromas de feijoada, moqueca de peixe e frango de padaria (conhecido, popularmente, como frango de televisão de cachorro), só para citar alguns exemplos. Esses estão disponíveis para a produção dos salgados das indústrias de alimentos, como os snacks. Em linhas gerais, em campo, os cientistas captam os aromas e os levam ao laboratório, onde decifram as moléculas que os compõem, para dessa forma, reconstituir seu buquê. “Podemos promover sabores latinos lá fora”, afirma Galano. Na avaliação dele, essa integração entre os continentes é uma tendência de globalização do sabor.  

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